DOM QUIXOTE

Mário Watanabe, jornalista e cultor de generalidades, oficial da Ordem do Cavaleiro da Triste Figura, corintiano desde criancinha



Um espelho deste blog pode ser visto em http://d1quixote.blogspot.com

BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, Cinema e vídeo, Arte e cultura, Literatura, Música, Xadrez e Futebol






Histórico
 Ver mensagens anteriores



Categorias
Todas as mensagens
 Política
 Economia
 Outros assuntos



Visitantes

online




Votação
 Dê uma nota para meu blog



Eu e meu amigo Sancho


MEUS FAVORITOS

Política e economia
 Blog do Noblat
 Reinaldo Azevedo
 Certezas & Dúvidas
 E-agora
 Miriam Leitão
 Arnaldo Jabor
 Aluízio Amorim
 Blog do Tambosi
 Azimuth
 Jus Sperniandi
 Nariz Gelado
 Fernando Rodrigues
 Josias de Souza
 Roberto Romano
 Diego Casagrande
 Panorama
 Instituto Millenium
 Seguindo pelo Lado Direito
 Congresso em Foco
 Repórter Social
 Alerta Brasil
 Escrevinhações
 Livre Pensamento
 Mara Luquet
 Editora Letras&Lucros
 Blog do Jofe
 Marco Antonio Rocha
 Patrícia Campos Mello
 Economática
 Finanças Estadão
 Séries BC
 Banco Central
 Procon-SP
 Clipping

Humor
 Millôr Online
 José Simão
 Blogroch@Gênesis
 Sei lá, Entende?
 Mijanonaarvinha
 Kibe Loco
 Blônicas

Cinema e cultura
 Letteri Café
 No mínimo
 Releituras
 Cinema-Rubens Ewald
 Marcelo Bernardes
 Engenho e Arte
 Ave, Palavra!
 Almanaque Mineiro
 Nei Lopes
 Rabiscos Poéticos & Cia.
 Blog da Santa
 Pentimento
 Cyncity
 O livro de Rosamaria
 Isabel Filipi
 Bibliomania
 Nossa Língua
 Cartas a Théo
 Museu do Louvre
 Museu do Prado
 Museu Metropolitan
 Capela Sistina
 PhotoForum
 Músicas Terra
 Músicas UOL

Esportes e games
 Juca Kfouri
 Corinthians - site oficial
 Lancenet
 Pogo-Games
 Ajedrez21

Portais e publicações
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis
 UOL Online
 Portal Terra
 Jovem Pan
 Folha Online
 Estadão Online
 Globo Online
 JB Online
 Valor Online
 Correio Braziliense
 Jornal de Brasília
 Estado de Minas
 Zero Hora
 O Estado do Paraná
 Diário Catarinense
 A Tarde
 Jornal do Commercio
 Diário da Manhã
 Tribuna de Alagoas
 O Liberal
 Primeira página
 Jornais no Mundo
 Revistas e Jornais
 BusinessWeek
 The New Yorker

Outros assuntos
 Comunique-se
 Consultor Jurídico
 Última Instância
 Weblog
 BuscaPé




BUSCA DE MÚSICAS
Quem canta, seus males espanta.
Procure aqui as letras e gravações
de suas músicas favoritas






POSTS SELECIONADOS

Política
 Cassado mas aposentado
 Em memória de Ulysses
 Corda no pescoço
 Imprensa e corrupção
 Não há crime sem corpo?
 Agora faz sentido
 Cursinho de ética
 Olho neles
 Jogado aos leões
 Só a eloqüência não basta
 No reino dos arapongas
 O chão começa a faltar a Lula
 A pizza está na mesa
 Morales ganha na Bolívia
 Omissão escandalosa
 Facada nas costas
 Escolha complicada
 O Chile vai às urnas
 A pressão popular funciona
 Miudeza de varejão
 Saco de gatos
 Dinheiro curto
 Criminosos impunes
 Pesquisas, votos e bodes
 Que país é este?
 O PT e a imprensa
 Francenildo, um herói
 Mãe brasileira
 Não furte migalhas
 Sobre a imprensa

Economia
 O buraco é mais embaixo
 O feijão e o sonho
 Uma gota no oceano
 Bordunas são para trogloditas
 A troca de Palocci e os pizzaiolos
 Falsa dicotomia
 O feitiço contra o feiticeiro
 Falsa conquista
 Farra de gastos
 A nova relíquia bárbara?
 Na rabeira das nações
 Com o chapéu alheio
 Os números e os fatos
 Os bancos e o poder
 Chamem os 3 Patetas

Outros assuntos
 Em defesa de Gérson
 Rebelde sem causa
 Luz da maturidade
 História de um delator
 Paixão, fé e tecnologia
 A estréia será num dia 13
 Miss Mundo digital
 Privilégio odioso
 Nacionalismo intempestivo
 Tempos modernos
 Fronteiras invisíveis
 Sobre a Opus Dei
 Jorge, um solitário
 Tardio e discutível
 O boxe no cinema
 Jóias da MPB
 Festa para os olhos












UOL
 
Luneta
 

Sobre pais e filhos

O texto abaixo foi copiado de mensagem que circula pela internet.

 

O Dr. Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi e fundador do Instituto M. K. Gandhi para a Vida Sem Violência, em sua palestra de 9 de junho, na Universidade de Porto Rico, compartilhou a seguinte história protagonizada por ele e seus pais como um exemplo da vida sem violência:

"Eu tinha 16 anos e estava vivendo com meus pais no instituto que meu avô havia fundado, a 18 milhas da cidade de Durban, na África do Sul, em meio a plantações de cana-de-açúcar.

Estávamos bem no interior do país e não tínhamos vizinhos. Assim, sempre nos entusiasmava, às duas irmãs e a mim, poder ir à cidade para visitar amigos ou ir ao cinema. 

Certo dia, meu pai me pediu que o levasse à cidade para assistir a uma conferência que duraria o dia inteiro, e eu me apressei de imediato diante da oportunidade. 

Como iria à cidade, minha mãe deu-me uma lista de coisas do supermercado, das quais necessitava, e como iria passar todo o dia na cidade meu pai pediu que me encarregasse de algumas tarefas pendentes, como levar o carro à oficina. 

Quando me despedi de meu pai, ele me disse: "Nós nos veremos neste local às 5 horas da tarde e retornaremos à casa juntos".

Após, muito rapidamente, completar todas as tarefas, fui ao cinema mais próximo. Estava tão concentrado no filme, um filme duplo de John Wayne, que me esqueci do tempo. Eram 5:30 horas da tarde, quando me lembrei. Corri à oficina, peguei o carro e dirigi velozmente até onde meu pai estava me esperando. Já eram quase 6 horas da tarde quando cheguei. 

