DOM QUIXOTE

Mário Watanabe, jornalista e cultor de generalidades, oficial da Ordem do Cavaleiro da Triste Figura, corintiano desde criancinha



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Angelina Jolie

Angelina e Brad Pitt no Festival de Cannes

“Este glamour é o que me dá projeção para lutar por melhores condições de vida para milhões de deserdados ao redor do mundo. Espero, assim, poder dar bons exemplos para meus filhos. No limite, é o objetivo que persigo. Ser uma boa mãe, uma boa cidadã.” É o que disse ontem a atriz Angelina Jolie, 32 anos, em entrevista durante o Festival de Cannes, segundo o crítico e repórter de cinema Luiz Carlos Merten, do Estadão.

Grande Angelina. Além de ótima atriz e bela mulher, ela é um ser humano admirável. Embaixatriz da Boa Vontade da ONU, distribui um terço de seus rendimentos, que não são pequenos, aos pobres do mundo. Tem uma filha, Shiloh, prestes a fazer 2 anos agora em maio, com o ator Brad Pitt, e espera dele gêmeos, mas é também mãe adotiva desde 2002. Os meninos Maddox, de 5 anos, e Pax, de 4, são respectivamente cambojano e vietnamita, e a menina Zahara, de 3, etíope.

Para Merten, ela procura ser “politicamente correta até debaixo d’água”. Talvez. Mas isso não retira o mérito do que faz.



Categoria: Outros assuntos
Escrito por Dom Quixote às 11h02
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O grau de investimento

Funcionários da administração do Tesouro brasileiro e de um banco americano em Wall Street abriram champanhe. Não era para menos. O Brasil conseguiu, pela primeira vez, atingir o grau de investimento, na avaliação da Standard & Poor’s, S&P, a maior agência de rating do mundo. Candidata-se, assim, a receber um rio de dólares, já que enormes fundos de pensão americanos, bancos internacionais e outros aplicadores conservadores tiveram removido um empecilho legal para investir aqui. O Ibovespa, índice da Bolsa de Valores de São Paulo, subiu 6,3% no primeiro pregão após a notícia, hoje chegou a passar dos 70 000 pontos e pode valorizar-se muito mais ainda. Já o dólar fechou hoje a 1,65 real, a menor cotação desde 10 de maio de 1999.

Lula comemorou à sua maneira, ou seja, diante de um microfone. Disse que se tratava de uma conquista do povo brasileiro. Foi até modesto, ao contrário de seu ministro da Fazenda, que acha que o grau de investimento veio só porque a economia brasileira – da qual supostamente é o dono da quitanda - está crescendo. Mantega se julga um economista tão competente que não hesita em calcular o impacto exato, em centésimos de porcentagem, de uma alta do óleo diesel na inflação. Para que perder tempo pensando em como um frete mais caro pode influir nos preços de uma infinidade de produtos agrícolas e industriais transportados nos caminhões? Decisões de reajuste, como o ministro e o mundo sabem, variam de empresa para empresa. Mesmo numa prova de curso de graduação Mantega seria reprovado com tal resposta.

Muito mais responsável do que o ministro pelo grau de investimento obtido é o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, porque as agências de rating apenas quantificam o risco no qual incorrem os investidores externos. Isso tem a ver muito mais com as condições de solvência do país e de suas empresas que tomam crédito no exterior, ou seja, a capacidade de honrar os compromissos assumidos com os credores, do que com o crescimento momentâneo da economia. Ao seguir ao pé da letra o regime de metas de inflação durante já quase um mandato e meio de governo, Meirelles tornou a economia brasileira muito mais previsível do que no passado, estimulando assim o setor privado a investir. Tudo o mais – crescimento da produção, da renda e do crédito, acúmulo de reservas, mesmo uma redução prolongada de juros – vem por conseqüência. Lula, é forçoso assinalar, teve um grande mérito ao manter Meirelles no cargo contra todas as pressões palacianas, com o vice Alencar e a ministra Dilma à frente, e dos ideólogos e economistas de meia-tigela do PT. Fez mais: embora graças ao aumento da arrecadação e não do corte de despesas, não abriu mão de gerar superávits primários na execução fiscal, e não deixou mexer no câmbio flutuante. Ou seja, seguiu direitinho a cartilha deixada pelo antecessor, Fernando Henrique Cardoso, mas até por isso merece aplausos, porque se adotasse o receituário petista nem dá para imaginar como estaria o Brasil a esta altura. Em melhor situação do que a atual não, com certeza.

De toda forma, a classificação dada pela S&P representa apenas uma conquista parcial. Para ser de fato um país grau de investimento, o Brasil ainda precisa de confirmação por parte de duas outras agências, a Fitch e a Moody’s. A primeira deverá fazê-lo em breve, uma vez que uma sua equipe esteve em Brasília para falar com técnicos do governo nesta semana. Já a Moody’s tem sido a mais crítica das três grandes agências, por entender que há uma fragilidade na área fiscal, com o aumento das despesas correntes do governo, e uma outra no perfil da dívida mobiliária federal, com uma alta concentração de vencimentos de curto prazo. A elevação da nota por ela não é, portanto, favas contadas. Além disso, por detrás das borbulhas de champanhe se pode ver que mesmo na escala de classificação da S&P o Brasil alcançou apenas o primeiro dos dez degraus de países tidos como confiáveis para investimento. Liderados pelos EUA, um conjunto de nove países, sendo seis europeus, mais a Austrália e o Canadá, está no topo da lista, com a nota AAA. Na América Latina, estão na frente do Brasil o México e o Chile, este, cinco degraus acima. Também não existe cadeira cativa nesse clube dos países confiáveis, como mostra a Colômbia, rebaixada para o grau especulativo pela S&P.