Ele me perguntou com ansiedade: "Por que chegaste tarde?" Eu me sentia mal com o fato, mas não lhe podia dizer que estava assistindo a um filme de John Wayne. Então, afirmei que o carro não estava pronto e que tive de esperar. O que eu não sabia é que meu pai já havia ligado para a oficina.

Quando ele se deu conta de que eu mentia, disse-me: "Algo não anda bem na maneira pela qual te tenho educado, pois não te proporciona confiança em dizer-me a verdade. Vou refletir sobre o que fiz de errado contigo. Vou caminhar as 18 milhas até nossa casa e pensar sobre isso". 

Assim, vestido com seu traje e seus sapatos elegantes, começou a andar de volta a nossa casa, por caminhos que nem estavam asfaltados, nem iluminados.

Não podia deixá-lo só. Assim, dirigi por 5 horas e meia atrás dele, vendo meu pai sofrer por uma mentira estúpida que eu havia dito. Decidi, naquele momento, que nunca mais iria mentir. 

Muitas vezes me recordo desse episódio e penso: se meu pai me tivesse castigado do modo com que castigamos nossos filhos, teria eu aprendido a lição? Não acredito. Se eu tivesse sofrido um castigo imposto apenas a mim, continuaria fazendo o mesmo. Mas tal ação de não-violência foi tão forte que a tenho impressa na memória como se fosse ontem.

Este é o poder da vida sem violência."



Escrito por Dom Quixote às 17h45
[ ] [ envie esta mensagem ]



Por onde se dá o impeachment

As repetidas alegações de inocência por desconhecimento, apresentadas por políticos envolvidos em denúncia de uso de caixa 2 por seus partidos, seriam mais aceitáveis se tais alegações não configurassem, no mínimo, uma leviandade de comportamento de profissionais do ramo perante a legislação eleitoral. Esta diz que, se ao partido político cabe arrecadar e distribuir da melhor forma os recursos de campanha, ao candidato cabe ser o fiador da verdade na hora da prestação de contas sobre os gastos realizados. No artigo 21 da Lei 9504, de 30 de setembro de 1997, que trata do assunto, está escrito com todas as letras o seguinte: "O candidato é o único responsável pela veracidade das informações financeiras e contábeis de sua campanha, devendo assinar a respectiva prestação de contas sozinho ou, se for o caso, em conjunto com a pessoa que tenha designado para essa tarefa".

Ocorre que, pelo mesmo texto legal, a Justiça Eleitoral se obriga a julgar a regularidade das contas apresentadas até oito dias antes da diplomação dos candidatos, tendo sido estes eleitos ou não. Para dirimir dúvidas que ainda restem nessa data-limite, por ter o tribunal eleitoral entendido que são de somenos, os candidatos e os partidos precisam manter em seu poder, por até 180 dias depois da diplomação, os documentos concernentes à prestação de contas. Por aí se vê que a lei não prevê a cassação de mandato a posteri, mesmo que, meses ou anos depois da diplomação, surjam evidências de gastos irregulares ou de uso de recursos vedados, como os provenientes de contribuições de entidades e governos estrangeiros.

Portanto, caso seja comprovada a denúncia publicada pela revista Veja, de que na campanha eleitoral do presidente Lula houve dólares vindos de Cuba, com a interveniência, inclusive, de um alto funcionário do regime de Fidel Castro, o partido de Lula, o PT, pode até perder seu registro no Tribunal Superior Eleitoral, deixando legalmente de existir, mas o presidente estará isento de qualquer punição.

O que está escrito na lei eleitoral sobre o prazo para o julgamento de contas certamente poderá ser usado na argumentação pela inculpabilidade do primeiro-mandatário do país. Contudo, qualquer que seja o tipo de ilícito porventura cometido, e mesmo que este já esteja prescrito, um presidente da República pode ser julgado e condenado não pelo ato em si, mas por acobertá-lo, faltar com a verdade em relação à própria participação ou ter se omitido diante do fato.

O jurista Ives Gandra da Silva Martins conta que, quando o presidente americano Bill Clinton se viu à beira do impeachment por causa de seu envolvimento com a estagiária da Casa Branca, Monica Lewinsky, os juízes da Corte Suprema do país inclinavam-se a degolá-lo não pelo adultério conjugal, que não justificaria a medida, mas pelo fato de Clinton ter mentido ao afirmar que não tivera o caso com a estagiária. O processo de impeachment foi interrompido porque o presidente depois se retratou, admitindo que faltara com a verdade.

No caso dos dólares cubanos revelado pela revista Veja, se a denúncia for comprovada por investigações da Polícia Federal e do Ministério Público, o presidente Lula poderá ser responsabilizado por omissão ou acobertamento, mesmo que não tenha participado diretamente da operação de internação fraudulenta de recursos no país. Isso porque, no fundo, o que vai estar em pauta no seu caso não é o crime financeiro, nem o eleitoral, e sim o de responsabilidade. E, aí, alegar que de nada sabia não vale porque, como foi dito acima, a legislação eleitoral diz que o candidato é que responde pela veracidade da prestação de contas, e não o partido.

Talvez seja por isso que o Planalto está tão preocupado com a iminente instalação de uma nova CPI, a do Caixa 2, pedida pela oposição, bem como com a representação que o PSDB e o PFL, em conjunto, e o PPS, em separado, anunciam que vão apresentar aos Ministérios Públicos Federal e Eleitoral na próxima semana. A nova CPI e as representações poderão abrir as primeiras fendas no muro erguido para evitar que a crise suba a rampa do Palácio.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 23h18
[ ] [ envie esta mensagem ]



Uma bomba no colo do PT

A edição de número 1929 da revista Veja, que começa a circular hoje, traz uma bomba. A reportagem de capa da revista denuncia, com impressionante riqueza de detalhes, que o Partido dos Trabalhadores, PT, recebeu ajuda em dinheiro vivo – 1,4 milhão de dólares numa versão, e 3 milhões de dólares em outra – diretamente de Cuba, durante a campanha eleitoral do presidente Lula. A remessa do dinheiro a partir da ilha de Fidel Castro teria ocorrido entre agosto e setembro de 2002.

É certamente a mais grave de todas as acusações que já foram feitas contra o PT no atual escândalo político porque, ao contrário dos indícios antes colhidos sobre uso de dinheiro estrangeiro pelo partido, a nova denúncia não tem como supostas testemunhas doleiros condenados pela Justiça, como Toninho da Barcelona. Desta vez, quem confirma a história levantada por Veja são dois ex-assessores do ministro Antonio Palocci, da Fazenda, o advogado Rogério Buratti e o economista Vladimir Poleto, que trabalharam com o ministro quando ele era prefeito de Ribeirão Preto, interior paulista.

Buratti diz que foi procurado por Ralf Barquete, então secretário da Fazenda de Ribeirão Preto, morto por um câncer em junho de 2004, para se informar sobre a melhor maneira de trazer 3 milhões de dólares de Cuba para a campanha de Lula. Diz ainda que Barquete o procurou a pedido do então prefeito da cidade e atual ministro da Fazenda, Palocci. O advogado, que atuava como consultor informal da Prefeitura, teria então sugerido que o dinheiro fosse trazido por doleiros. 

A confirmação da mesma história pelo economista Poleto tem maior peso, porque ele foi o encarregado de ir receber o dinheiro em Brasília, das mãos de um alto funcionário cubano, Sérgio Cervantes, amigo do presidente Lula e também do deputado e ex-ministro José Dirceu. Segundo o que Poleto contou à revista, ele embarcou em Congonhas num jatinho Seneca emprestado pelo empresário Roberto Colnaghi, dono de uma fábrica de equipamentos de irrigação agrícola da região de Ribeirão Preto e outro amigo do peito do atual ministro Palocci, e em Brasília recebeu das mãos de Cervantes três caixas de papelão – sendo duas de uísque (uma de Black Label e outra de Red Label, ambos da marca Johnny Walker) e uma de rum cubano, Havana Club – para levar de volta a São Paulo.

Poleto diz que não sabia dos dólares escondidos nas caixas, o que é risível porque não dá para imaginar alguém se aboletando de São Paulo a Brasília só para apanhar algumas garrafas de bebida alcoólica, que nem são das mais caras do mercado. Soube depois por Ralf Barquete, afirma, que havia transportado 1,4 milhão de dólares.

O ex-assessor da Prefeitura de Ribeirão Preto conta ainda que, na volta, por causa do mau tempo na capital paulista, o jatinho em que viajava precisou pousar em Viracopos. Depois de esperar algumas horas, grudado como cão de guarda às caixas de papelão trazidas de Brasília, ele viu surgir Barquete num Ômega preto blindado, dirigido pelo motorista Éder Eustáquio Soares Macedo. A encomenda teria sido então colocada no porta-malas do carro e levada para o comitê eleitoral de Lula na Vila Mariana, zona sul da capital paulista, onde já a aguardava o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, há pouco expulso do partido após ser transformado em bode expiatório. 

 

Vladimir Poleto (foto Luludi/Ag.Luz)

Essa é, em resumo, a história escabrosa revelada na edição de Veja que começa a circular hoje. A revista lembra que o uso de dinheiro do exterior em campanhas políticas é expressamente proibido pela legislação eleitoral, sujeitando o partido beneficiado à punição extrema, que é a cassação do registro no Tribunal Superior Eleitoral. Ou seja, caso a Justiça cumpra o seu papel, depois das devidas investigações pela Polícia Federal, o PT simplesmente deixará de existir. O presidente Lula e os demais candidatos às próximas eleições veriam, assim, o chão lhes faltar debaixo dos pés.

Mas não é só. A internação de dinheiro vindo de fora por baixo do pano, seja escondido em caixas de papelão, seja em alguma cueca, é o mais grave dos crimes financeiros que podem ser cometidos, de acordo com as leis brasileiras. Capitulado no Código Penal como lavagem de dinheiro, o crime sujeita o autor – que a julgar pelas informações colhidas por Veja seria o atual ministro Antonio Palocci – a uma pena de até 10 anos de cadeia, mais multas. Subsidiariamente, como a lavagem de dinheiro é feita com sonegação fiscal, o criminoso pode ser condenado a outra pena, de até 2 anos de prisão mais multas. E como se trata de crime que exige a participação de outras pessoas, o autor principal e seus comparsas podem também ser condenados por formação de quadrilha, punida com até 3 anos de prisão.

Ironicamente, os órgãos públicos que têm maior responsabilidade na fiscalização para coibir a lavagem de dinheiro - o Banco Central, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, Coaf, e a Secretaria da Receita Federal – são todos subordinados ao Ministério da Fazenda.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 19h14
[ ] [ envie esta mensagem ]



Outra acusação contra Dirceu

As agruras por que tem passado o deputado José Dirceu poderão não acabar com a provável cassação de seu mandato pelo plenário da Câmara, em sessão por enquanto prevista para o dia 9 de novembro. Mesmo depois de ser expelido do Congresso e perder seus direitos políticos até 2015, ele ainda pode ter de enfrentar na Justiça um processo por improbidade administrativa, referente ao período em que foi ministro da Casa Civil do governo Lula. Ontem os procuradores Luciano Rolim, Michele de Barros, Anna Carolina de Azevedo e Eliana Rocha, do Ministério Público Federal, entraram na Justiça Federal com uma ação civil pública contra o deputado, seu filho José Carlos Becker - mais conhecido como Zeca, atualmente prefeito de Cruzeiro do Oeste, no Paraná -, e o ex-braço direito de Dirceu no Ministério, Waldomiro Diniz.

Segundo a denúncia apresentada pelos procuradores, Dirceu e Diniz teriam montado um esquema de favorecimento dentro da Casa Civil para, por meio de liberação de verbas federais a obras tocadas em municípios do oeste paranaense, região de influência de Zeca, ajudá-lo na sua eleição para a prefeitura de Cruzeiro do Oeste no ano passado. Bem ao estilo do pai, em nota oficial que distribuiu Zeca afirma ser inocente, ataca a imprensa de mover contra ele uma campanha e vê na ação dos procuradores uma tentativa de relacionar os fatos arrolados (que teriam ocorrido ainda em 2003) "à crise política nacional".