É bom, portanto, não exagerar nas comemorações, porque além das fragilidades apontadas pela Moody’s existem mais algumas, sendo a mais grave o estado lastimável da infra-estrutura, que põe a perder parte das safras de grãos nas estradas intransitáveis. Junto com as precárias vias de acesso, a absurda carga tributária, em primeiro lugar, e os altos juros, em segundo, compõem o que se conhece como custo Brasil, um handicap na exportação. E por falar nisso convém não esquecer que, no momento, a luz amarela pisca num fator conjuntural. De superavitárias as contas externas se tornaram deficitárias, com o desmesurado aumento das importações e das remessas de lucros para o exterior, causado pelo real valorizado. Em apenas três meses, de janeiro a março, foram 10,3 bilhões de dólares no vermelho. Há um colchão de segurança no nível das reservas, 195 bilhões de dólares, mas esse déficit conjuntural precisa ser corrigido antes que se transforme numa bomba-relógio. Por último, mas não menos importante, como diriam os ingleses, não se pode esquecer do desaquecimento da economia americana, em decorrência da crise de crédito imobiliário. Os efeitos já se espalham por outras economias, e o Brasil, pelas fragilidades apontadas, não está imune a uma perda cambial de grandes proporções.

Esperemos que o pior não aconteça. Mas, como prevenir é melhor que remediar, quanto antes se começar a consertar a infra-estrutura e promover as reformas que ainda faltam nas áreas previdenciária, tributária e sindical, sobretudo, melhor. Em outras palavras, Lula tem de descer do palanque e começar de fato a governar.



Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 20h48
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Sobre Isabella

Três homens foram detidos hoje à tarde pela polícia, por causa da arruaça que faziam, junto com outras pessoas, à porta do prédio em que mora o pai de Anna Carolina Jatobá, a madrasta de Isabella Nardoni, pedindo justiça pelo assassinato da menina. Dois deles, soube-se depois, possuíam ficha policial.

O professor Carlos Alberto Di Franco escreve, em seu artigo de hoje no Estadão: “A era do entretenimento, cuidadosamente medida pelas oscilações do Ibope, tem nos crimes e na violência um de seus carros-chefe. A transgressão passou a ser o espetáculo mais rotineiro de todos. Alguns setores do negócio do entretenimento, apoiados na manipulação do conceito de liberdade de expressão, crescem à sombra da exploração das paixões humanas. Ao subestimar a influência da violência ficcional, omitem uma realidade bem conhecida da psicologia: a promoção do sadismo como instrumento de diversão não produz a sublimação da agressividade, antes representa um forte incitamento a comportamentos anti-sociais. Morte, agressão e violência, realidades banalizadas por certos telejornais, acabam sendo incorporadas pelos criminosos potenciais. A onipresença de uma TV pouco responsável pode estar na origem de inúmeros comportamentos patológicos”.

Não deixa de ter razão o professor, mas ele é um idealista. A exploração das paixões humanas e a violência ficcional não são produto apenas de uma TV pouco responsável ou de telejornais sensacionalistas. Até nas artes plásticas e na música, para não falar do cinema, como obra solitária ou conjunta, a violência ficcional e a reproduzida do cotidiano constituem matéria-prima recorrente. Por isso, é um pouco exagerado chamar de irresponsável a TV que as divulga. Se ela o faz é porque esse tipo de material rende audiência. Como as redes de televisão deveriam agir: censurar-se, perder audiência e, em conseqüência, a receita publicitária, até o ponto de fechar as próprias portas? O que é melhor, do ponto de vista do interesse coletivo: ter uma TV com grande público, embora de duvidosa qualidade, ou uma TV de alta qualidade ética a que só alguns gatos pingados queiram assistir? Mais uma pergunta: o que vem a ser qualidade ética na programação da TV se a violência ficcional ou real mostrada na tela é produto ou de artistas, escritores, intelectuais, técnicos competentes no ofício, num dos casos, ou meramente reproduzido da realidade, no outro?

O caso Isabella, com toda a repercussão causada na opinião pública, nos obriga a refletir se, no fundo, a verdadeira hipocrisia não estaria na tentativa de cada um de nós de tentar ocultar que sob uma capa de civilidade temos todos um lobo indormido dentro de nós.



Categoria: Outros assuntos
Escrito por Dom Quixote às 21h05
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Bogart e o xadrez

Acabo de descobrir no site Chessgames.com, que recomendo aos aficionados desse esporte, que o grande Humphrey Bogart, um mito do cinema, foi também um bom jogador amador de xadrez. Tão bom que numa partida simultânea empatou com Samuel Reshevsky (26/11/1911-4/4/1992), um dos maiores enxadristas do mundo na época. Polonês naturalizado americano, Reshevsky foi seis vezes campeão de xadrez dos Estados Unidos e chegou a postular o título mundial. Menino-prodígio, com apenas 9 anos de idade, recém-emigrado com a família para o país, enfrentou 20 cadetes e oficiais da Academia Militar de West Point numa simultânea. Ganhou de 19 e empatou com um.

Bogart, inesquecível por seus papéis em filmes como O Falcão Maltês (The Maltese Falcon, 1941, de Howard Hawks), Casablanca (idem, 1942, de Michael Curtiz), À Beira do Abismo (The Big Sleep, 1946, também de Hawks), O Tesouro de Sierra Madre (The Treasure of Sierra Madre, 1948, de John Huston), Uma Aventura na África (The African Queen, 1951, também de Huston), A Condessa Descalça (The Barefoot Contessa, 1954, de Joseph L. Mankiewicz), Sabrina (idem, 1954, de Billy Wilder) e A Nave da Revolta (The Caine Mutiny, 1954, de Edward Dmytryk), entre outros, deixou viúva a bela e grande atriz Lauren Bacall, com quem fora casado de 1945 a 1957.

Conheceram-se durante as filmagens de Uma Aventura na Martinica (To Have or Have Not, 1944, outro filme de Howard Hawks), baseado numa novela de Ernest Hemingway e com participação no roteiro de ninguém menos que William Faulkner, também Nobel de Literatura. Era o primeiro papel de Lauren, selecionada por Hawks depois de vê-la na capa da revista Harper’s Bazaar. Dizia-se que Bogart estava interessado na outra atriz principal do filme, Dolores Moran, mas ele tinha olhos mesmo é para a Lauren, com quem se casou no ano seguinte, ele com 45 e ela com 20 anos (Bogart nasceu no dia de Natal de 1899, Lauren em 16/9/1924).

Companheira de todas as horas, Lauren foi com o marido uma ativista contra o macartismo, apesar dos riscos envolvidos. Por sinal, talvez para mostrar que não misturava as coisas, Bogart trabalhou com o diretor Dmytryk, um ex-colaborador macartista em A Nave da Revolta, junto com outros atores de peso como José Ferrer, Van Johnson e Fred MacMurray, e obteve sua terceira indicação ao Oscar como melhor ator por seu papel como o desequilibrado capitão do navio que é destituído do posto por um motim a bordo. As outras foram por Casablanca e Uma Aventura na África, esta última com sucesso.

Lauren também jogava xadrez e com talento, tanto que em 1945 seu casório com Bogart foi celebrado na capa da revista Chess Review. E em 1951 disputou contra ele uma partida que está nos anais do site Chessgames.com, registrada com o mesmo nome do filme no qual se conheceram. A abertura empregada por Bogart, jogando com as peças brancas, foi a Ruy Lopez, e a defesa escolhida por Lauren, a Espanhola, em fianqueto. Bogart precisou suar 31 lances até que a mulher abandonasse a partida.



Categoria: Outros assuntos
Escrito por Dom Quixote às 12h10
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Os stunts de dona Matilde

Na obra-prima Kagemusha – A Sombra do Samurai (Kagemusha, 1980), Akira Kurosawa mostra como jovens cortesãos serviam de escudos humanos para seus senhores no campo de batalha. Mal tombava um, outro se postava à frente para levar os tiros endereçados ao alvo real.

No Japão feudal e em outros lugares do mundo, reis, imperadores e governantes sempre tiveram seus escudos humanos, gente disposta a fazer o papel de bucha de canhão – isso, para não falar dos stunts, profissionais que substituem os astros de cinema nas cenas mais arriscadas. Em viagens ou nas masmorras, o provador experimentava antes a comida destinada ao rei, com o objetivo de evitar que este fosse envenenado. Napoleão, na sua soberba de se julgar um predestinado, não tomou esse cuidado e morreu por overdose de arsênio em 1821, na ilha de Santa Helena, onde fora confinado pelos ingleses após a Batalha de Waterloo. No atentado contra o presidente americano Ronald Reagan, em 1981, não foi um agente de segurança mas sim seu secretário de Imprensa, James Brady, quem levou um dos tiros disparados por John Hinckley, Jr, e se tornou paralítico. O próprio Reagan, recém-empossado para seu primeiro mandato, escapou por pouco. Uma das balas o atingiu a menos de uma polegada do coração.

Os interesses de Estado justificam a existência dos stunts da vida real. E morrer para proteger a segurança institucional não deixa de ser heróico. Mas no Brasil do governo petista surgiu uma nova categoria de stunts: a dos bodes expiatórios. Também eles se imolam, só que em nome de um difuso conceito de segurança institucional ligado mais aos interesses do partido do que da nação.

O mais famoso dos bodes expiatórios recentes foi o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares. Até hoje, de forma canina, ele continua a sustentar a versão de que foi o único responsável pela contratação dos financiamentos com os quais seu partido deu origem ao mensalão, embora até o concreto da rampa do Palácio do Planalto saiba que ele não tinha poderes para tanto.

Agora, a ex-ministra de Igualdade Racial Matilde Ribeiro acaba de dar uma contribuição de monta para aumentar a coleção de bodes petistas. Antes de ser obrigada a sair do governo por torrar dinheiro público com os cartões corporativos, quis livrar a própria cara demitindo dois assessores, segundo ela responsáveis por induzi-la a ‘erro administrativo’. Ocupante de cargo em que deveria cuidar da igualdade social, fez exatamente o contrário, defendendo políticas raciais e o primado da diversidade. Queria dar força, por essa via torta, à afirmação dos fracos e oprimidos, em oposição às elites dominantes. Mas quando se viu apertada não hesitou em jogar a culpa sobre os mais humildes. Cadê a coerência, dona Matilde?