Dos três acusados, Zeca é o que tem melhores condições de se defender da acusação, por conta da imunidade propiciada pelo mandato e do direito a foro privilegiado de julgamento. A pior situação é a de Diniz, sem nenhum mandato popular e ainda flagrado ao extorquir propina de Carlos Cachoeira, empresário do ramo de bingos. E no meio-termo, pelo menos por enquanto, situa-se Dirceu. Se ele for cassado, entretanto, no dia seguinte se transforma em cidadão comum, sujeito como todos os outros aos rigores da lei e não mais podendo recorrer, como tem feito, ao Supremo Tribunal Federal para retardar processos de investigação. Ou seja, mesmo que não venha a sofrer nenhuma outra punição além da perda de mandato e de direitos políticos por suposto envolvimento em casos de corrupção e crime eleitoral, poderá haver essa outra ação, protocolada ontem pelos procuradores do Ministério Público, a atazanar seus futuros dias como simples cidadão.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 01h18
[ ] [ envie esta mensagem ]



Cada vez mais perto do fim

Com o embargo declaratório que conseguiu ontem do ministro Eros Grau, no Supremo Tribunal Federal, o deputado José Dirceu, do PT, obteve uma raquítica vitória. O despacho do juiz, dado em reforço à sua decisão da última terça-feira de acolher o pedido de liminar do deputado contra o parecer favorável à cassação de seu mandato - sob alegação de nulidade por juntada ilegal de provas –, apresentado pelo relator do Conselho de Ética, Júlio Delgado, do PSB de Minas Gerais, terá apenas o efeito de atrasar um pouco mais o andamento do processo na Câmara dos Deputados.

Diante da sentença de Grau de que o relatório deve ser refeito, Delgado agora precisará elaborar um novo texto ao invés de apenas suprimir trechos baseados nas provas sub judice, como o fizera para que na sessão de ontem o Conselho pudesse votar seu parecer. Assim, o resultado de 13 votos contra 1 registrado no órgão está invalidado, e além de nova leitura do relatório deverá haver nova sessão de votação, já marcada para a próxima segunda-feira pelo deputado Ricardo Izar, presidente do Conselho. "Vamos refazer o relatório, mas o resultado da reunião de segunda-feira será o mesmo de hoje", afirmou Izar. Para ele, estaria havendo "uma interferência do Judiciário no Legislativo".

Pertinente ou não a segunda declaração do presidente do Conselho de Ética da Câmara, o fato é que a mais alta instância da Justiça no país não correspondeu, até agora, às expectativas alimentadas por Dirceu. Além de não emplacar a alegação inicial de inexistência de quebra de decoro porque, no período abrangido pelas denúncias que o envolvem, era ministro de Estado e, portanto, não exerceria o mandato parlamentar, ele teve o dissabor de ver seu segundo recurso à corte ser aceito mediante uma ressalva essencial, a de que a liminar não tolhia a continuidade do processo no Conselho de Ética. O ministro Grau se ateve à letra da lei, como era de seu dever, e se algum reparo cabe ao seu despacho ele não passa da observação de que deveria ter sido mais claro, quando da concessão da liminar, sobre a necessidade de o relatório do deputado Júlio Delgado ser reescrito.

Assim, o processo de cassação do ex-homem forte do governo Lula parece caminhar inexoravelmente para o fim, que é a decisão do caso pelo plenário dos 513 deputados da Câmara. Na sessão invalidada de ontem do Conselho, Dirceu só teve a seu favor o voto solitário da deputada Ângela Guadagnin, única representante do PT entre os 15 integrantes do órgão depois que os deputados Chico Alencar, do Rio de Janeiro, e Orlando Fantazzini, de São Paulo, abandonaram o partido para se filiar ao PSOL da senadora Heloísa Helena. E o placar só não foi de 14 a 1 porque o presidente da Comissão, o deputado Izar, absteve-se de votar por não haver necessidade do voto de Minerva.

Somados os dois resultados das etapas de julgamento preliminares do processo, os 13 a 1 de ontem no Conselho de Ética e os 39 a 15 de anteontem, na Comissão de Constituição e Justiça, Dirceu já foi condenado por 52 deputados e absolvido por apenas 16. E a menos que ele e seus advogados tenham algum outro coelho escondido na cartola, para reverter o quadro, essa clara inclinação da maioria da casa deverá ser confirmada no julgamento final pelo plenário. A lâmina da guilhotina se aproxima de seu pescoço.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 03h39
[ ] [ envie esta mensagem ]



Não há crime sem corpo?

 

Pouco antes de a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara impor mais uma derrota ao deputado José Dirceu, do PT, em suas movimentações para não ter o mandato cassado por quebra de decoro, negando por 39 votos a 15 seu pedido de anulação do processo no Conselho de Ética da casa, o ator José de Abreu e os escritores Fernando Morais e Consuelo de Castro estiveram no recinto do órgão para distribuir um manifesto em favor do parlamentar.

Subscrito por 92 artistas e intelectuais - entre eles, além dos três portadores do documento, o arquiteto Oscar Niemeyer, o pintor Claudio Tozzi, teatrólogos como Augusto Boal, Antonio Abujamra e Gianfrancesco Guarnieri, atores como Paulo Betti, Osmar Prado e Guilherme Fontes, cineastas como Tizuka Yamasaki e Luiz Carlos Barreto, jornalistas como Flávio Tavares e o ex-assessor de Imprensa da Presidência da República, Ricardo Kotscho, economistas como Frederico Mazzuchelli, Luciano Coutinho e Luiz Gonzaga Belluzzo, e ainda empresários como Cosette Alves, ex-dona do Mappin, e Lawrence Pih, dono do Moinho Pacífico -, e intitulado "Em defesa da democracia e da Constituição – Cassação do deputado José Dirceu é um ato de injustiça", o documento propõe-se a defender o indefensável.

Mesmo admitindo que "milhões de cidadãos não escondem sua decepção com a contaminação do PT por este expediente tradicional e perverso de nosso sistema político", numa referência ao uso de caixa 2 pelo partido do governo, em "grave delito", o manifesto afirma que a exploração pública do assunto, feita pela oposição, "contraria preceitos constitucionais e revela ranço antidemocrático". E acrescenta: "Ignoram-se o direito de defesa, a presunção da inocência, o devido processo legal e a isenção investigativa".

Ainda de acordo com o documento, "nos momentos de maior histeria, o objetivo chegou a ser o mandato delegado pelo povo ao presidente da República. Mas desde o início da crise, de forma intensa e incessante, o peso principal de tamanha artilharia recaiu sobre o deputado José Dirceu de Oliveira e Silva, ex-presidente do PT e ex-chefe da Casa Civil", contra quem não existiriam "indícios materiais que o vinculem aos recursos irregulares".

Em resumo, o que os signatários fazem é aceitar sem nenhuma restrição a argumentação usada por todos os principais envolvidos do PT no atual escândalo político, a de que não sabiam das irregularidades cometidas debaixo de suas barbas e narizes. Se tal versão for verdadeira, porque crível ela não é, configuraria a existência de uma total falta de comando, uma bagunça generalizada na condução do partido que tem a responsabilidade de ser o principal sustentáculo político do atual governo.

Outra aceitação integral do que vem sendo dito, neste caso pelo deputado José Dirceu como base de sua autodefesa, está no argumento da falta de provas e, mais ainda, de indícios materiais. Primeiro, é preciso considerar que não é pela inexistência de comprovação que um crime deixa de existir, de um ponto de vista moral, embora o criminoso possa escapar à Justiça. E, se assim é, andam mal os artistas e intelectuais que, entre a moral e um requisito da prática judicial, ficam com este.

Segundo, o argumento é inconsistente para o fim pretendido, porque qualquer julgamento político, no Brasil, no restante do mundo democrático e mesmo nas ditaduras, é feito com base em indícios de evidência do crime, e não em provas, sobretudo as materiais. Se até numa acareação com acusadores, transmitida pela TV, como aconteceu ontem na CPI dos Bingos entre os irmãos do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel, e o secretário particular do presidente Lula, Gilberto Carvalho, o acusado sustenta sua versão de inocência, esperar que o deputado José Dirceu confessasse alguma participação no esquema de corrupção denunciado contra o PT, ou apresentasse algum documento escrito a comprovar seu eventual delito (prova material), é acreditar em conto da carochinha. É muita ingenuidade, ainda mais para intelectuais.

Para desgosto previsível dos signatários do manifesto, de cuja companhia se furta, estranhamente, a filósofa Marilena Chauí, aquela para quem o PT é o construtor da democracia no país – não obstante isso ser contraditado pela prática de um partido que elege bodes expiatórios como o ex-tesoureiro Delúbio Soares para livrar a maioria de responsabilidades e também por sua própria bandeira socialista -, depois da Comissão de Constituição e Justiça, ontem, hoje será a vez de o Conselho de Ética votar, muito provavelmente, contra a pretensão do deputado Dirceu de manter seu mandato.

Vale registrar que, na sessão de ontem, não foram só os partidos de oposição que condenaram Dirceu. Dos oito representantes do PMDB, supostamente da base aliada do governo por ter até ministros, sete votaram contra ele. E mesmo dentro de seu próprio partido, o PT, o deputado colheu um voto contrário, o do presidente da Comissão, Antônio Carlos Biscaia, do Rio de Janeiro.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 02h40
[ ] [ envie esta mensagem ]



Difamante com foto e RG

 

O senador Jorge Bornhausen, de Santa Catarina, presidente do PFL, foi à tribuna hoje para manifestar sua revolta contra o autor dos cartazes, afixados pelas ruas de Brasília, em que aparece caracterizado como nazista numa fotomontagem. "Não vou aceitar ser achincalhado", afirmou, assegurando que faz uma "oposição responsável e fiscalizadora" do governo.E disse estar aguardando a investigação pedida à Polícia Civil para a identificação de seu difamante.

Procurando colocar panos quentes na história, o líder do governo no Senado, Aloízio Mercadante, do PT paulista, além de solidarizar-se com Bornhausen quis afastar de seu partido a responsabilidade pela difamação. "É uma agressão de um anônimo", afirmou.

Para seu azar, não existe anonimato, pois as digitais, a foto, o endereço e a cédula de identidade do agressor já estão à disposição das autoridades policiais. O autor declarado da iniciativa é o sindicalista Avel Alencar, funcionário do Serpro e diretor do Sindicato dos Profissionais de Processamento de Dados do Distrito Federal. Além de assumir a paternidade pelos cartazes (3.000 unidades confeccionadas), nos quais, segundo afirma, gastou 1.060 reais pagos do próprio bolso, mas sem dizer quem autorizou a afixação deles em outdoors, Alencar procurou inocentar o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, apontado por políticos do PFL como o verdadeiro responsável pela difamação.

A suspeita do envolvimento de Marinho decorre do fato de ele ter afirmado, na semana passada, que "Bornhausen tem saudades do Hitler" e o PFL se via perdido em suas ações de oposição. A reação do ministro, por sua vez, foi motivada por uma declaração anterior do senador, que em agosto se disse "encantado" com a crise do PT e do governo porque, depois do atual escândalo político, o país estaria "livre dessa raça pelos próximos 30 anos".

Embora fique claro pelo contexto da fala que o senador não estava emitindo algum preconceito étnico como o de Hitler, que mandou assassinar 6 milhões de judeus na Segunda Guerra, mas sim um juízo político de valor sobre os integrantes do PT, o ministro Marinho torceu o fato para elaborar uma frase de efeito. Pior ainda, ele, sim, é que pode ter cometido um ato falho, pois a muitos pareceu que fazia a associação por causa da ascendência alemã de Bornhausen.

Da mesma extração, aliás comum nas manifestações petistas, foi a declaração de apoio ao ministro dada pelo sindicalista, em complementação ao seu esforço para inocentá-lo de envolvimento. "Eu e Marinho pensamos igual. Somos petistas, somos de esquerda, somos socialistas", afirmou Alencar. Tudo bem. Mas o que isso tem a ver com a difamação da honra alheia, crime capitulado no Código Penal, como instrumento de ataque político?



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 22h40
[ ] [ envie esta mensagem ]



Mesquita sai do PSOL

Senador Geraldo Mesquita

Acusado de forçar funcionários de gabinete a colaborar com um "mensalinho" de 40% dos salários para financiar seus próprios gastos, o senador Geraldo Mesquita, do Acre, anunciou hoje sua desfiliação do PSOL, o partido presidido pela senadora Heloísa Helena, de Alagoas. O anúncio foi feito poucas horas depois de a Corregedoria do Senado ter instaurado sindicância a respeito, não sem antes Mesquita ter ocupado a tribuna para se dizer inocente e atribuir a acusação a uma orquestração da "gangue do PT".

Nesse episódio, o PSOL, partido fundado pela senadora alagona depois de ter sido expulsa do PT, junto com mais três colegas que votaram contra matéria de interesse da agremiação do governo, consegue angariar uma notoriedade positiva ainda não alcançada por nenhuma das outras representações nanicas do Congresso. Antes cotado para ser o vice de Heloísa na chapa do partido para as próximas eleições presidenciais, assim que surgiu a denúncia Mesquita teve contra si uma representação encaminhada ao Conselho de Ética pela própria senadora. Tal lisura de comportamento não encontra paralelo na crônica partidária dos tempos atuais, nem entre as agremiações nanicas, nem, muito menos, no PT que se julgou bom demais para a senadora.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 20h50
[ ] [ envie esta mensagem ]



Grau não ajuda Dirceu

 

Como se podia prever, o ministro Eros Grau, relator nomeado pelo Supremo Tribunal Federal, STF, para julgar o pedido de liminar do deputado José Dirceu, do PT - apresentado sob a alegação de que o parecer favorável à sua cassação, lido no Conselho de Ética da Câmara, anexou documentos protegidos por sigilo sem a necessária fundamentação jurídica -, decidiu sozinho a questão, sem submeter o voto à consideração de seus pares da corte como fez na semana passada o ministro Sepúlveda Pertence, em outro recurso interposto pelo deputado. Sua decisão, contudo, embora favorável em princípio a Dirceu, foi dada no sentido de que o processo de cassação siga em frente, o que significa que o Conselho de Ética está livre para votar o parecer do relator Júlio Delgado, do PSB de Minas Gerais, na próxima quinta-feira. Basta que o texto sofra alguns cortes na parte em que se apóia nos documentos sigilosos, os quais, de acordo com a determinação do ministro Grau, deverão permanecer lacrados até um julgamento posterior do STF sobre o mérito. O próprio Delgado afirmou, após tomar conhecimento da decisão judicial, que o prejuízo causado ao parecer é mínimo.