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 18h07
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Jornalismo com tesão

Em sua deliciosa crônica de hoje no Estadão, Luis Fernando Verissimo fala do futuro incerto que a apocrifia propiciada pelos computadores reserva ao ofício de escritor. Qualquer um com alguma habilidade em imitar estilos pode produzir um texto e atribuí-lo a outrem, pois não há mais o papel escrito na máquina de datilografia e corrigido à mão, com aqueles rabiscos e garranchos que eram a impressão digital da autoria. Não há mais os originais, como diz Verissimo. Com o computador, passou a existir apenas a versão final.

De permeio (complemento perfeito para ‘outrem’, não acham?), Verissimo lamenta a troca, nas redações, “do metralhar das máquinas de escrever pelo leve clicar dos teclados dos micros”. Alguém ainda vai elaborar um tratado sobre as conseqüências dessa substituição para o jornalismo mundial, diz, porque as redações foram transformadas, de fábricas, em claustros. E defende, “sem muita convicção”, a tese de que a mudança de ambiente afetou o caráter do jornalista. Sem a necessidade do grito para se fazer ouvir e com o distanciamento do ofício de um barulhento trabalho braçal, escreve, hoje não vale mais “a velha máxima de que jornalista era de esquerda até o nível de redator-chefe e de direita daí para cima (...). A nova direita é filha do silêncio”.

Verissimo talvez exagere nessa conclusão, porque é sabido que a maioria das redações anda entupida de petistas, mas não há como contestar que nesses hoje claustros muitos jornalistas, se não o são, agem como se fossem de direita, no sentido etimológico da palavra, com sua contenção emotiva, seu conformismo diante de ordens superiores e sua adesão bovina a causas tidas como politicamente corretas.

Sou do tempo em que se jogava futebol com bola feita de folhas de jornal na redação. E em que, entre o matraquear das máquinas e dos falatórios, se ouvia o grito “Desce!”, para chamar o contínuo e lhe entregar as laudas de texto enroladas, depois de coladas na seqüência. E se tratava mesmo de descida, porque as laudas eram jogadas pelo contínuo no buraco aberto de uma coluna no meio da redação da Folha, para irem parar um andar abaixo na mesa do chefe da oficina (que é como se chamava a gráfica), o qual as distribuía entre os linotipistas, aboletados em suas máquinas alimentadas a chumbo quente. O material assim composto era depois colocado pelos paginadores dentro de molduras (ramas) do tamanho de uma página impressa de jornal, ajustado na altura com finas placas metálicas (entrelinhas), amarrado para não haver nenhum problema no transporte e levado para uma prensa (calandra), onde se produzia a página em negativo num material chamado flan. O negativo era depois copiado para a chapa que recobria o cilindro das impressoras. A gritaria na redação, o calor infernal liberado pelas linotipos na gráfica, os paginadores transpirando em seus macacões, tudo isso aproximava o trabalho ao de uma fábrica, jamais lembrando o atual ambiente ascético, inodoro e sem graça em que são feitos os jornais. De operários, os jornalistas foram transformados em barnabés de repartição pública, e isso, forçosamente, traz alguma conseqüência ao produto que fazem. Como diz Verissimo, seria mesmo o caso de alguém escrever um tratado sobre isso.

E não me venham com essa história de que a tecnologia ajudou na agilidade da notícia. Estávamos no fechamento, ali pelas dez da noite, quando se soube que barracos rolaram pela ribanceira numa chuvarada em Santos. Convocados pela chefia, o repórter Fraterno Vieira, o fotógrafo e o motorista de caminhão lá foram, numa louca descida pelas curvas da Anchieta. Vieira viu o desastre, falou com parentes das vítimas, escreveu o texto e transmitiu o material por telex, junto com as fotos (por radiofoto), a tempo de a notícia estar na primeira página do jornal nas bancas, de manhãzinha.

Vieira agiu como todos os repórteres daquela época. Foi até o local do evento para escrever sobre o que realmente vira e ouvira, porque as entrevistas e coberturas eram feitas assim, olho no olho entre jornalistas e depoentes, não por telefone como nos dias de hoje.

É claro que a tecnologia também serviu para aprimorar o jornalismo, ao facilitar o trabalho de pesquisa. Repórteres e editores perdiam muito tempo, antes, no resgate de dados que pudessem servir de referência para o texto. Com o passar dos anos, porém, mesmo essa vantagem material vem perdendo substância, porque aproveitando as facilidades donos de jornal e seus paus-mandados passaram a exigir produções a metro. É comum um repórter ter de escrever hoje duas, três ou até mais matérias por dia. Além disso, os prazos de fechamento se tornam cada vez mais apertados, por força da concorrência. Não há qualidade que possa resistir a essa pressão do tempo.

Causa inveja aos jornalistas brasileiros o expediente avantajado das publicações estrangeiras, em especial o das revistas americanas, com o triplo ou o quádruplo de equipes de redação em comparação com as nossas. O grau de profundidade das reportagens não é portanto produto exclusivo do talento e competência dos profissionais. Tem a ver, antes, com as condições materiais disponíveis, donde se conclui que também a qualidade da imprensa depende do desenvolvimento econômico alcançado pelo país.

Tudo pesado, o que se pode dizer é que faltam elementos para afirmar se com o passar dos anos a imprensa brasileira melhorou ou piorou. Hoje como ontem, há nela excelentes profissionais. Mas de uma coisa o pessoal da velha guarda tem certeza: a de que o jornalismo da máquina de escrever era feito com mais alegria do que o do computador e, por isso, com maior tesão.



Categoria: Outros assuntos
Escrito por Dom Quixote às 14h50
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É burro porque é pobre?

O suplemento cultural do jornal Valor de hoje aborda na reportagem de capa, assinada por Martha San Juan França, a instigante questão da evolução da inteligência humana, incluindo uma entrevista com o famoso pesquisador americano naturalizado neozelandês James Flynn, autor da tese de que o QI vem aumentando no mundo em até 20 pontos por geração de 30 anos. O chamado efeito Flynn foi comprovado em estudos feitos em diferentes países, o que também serviu para que seu formulador combatesse algumas teorias acadêmicas racistas. E, ao contrário do que o senso comum sugere, o pesquisador, hoje com 73 anos, mostrou que a evolução da inteligência e do conhecimento nas sociedades contemporâneas tem menos a ver com o ensino escolar formal e mais com a explosão de informações propiciada pela tecnologia.

Há muito tempo educadores do mundo inteiro se preocupam com os desníveis de QI dos alunos, na tentativa de encontrar um ponto médio para tornar as aulas aproveitáveis pelo maior número possível deles. Elaboraram-se assim diversos testes para a medição de habilidades cognitivas relacionadas com a inteligência, entre elas as da expressão verbal, do raciocínio lógico/matemático, do domínio espacial e do uso da memória. Mesmo esses testes, porém, vêm perdendo eficácia com o passar dos anos. Segundo Flynn explica no seu novo livro, What Is Intelligence? Beyond the Flynn Effect, ainda não traduzido no Brasil, isso se deve ao fato de que no mundo atual crescem as exigências de aplicação da chamada inteligência fluida, responsável pelo raciocínio abstrato e a resolução de problemas novos. Ou seja, tende-se a valorizar mais as habilidades para executar tarefas específicas do que as ligadas de modo genérico a um conceito mais global de inteligência.

A psicóloga Carmen Flores-Mendoza, do Laboratório de Avaliação das diferenças Individuais, da Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, também ouvida na reportagem, diz a esse respeito: “Os ganhos cognitivos (mostrados nos testes), portanto, podem ser de variada intensidade e diferente qualidade, dependendo da exigência presente em cada sociedade, cultura ou nação”. Segundo ainda a reportagem, a psicóloga desenvolve um trabalho com outros pesquisadores da América Latina para investigar a relação entre inteligência, rendimento escolar e riqueza das nações, a partir dos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos, Pisa, que mede o desempenho de alunos de 15 anos em 57 países, com o objetivo de oferecer indicadores sobre a qualidade dos sistemas educacionais. O programa, no qual o Brasil se tem saído muito mal, como seria de supor, permite avaliar basicamente o conhecimento de ciências, além da capacidade de entendimento da leitura e do domínio de noções de matemática. No quesito referente ao aproveitamento da leitura, os alunos brasileiros obtiveram a média de 396 pontos no ano 2000, contra 546 na Finlândia, 534 no Canadá e 529 na Nova Zelândia, ficando ainda abaixo de colegas latino-americanos como os mexicanos, argentinos e chilenos.

O trabalho em que Carmen se envolve, data venia, parte contudo de uma premissa equivocada. Ao relacionar níveis médios de QI da população com os de renda per capita, entendendo que quanto mais baixos os primeiros também menores são os segundos, confunde efeito com causa. É certo que conhecimentos maiores contribuem para acelerar o crescimento econômico, mas também não dá para negar que quanto mais rico o país, mais seus cidadãos têm acesso à cultura e às informações específicas geradas pelo progresso científico e tecnológico. O risco maior, o da simplificação inaceitável num trabalho acadêmico, estaria numa eventual conclusão de que povos com QI inferior se condenariam ao atraso eterno, quando existem muitos exemplos de países que deram saltos de desenvolvimento concentrando esforços na educação e no alcance de metas prioritárias. Sem contar o fato de que uma simplificação desse tipo infelicitaria Flynn e todos os outros pesquisadores sérios, que tanto têm lutado para provar que a inteligência, longe de ser um fator genético ou racial, pode ser aumentada e moldada pelo ambiente favorável.



Categoria: Outros assuntos
Escrito por Dom Quixote às 16h22
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Boas festas

 

Diz a lenda irlandesa que o anãozinho fez irromper um radioso arco-íris entre duas montanhas, e ele veio parar nos pés de Jimmy, o menino pobre que saíra a pescar para dar de comer à família, trazendo-lhe um pote cheio de ouro e pedras preciosas. Portanto, fica aqui esclarecido, para quem quiser, que o pote do tesouro fica no final do arco-íris, e não no começo, como alguns teimam em afirmar.

Diz a Bíblia, no Gênesis 9:13 a 17, que o arco-íris é o sinal do pacto indicado por Deus a Noé, para que este e os demais sobreviventes soubessem que jamais haveria outro dilúvio para limpar a terra de todos os maus-caráteres que a habitam, embora talvez isso faça falta nos dias de hoje. E Deus repetiu a Noé, conforme o Gênesis: “Este é o sinal do pacto que deveras estabeleço entre mim e toda a carne que há na terra”.

Segundo os cientistas, o arco-íris não existe realmente como um sítio no céu, porque se trata apenas de uma ilusão de óptica, causada pela luz do sol se refletindo em gotas de chuva. Ainda de acordo com os frios homens da ciência, sete cores formam o arco-íris, começando com o vermelho e terminando com o violeta. Entre essas duas pontas, há um seqüência de cinco outras cores. Se você quer saber qual é ela, ensina a Wilkipédia, diga “Vermelho lá vai violeta”. A expressão ‘lá vai’ contém o l de laranja, o a de amarelo, o v de verde, o a de azul e o i de índigo (anil).