Não deixa de ser uma nova derrota sofrida pelo ex-presidente do PT e ex-homem forte do governo Lula na cruzada contra a cassação de seu mandato, durante a qual tem contado tão-somente com o apoio de companheiros de partido de segundo escalão. Apesar dos serviços por ele prestados não só ao governo como também à eleição do presidente, como coordenador da campanha, desde sua saída da Casa Civil não mais se ouviu uma palavra de Lula em seu socorro, o que faz suspeitar que sua cabeça está sendo oferecida de bandeja, e até com uma maçãzinha na boca, para saciar a oposição. Pobre Dirceu.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 02h28
[ ] [ envie esta mensagem ]



A renúncia de Azeredo

 

Senador Eduardo Azeredo (Foto Agência Senado)

 

A saída tardia do senador Eduardo Azeredo da presidência nacional do PSDB, o principal partido de oposição ao governo, representa um sério ônus para as pretensões dos tucanos à sucessão presidencial. Se ele tivesse renunciado ao cargo assim que se confirmou que sua campanha para reeleição ao governo de Minas Gerais, em 1998, contara com a ajuda do publicitário Marcos Valério - o mesmo que, em conluio com a direção nacional do PT, supriu com recursos de caixa 2 tanto a campanha presidencial de 2002 quanto a posterior compra de apoio parlamentar ao governo -, os estragos teriam seriam menores. Mas como a medida profilática só foi tomada agora, depois que a denúncia se avolumou, os tucanos pagarão caro pelo erro de avaliação que cometeram ao menosprezar a combatividade da situação. A tropa de choque do PT e dos partidos aliados não perderá ocasião de dividir com o PSDB a responsabilidade por escândalos políticos, mesmo que não possa ser comparada a dimensão da crise ética atual com a do episódio mineiro de 1998. 

"Afasto-me com a consciência tranqüila. Minha serenidade vem da certeza de que desarmo meus detratores do único argumento de que dispunham, pois o fato de não saber de tudo, que de mim agora é implacavelmente cobrado pelos petistas, é a única e cínica desculpa dos defensores do governo", afirmou Azeredo da tribuna do Senado, ontem, ao anunciar a renúncia à presidência do PSDB. Ele negou também ter recebido do publicitário Marcos Valério um cheque no valor de 700.000 reais para pagamento de uma dívida com o tesoureiro de sua campanha na época, Cláudio Mourão, conforme publicou a revista IstoÉ. Azeredo afirmou que pagou a dívida "com grande sacrifício", mediante inclusive a contratação de um empréstimo bancário de 500.000 reais. 

Por fim, além de insistir em que desconhecia o uso de caixa 2 durante sua campanha de 1998, o que foi confirmado pelo ex-tesoureiro Mourão em depoimento à CPI do Mensalão, procurou diferenciar o seu caso das denúncias atuais que pesam sobre o PT. "Problemas de gestão administrativo-financeiro de campanha, criados por inadequação à atual legislação eleitoral", afirmou, "não podem ser confundidos nem misturados com a compra de consciências e votos de liderança de partidos governistas. Esse sim é o crime que representa um tapa na cara dos brasileiros e que precisa ser punido exemplarmente." 

Com a renúncia de Azeredo, o prefeito de São Paulo, José Serra, que se licenciou da presidência do PSDB quando assumiu a Prefeitura, deverá reassumir o cargo, ficando nele até transmiti-lo, no próximo mês, ao já anunciado novo presidente do partido, senador Tasso Jereissati, do Ceará.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 01h02
[ ] [ envie esta mensagem ]



Dirceu ataca de novo

 

Se há algo que ninguém pode negar, ao se referir ao deputado José Dirceu, do PT, é que ele é mesmo duro na queda. Derrotado na semana passada em sua pretensão de obter do Supremo Tribunal Federal, STF, liminar capaz de anular seu atual processo de cassação, com base na alegação de estar fora do exercício do mandato na época abrangida pelas denúncias nas quais se vê envolvido, ontem ele entrou com novo pedido de mandado de segurança na mesma corte.

Agora, o arrazoado de seus advogados questiona uma suposta junção irregular de provas ao parecer com o qual o deputado Júlio Delgado, do PSB de Minas Gerais, relator do processo no Conselho de Ética da Câmara, recomendou a cassação do mandato de Dirceu. Em síntese, o que eles argumentam é que dados protegidos por sigilo bancário e telefônico foram anexados ao parecer mediante simples requisição à CPI dos Correios. As provas reunidas, portanto, estariam "eivadas de ilicitude e ilegalidade", porque obtidas em desrespeito ao princípio constitucional da fundamentação das decisões judiciais.

No Supremo, o caso foi distribuído ao ministro Eros Grau, um dos três que votaram pela concessão da liminar pedida por Dirceu no recurso julgado na semana passada, contra a maioria contrária de sete membros da corte. Um eventual parecer favorável emitido pelo novo relator, entretanto, não representa uma garantia de sucesso para o deputado, a menos que o ministro Eros Grau avoque a si a responsabilidade pela decisão. No caso da semana passada, o relator, ministro Sepúlveda Pertence, submeteu seu parecer favorável à avaliação dos demais membros da corte, que o desaprovaram por maioria. Além do ministro Grau, somente o presidente do Supremo, Nelson Jobim, acompanhou o voto do relator.