Você prefere ficar com a lenda irlandesa, a Bíblia ou os cientistas? A escolha é sua, mas este blog deseja que neste Natal um arco-íris inunde de luz a sua alma, e que em 2008 você continue a dividir o pote de ouro e pedras preciosas que há dentro de você com os parentes, amigos, desconhecidos e até alguns desafetos mais antigos, como prêmio por sua constância. Afinal, valoriza mais os amigos quem tem inimigos – e o ano novo pode ser uma excelente oportunidade para você tentar trazer mais gente para o lado de cá.



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Escrito por Dom Quixote às 20h48
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Bola pra frente

Com o rebaixamento para a série B definido, a esta altura de nada adianta aos corintianos promover uma caça às bruxas, buscar os culpados pelo insucesso do time no Campeonato Brasileiro para crucificá-los em praça pública. Culpados há, certamente, e vários, a começar dos dirigentes que firmaram a parceria com suspeitíssimos investidores estrangeiros, em proveito muito mais dos próprios bolsos do que do futuro do Corinthians. Mas o encerramento neste domingo, com o empate diante do Grêmio, da crônica de uma morte anunciada, é apenas um capítulo, quiçá passageiro, de uma história de quase 100 anos de muitas glórias. Por isso, o melhor que os novos dirigentes corintianos podem fazer agora é começar já os trabalhos para 2008. O time tem de ser outro, porque do atual só se salvam o goleiro e mais uns dois ou três. Bola pra frente, porque essa torcida merece. “Eu nunca vou te abandonar”, dizia um cartaz nas mãos de um corintiano esta tarde, na arquibancada do Estádio Olímpico.  E é verdade. Mesmo durante o longo jejum de títulos no Campeonato Paulista, entre 1954 e 1977, a legião de torcedores do clube não diminuiu. Ao contrário, só fez crescer, porque em família corintiana é assim: ao nascer o filho, antes do nome dá-se a ele a camisa amada.

É nas derrotas que se forja o caráter. Oxalá esteja surgindo hoje, no mesmo dia do rebaixamento do clube para a segunda divisão, um novo Corinthians, muito mais forte do que o anterior, pronto para atravessar um período de conquistas como nunca antes se viu igual em sua história.



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Escrito por Dom Quixote às 19h32
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Grande figura

Fiquei sabendo de uma história maravilhosa hoje, por minha amiga Mara Luquet. Segundo ela, o Armênio Guedes, amigo comum nosso e figura histórica do pecezão brasileiro, resolveu casar, com papel passado e tudo, com sua companheira de vários anos, Cecília. O Armênio deve estar beirando, se não erro na conta, 92 anos. Que fantástico, alguém com essa idade casar. Se viver até essa idade, quero ser como ele. Sempre de bem com a vida, bem-humorado, sem ditar regras ou lições para quem quer que seja. Quero ser como o Armênio.



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Escrito por Dom Quixote às 16h40
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Futebol de sobrenomes

Na primorosa crônica que publica hoje no Estadão, a propósito do indecoroso drible aplicado por Robinho no jogo de quarta à noite no Maracanã, o colunista Antero Greco diz que o futebol perdeu o encanto dos exageros. “Na verdade, é isso: falta exagero no futebol, estamos carentes de hipérboles, de imagens emocionantes, de manchetes rasgadas”, escreve ele. “Faltam apelidos para nossos astros. Não há mais Diamante Negro, Divino, Dinamite, Peito de Aço, Cabecinha de Ouro. Hoje, quando um atleta se destaca, tratam de acrescentar-lhe o sobrenome, como sinal de deferência. É o caso de Afonso, até anteontem um ilustre desconhecido, que virou Afonso Alves depois de ser convocado para a seleção e de fazer sete gols no time do Padre Chico, na Holanda. Por que não virar Afonso Demolidor ou Afonso Trombador? Sei lá, algo mais divertido. Não, logo tem de ser Afonso Alves, para conferir-lhe peso, seriedade, credibilidade. Ah...”

Está coberto de razão, o Greco. Como descrever sem exagero o drible de Robinho, que passou como uma enguia pelo marcador equatoriano em não mais que meio metro de terreno, escondendo a bola entre as pernas? Que adjetivo faria justiça àquele instante de pura magia, ainda mais nós outros, a turma da galera, sabendo que podemos passar anos sem ver coisa igual?

“O futebol virou careta, acadêmico, politicamente correto e outras bossas do gênero. Enfim, coisa de almofadinha, de mauricinho que se incomoda se algo sair do script”, diz ainda Antero Greco, também acertando na mosca. E a culpa disso, acrescentaria este blogueiro, modestamente, cabe em grande parte à Fifa. Por exemplo, que absurdo é esse de punir um clube com perda de pontos ou de mando de jogo só porque um idiota qualquer da torcida resolve invadir o campo ou arremessar um chinelo em direção ao goleiro? Que culpa tem um clube de ser amado por idiotas? É por esse tipo de equívoco nas normas impostas ao jogo que ocorrem episódios como os de Rojas, naquela partida entre as seleções do Chile e do Brasil no Maracanã, que se cortou para simular ter sido atingido por um rojão, ou de Dida, há poucos dias, que caiu se contorcendo como se o tapinha do torcedor inglês que invadiu o gramado fosse um soco do Mike Tyson. Dida não estaria hoje sendo ridicularizado pela imprensa européia se fizesse o que quis fazer, inicialmente, ao correr atrás do torcedor. Poderia ter passado uma rasteira no sujeito, ou dado um bom pontapé em seu traseiro. Não, deve ter pensado, não ficaria bem. Melhor fingir-me de vítima. E se atirou ao chão com a luva no rosto.