Se Dirceu sair vitorioso no recurso – embora pareça ser discutível a tese da fundamentação em decisões judiciais, já que o processo de cassação ocorre no âmbito do Legislativo e em acordo com o regimento do Conselho de Ética da Câmara -, estará suspensa a sessão de votação do parecer de Júlio Delgado, em princípio marcada para quarta-feira próxima ou, no máximo, quinta-feira de manhã. Apesar da anulação das sessões de sexta-feira e de ontem do Conselho, por falta de quórum, o presidente do órgão, Ricardo Izar, conseguiu um acordo com a deputada Ângela Guadagnin, do PT, para que ela reduzisse de dois dias para um o adiamento provocado com seu pedido de vistas ao relatório de Delgado. A deputada, contudo, já adiantou que contestará partes do relatório em seu voto em separado.

Ainda na quarta-feira, em outro recurso de Dirceu para ganhar o máximo de tempo, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara estará votando o seu pedido de anulação do processo. O relator da comissão, deputado Darci Coelho, do PP de Tocantins, já deu parecer favorável ao pedido.

Todos esses trâmites de preparação e leitura de pareceres, pedidos de vistas e sessões de votação, no Legislativo, antes da decisão final sobre a cassação pelo plenário de 513 deputados da Câmara, podem ser brecados se o Supremo conceder a liminar pedida por Dirceu. O homem é mesmo duro na queda.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 02h38
[ ] [ envie esta mensagem ]



Os melhores filmes

Em pesquisa feita pela revista de cinema Total Film entre críticos ingleses e publicada ontem, em Londres, o filme Os Bons Companheiros (Goodfellas), de Martin Scorsese, foi escolhido como o melhor de todos os tempos. Em segundo lugar ficou Um Corpo que Cai (Vertigo), de Alfred Hitchcock; em terceiro, Tubarão (Jaws), de Steven Spielberg; em quarto, Clube da Luta (Fight Club), de David Fincher; e em quinto, a segunda parte da trilogia de O Poderoso Chefão (The Godfather: Part II), de Francis Ford Coppola. O clássico de Orson Welles, Cidadão Kane (Citizen Kane), tido pela maioria dos especialistas como o melhor da história, classificou-se apenas na sexta colocação. E Casablanca (idem), de Michael Curtiz, um dos dramas românticos mais cultuados, num longínguo 98.o lugar.

O cinema, por vezes considerado uma arte menor por suas características de realização coletiva e semi-industrial que afetam a integridade autoral do diretor, é também uma forma de entretenimento. Como tal, admite que não só os críticos como também os espectadores manifestem democraticamente suas avaliações, até porque, sem aprovação popular e boa renda de bilheteria, a indústria cinematográfica não sobreviveria.

Mas se a preferência popular não é aceita como um padrão de avaliação estética, já que em arte a média entre opiniões contrárias equivale a zero, da crítica se espera sempre o discernimento que contribua para elevar a manifestação do espírito humano por meio das letras, da música, da pintura, da escultura, do teatro ou do cinema. Eis porque causa espécie o resultado da pesquisa feita pela revista inglesa.

Qualquer cinéfilo um pouco mais enfronhado no assunto se escandalizaria com a idéia de colocar um filme apenas mediano como Clube da Luta à frente do clássico de Welles sobre imprensa e poder, da saga de Coppola sobre a Máfia ou do drama de amor e altruísmo de Curtiz, que se já não bastasse por outros méritos seria inesquecível pelo fascínio da presença em cena de Ingrid Bergman. E mesmo sendo extraordinária a narrativa de Scorsese sobre crime e amizade, classificada em primeiro lugar na lista, não dá para compará-la à obra-prima perfeita com a qual Hitchcock fez seu estudo da necrofilia e garantiu para sempre um lugar de honra na história do cinema.



Categoria: Outros assuntos
Escrito por Dom Quixote às 00h34
[ ] [ envie esta mensagem ]



Troca de comando no Fed

O atual chefe da assessoria econômica da Casa Branca, Ben Bernanke, de 51 anos – fará 52 em 13 de dezembro -, deverá ser o novo presidente do Federal Reserve Bank, Fed, o banco central americano, a partir de 1.o de fevereiro do próximo ano. Nessa data, depois de passar o cargo ao sucessor, o todo-poderoso judeu nova-iorquino Alan Greenspan, 79, que comandou o Fed nos últimos 18 anos e a cada véspera de aumento ou redução de juros fez operadores das bolsas no mundo todo roerem as unhas, deverá ir para casa, aposentado.

Graduado como o primeiro de sua turma por Harvard, em 1975, Bernanke, um republicano conservador em política e economia originário do estado da Georgia e que detesta usar ternos, doutorou-se pelo MIT e deu aulas em outras das melhores universidades americanas, como Princeton, Stanford e Nova York, além de no próprio MIT, antes de ser recrutado para o governo pelo presidente George W. Bush, em 2002. Inicialmente membro do Comitê de Mercado Aberto do Fed, neste ano foi designado presidente do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca, já como preparação para vir a ocupar a presidência do banco central americano.

Indicado ao cargo hoje, por Bush, Bernanke deverá ser confirmado sem maiores problemas pelo Senado, graças não só à sua reputação como economista como também à garantia que deu, em mais de uma ocasião, de que manterá a política monetária seguida por Greenspan. 



Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 18h49
[ ] [ envie esta mensagem ]



E o povo disse não

A vitória acachapante do "Não" sobre o "Sim" por 64% a 36%,  no referendo de domingo sobre a proibição do comércio de armas de fogo e munição no Brasil, oferece várias leituras. Uma delas, por mais que a contestem representantes e defensores do governo, é de que a manifestação de descontentamento por parte dos eleitores não se referiu apenas à questão da segurança pública. Outra é de que o recurso fácil a artistas de TV tem pouco efeito na formação de opinião quando se trata de decidir sobre coisas sérias. Uma outra, de que a campanha do "Sim" estava fadada desde o começo ao fracasso por não haver como explicar que a segurança coletiva poderia ser aumentada desarmando-se apenas os cidadãos de bem. E uma quarta, de que não escapou à maioria dos eleitores que, se votassem "Sim", estariam renunciando ao direito de legítima defesa sem ganhar nada em troca.

Entre os líderes do movimento supra-partidário que levou à realização do referendo houve quem enxergasse no resultado das urnas uma guinada do país para a direita. Tal visão estapafúrdia dos fatos só faz entender a obtusidade com que conduziram sua campanha, opondo o direito à vida ao arbítrio individual de comprar ou não uma arma de fogo. O primeiro é inerente à condição humana, não cabendo plebiscito nenhum sobre sua posse. O segundo só se coloca como questão quando o Estado falha no dever de proteger as pessoas de bem dos criminosos.