Quanto à moda de jogador com nome e sobrenome, de um ridículo sem tamanho, ela só pegou porque o futebol hoje é dominado pela mediocridade. Talvez seja por isso, em protesto, que Zidane se despediu com aquela monumental cabeçada no peito de Materazzi. Um craque como ele, um virtuose da mais fina estirpe, ser ofendido por um perna-de-pau como o italiano? Só mesmo uma cabeçada, para manter o respeito.

Não dá nem para imaginar locutores da era de ouro do futebol narrando lances de jogadores com nome e sobrenome. Um Mário Vianna, um Ary Barroso, um Edson Leite, um Pedro Luiz, um Geraldo José de Almeida, um Osmar Santos com seu ‘ripa na chulipa’, um Fiori Gigliotti, na boca de qual deles soaria bem um ‘Afonso Alves’, em lugar de Dinamite, Dadá, Divino e outros apelidos? Não haveria graça nenhuma, muito menos para o futebol daquela época.

A homenagem de Antero Greco à arte de Robinho é, portanto, mais do que justa. Num breve momento, o Maracanã reviveu naquele drible seus bons tempos.



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Escrito por Dom Quixote às 08h37
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Notícias do Brasil – 2

Há algum tempo venho sendo impedido de publicar mais notas no blog por um defeito técnico que o UOL me prometeu mas não conseguiu, ou nem tentou, corrigir. Trata-se do seguinte. Quando você mexe na formatação do texto, o portal o obriga a publicar a nota assim mesmo, com um título em letras pequenas e um quadro com estrelinha a emoldurar todo o conjunto. Se quiser aumentar o tamanho do título, acontece o desastre: um segundo quadro é criado, só com o título, de forma sobreposta ao primeiro.

Reclamei do problema há umas três semanas, prometeram estudar uma solução e até hoje nada. Bem ou mal, os blogs ajudam o UOL a melhorar a audiência. O portal, no entanto, trata seus blogueiros não patrocinados com total descaso, virtualmente a pontapés.

Diante disso, o que devo fazer?, pergunto à minha meia-dúzia de leitores. Abandono o terreno inóspito e migro de vez para o Blogger, o serviço gratuito do Google, onde mantenho um espelho deste blog UOL? Lá é muito mais fácil postar notas. Só não sei se os meus poucos leitores acompanharão a mudança. Orientem-me sobre o que fazer, portanto, por favor.



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Escrito por Dom Quixote às 10h53
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Notícias do Brasil

“Casal teria recebido TV, DVD e R$ 50 em troca do filho de nove meses”.  A informação está no portal do UOL hoje, no gomo Últimas Notícias, e o fato ocorreu em Juazeiro, na Bahia. O pai da criança tem 18 anos, e a mãe, 17. Os dois ainda criam uma filha de 1 ano e 7 meses. Um casal do Rio de Janeiro foi impedido de embarcar com o bebê num ônibus em Juazeiro, diante dos protestos de uma tia dele.

Que triste notícia. Quantos bofetões na cara ainda sofreremos desse outro Brasil?



Categoria: Outros assuntos
Escrito por Dom Quixote às 10h29
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O mito Guevara

 

A foto do pôster, de Alberto Korda

“Não vai aproveitar a história, sr. Scott?”, pergunta o senador Ransom Stoddard. “Isto é o oeste, senhor. Quando a lenda se torna fato, publique-se a lenda”, responde o jornalista Maxwell Scott, enquanto rasga o papel em que fizera anotações da entrevista.

Mestre John Ford sabia do que falava quando sintetizou assim, nesse diálogo entre os personagens do senador (James Stewart) e do jornalista (Carleton Young), a história do homem que involuntariamente colheu as glórias de um ato de bravura realizado por outro (o rancheiro vivido por John Wayne), em O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, de 1962), sua derradeira obra-prima cinematográfica.

Lenda e fato. O binômio se aplica também à história de Che Guevara, o mito revolucionário que sobrevive ao passar do tempo no pôster famoso que gerações de jovens, muitos deles hoje de cabelos encanecidos, puseram em seus quartos para reverenciar o ideal do heroísmo altruístico.

A revista Veja que começa a circular hoje revisita a história, em reportagem de capa assinada por Diogo Schelp e Duda Teixeira. Traz alguns detalhes novos, mas não acrescenta muito ao que já se sabia sobre o Che, cuja figura romântica na lenda nada teve a ver com o homem, um comandante militar desastrado, um ministro incompetente e, acima de tudo, um assassino sanguinário e cruel.

Nenhuma reportagem, entretanto, por mais brilhante e reveladora que seja, conseguirá abalar uma versão cultuada universalmente, assim como ocorre no filme de John Ford, ainda mais quando o mito tem as dimensões de Guevara. Por isso, o verdadeiro herói da revolução que em 1959 derrubou o regime de Fulgencio Batista em Cuba, Fidel Castro, passará à história como um velho chato, que fazia discursos de sete horas, enquanto o falso herói, Ernesto Guevara Lynch de la Serna, nascido em Rosário, na Argentina, em 14 de junho de 1928 e morto em campanha na selva boliviana de La Higuera, em 9 de outubro de 1967, será sempre um ícone de jovens rebeldes à procura de uma causa. A diferença fundamental entre os dois é que um morreu pela causa, e ainda por cima sendo jovem, destemido e belo, enquanto o outro continua por aí vivo, embora com os sinais da velhice a sulcar o rosto desprovido de encantos e com o corpo arqueado e algo balofo pateticamente enrolado num uniforme militar.

‘Vivas intensamente e morras jovem. Serás um lindo cadáver’, dizia uma máxima em voga nos anos 50 entre os garotos da burguesia que, enfiados em seus blusões de couro e entre uma Coca-Cola e um racha ao volante de seus carrões envenenados, para se sentirem in curtiam isso de buscar algum sentido mais profundo para suas existências faustosas e vazias. James Dean, morto a bordo de seu Porsche Spyder prateado aos 24 anos, é o maior símbolo desse mal du siècle revigorado um século depois dos poetas românticos, na era do consumo made in USA que tomou conta do mundo após a Segunda Guerra.

Primogênito de família abastada, asmático, formado em Medicina, Guevara, em sua louca perseguição por aventuras, personificou a seu modo também esse inconformismo juvenil da época. Tinha 30 anos quando entrou triunfalmente em Havana para tomar o poder, com seus camaradas de armas. Pagou porém um tributo pela inexperiência. Tudo indica que procurava mascarar a insegurança com exageradas demonstrações de liderança e com seu radicalismo marxista, não hesitando em apertar o gatilho contra qualquer um que julgasse ser inimigo da causa.

Sua voluntariedade agressiva a serviço da noção – acertada, como a História do século 20 mostrou – de que não se implanta o comunismo a não ser pela via armada transformou-o num estorvo para Castro, interessado naquele momento em aproximar-se da antiga União Soviética para receber ajuda financeira e militar. A partir daí, começou o calvário da queda de Guevara, primeiro perdido entre as guerras tribais do Congo e depois nas matas inóspitas da Bolívia, cujo campesinato não demonstrou a menor receptividade à revolução intentada por ele. Capturado num dia e executado no outro, o guerrilheiro chamado por companheiros de ‘el chancho’ (o porco) por não gostar de tomar banho, foi lavado e penteado antes de seu corpo ser apresentado à imprensa internacional. E, segundo a reportagem da Veja, moradores das redondezas que estiveram na lavanderia do hospital em que o cadáver estava sendo limpo saíram impressionados com a semelhança física do morto, com aquela barba de muitos dias por fazer, com Cristo.

A boa pinta de Guevara, valorizada nesse dia e também antes, em 1960, pelo ângulo da câmera do fotógrafo cubano Alberto Korda no pôster famoso, contribuiu sem dúvida para o surgimento e a permanência do mito. Outros fatores favoráveis nesse sentido, como lembra a revista, foram o fato de ele ter morrido ainda jovem, aos 39 anos, e a ocorrência quase em seguida de uma onda internacional de protestos em defesa dos direitos civis, de agitações estudantis e da mudança de costumes ditada pela contracultura.

Mas se é importante saber como se forjou o mito, isso não garante que se possa descontruí-lo. A imagem romântica do Che, mesmo não sendo verdadeira, está profundamente inculcada em corações e mentes como um símbolo da mais bela das utopias humanas, a de que o mundo um dia será habitado não por opressores e dominados, ricos e pobres, mas por iguais. Ou seja, em matéria de elevação do espírito humano, o mito vale mais que a realidade. Nesse caso, publique-se a lenda, diria o jornalista do filme de John Ford.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 20h54
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Elis e Adoniran, no Bixiga

A tecnologia nos transporta no tempo. E jóias perdidas entre fragmentos da memória rebrilham, em registros recuperados. Que maravilha, esse site de vídeos do YouTube! A turma da velha guarda, misturada aos mais jovens, como que trabalha para que o passado não se perca.

Vejam, por exemplo, o que acabo de receber de um amigo. Um link para rever Elis Regina e Adoniran Barbosa, juntos, inicialmente num boteco do Bixiga, reduto italiano e da boemia paulistana, comendo e cantando, e depois caminhando pelas ruas do bairro. Iracema, a que morreu atropelada por atravessar a rua na contramão, as pizzas voando na briga generalizada em Um Samba no Bixiga, o genial verso, um dos mais lindos da música popular brasileira, ‘Deus dá o frio conforme o cobertô’, em Saudosa Maloca, essas preciosidades podem ser ouvidas nos dois vídeos, em seqüência.

Adoniran foi um cronista de sua época. Poucos compositores conseguiram, como ele, pintar em sua música retratos tão nítidos do ambiente em que viviam. É como escreve o mestre Antônio Cândido. “Esta cidade que está acabando, que já acabou com a garoa, os bondes, o trem da Cantareira, o Triângulo, as cantinas do Bixiga, Adoniran não a deixará acabar, porque graças a ele ela ficará misturada vivamente com a nova mas, como o quarto do poeta, também, “intacta, boiando no ar”, diz ele, no texto que também pode ser visto no link, junto com os vídeos. Cândido refere-se à contínua transformação da cidade que a sua geração conheceu – “São Paulo muda muito, e ninguém é capaz de dizer aonde irá” - e à força com que o grande compositor a retratava.

E há ainda Elis Regina, com seu riso solar, bebendo cerveja de garrafa em copo Americano, o cigarro aceso nos dedos e cantando como nunca nenhuma cantora brasileira, antes ou depois, cantou ou consegue cantar. Clique aqui e se transporte para esse passado luminoso.



Categoria: Outros assuntos
Escrito por Dom Quixote às 00h07
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