O "Não" venceu em todos os estados e também em todas as capitais, numa demonstração cabal da consciência dos eleitores. Com 99,84% das urnas apuradas até às 02h36 de hoje, num total de 92,35 milhões de votos válidos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral, TSE, a resposta negativa à consulta do referendo atingiu 86,8% no Rio Grande do Sul, 85,0% em Roraima e 83,7% no Acre, três estados situados nos extremos do país. Seria mera coincidência? Em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e no Distrito Federal, o "Não" obteve seu índice mais alto no Rio, 61,9%, e o mais baixo, 56,8%, na capital federal.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 05h08
[ ] [ envie esta mensagem ]



A César o que é de César

"Quem é que manda no Delúbio Soares? No Silvio Pereira? No José Dirceu? É o Lula! Ele só não sofreu impeachment até agora porque a direita brasileira ainda não sabe ser oposição."

 

(Fagner, cantor e compositor, em entrevista à revista Veja, ao falar das responsabilidades do presidente no escândalo político do Mensalão e do Caixa 2 do PT.)


Escrito por Dom Quixote às 02h16
[ ] [ envie esta mensagem ]



Além de demagógico, absurdo

 

E vamos todos à maquininha eletrônica hoje, para apertar o botão 1 (Não) ou o 2 (Sim). Não haverá jogo de futebol, nem praia, nem a caipirinha de domingo, proibida por lei.

Na hora do voto, saberemos que o governo está torrando algo como 600 milhões de reais do dinheiro público, retirado de nós todos por meio de impostos, nessa empreitada. Com essa verba, daria para construir perto de 30.000 casas populares. Ou distribuir 500.000 computadores básicos, ou 6 milhões de cestas de comida para famílias carentes.

E o pior é que nem existe o alegado motivo para se convocar a população. O referendo se circunscreve a um artigo do Estatuto do Desarmamento, aprovado em dezembro de 2003 e regulamentado em julho do ano seguinte, que prevê a proibição da venda de armas de fogo. Quer dizer, a proibição do comércio já existe, por lei. Só que, no mesmo Estatuto, num inconcebível atentado à lógica, fixam-se as condições pelas quais determinadas categorias de organizações e mesmo o cidadão comum são autorizados a ter uma arma em casa ou no trabalho. Trata-se de um absurdo, porque se o comércio está proibido não há como autorizar a compra por quem quer que seja.

Ou seja, ganhe o "Não", ou ganhe o "Sim", o Estatuto terá de ser mudado, porque do jeito que está ele não atende ao desejo manifestado pela maioria dos eleitores. Dá para acreditar que estamos perdendo o domingo só porque alguém não soube escrever uma lei?   



Escrito por Dom Quixote às 01h21
[ ] [ envie esta mensagem ]



Bode expiatório

Enquanto o ex-tesoureiro Delúbio Soares assumia com passividade bovina a condição de bode expiatório da crise moral petista, aceitando sem mugir nem tugir sua expulsão da legenda neste sábado e, também, sem nomear os chefes da boiada que autorizaram o uso ilegal de Caixa 2 pelo PT, circulava solerte pela sede do partido, entre outros, o ex-deputado paraense Paulo Rocha, que renunciou ao mandato há alguns dias para escapar de processo de cassação.

Tirante o fato de a renúncia para fugir às responsabilidades legais constituir uma excrescência do nosso sistema político, já que tal manobra não é admitida em nenhuma das democracias mais avançadas do mundo, seria de esperar que Rocha mostrasse, se não uma contrição, uma atitude ao menos mais sóbria por se ver envolvido em denúncia de crime eleitoral. No entanto, na mesma semana da renúncia ele anunciou a intenção de no próximo ano candidatar-se a nada menos que ao governo do Pará.

Por essas e outras é que se torna incompreensível a atitude do ex-tesoureiro expulso. Todos têm direito no PT a usar a legenda como bem lhes aprouver, menos ele, Delúbio? Ou será que por trás de sua passividade bovina existe algo maior, um acordo ou interesse partidário que não pode ser revelado?

Seu comportamento transmite a impressão de que, não sendo boi e portanto podendo falar, ele está submetido a alguma lei de silêncio.



Escrito por Dom Quixote às 00h28
[ ] [ envie esta mensagem ]



Delúbio expulso do PT

Concluiu-se neste sábado a crônica da morte anunciada de Delúbio Soares dentro do PT. O ex-tesoureiro foi expulso pelo voto de 37 votos do diretório nacional, depois da cerimônia de posse do novo presidente do partido, deputado Ricardo Berzoini, e da nova executiva nacional. Contra a expulsão, 16 membros do diretório votaram a favor de que Delúbio fosse suspenso por 3 anos. Houve ainda 3 abstenções.

Antes da decisão, o ex-tesoureiro, cuja defesa foi feita em documento escrito, por ele lido na sessão de julgamento, teria sido aconselhado pelo deputado José Dirceu a pedir desfiliação do partido, para não ser expulso. O conselho não teria sido aceito por Delúbio, sob a alegação de que não conseguiria assinar um termo para deixar o PT. Outra sua manifestação de fidelidade à causa partidária foi o cumprimento da promessa de que, em sua defesa, não envolveria nomes de outros dirigentes petistas na prática, por ele confessada, de uso do Caixa 2 para financiar partidos e políticos da base de apoio ao governo.

A nova executiva nacional, eleita e empossada hoje, terá como secretário-geral Raul Pont, o opositor derrotado por Berzoini nas últimas eleições do partido. Paulo Ferreira, ex-secretário de Relações Internacionais do partido, substitui Delúbio na função de tesoureiro. O assessor especial do presidente Lula para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, será o 1.o vice-presidente. E o ex-ministro da Saúde, Humberto Costa, chefiará a secretaria de Comunicação.



Escrito por Dom Quixote às 23h18
[ ] [ envie esta mensagem ]



Bordunas são para trogloditas

Que os juros no Brasil são altos todo mundo sabe. A nova taxa básica fixada pelo Copom, o órgão de política monetária do Banco Central, de 19% ao ano, meio ponto percentual abaixo da taxa anterior, ainda é a maior do mundo. Conforme se pode ver num quadro publicado pelo comentarista econômico Celso Ming, no jornal O Estado de S. Paulo de ontem, a segunda maior taxa básica do mundo, a da Turquia, está em 15,6%, e a terceira, a da Rússia, em 13,0%.

Em termos reais, ou seja, descontado da taxa nominal o efeito da inflação, a diferença se acentua. No Brasil, a Selic de 19% é estabelecida num momento em que as estimativas de inflação para o ano se situam em torno de 5%. A taxa real, portanto, é de 13,3%. Na Turquia, como a inflação projetada é de 8,0%, essa taxa cai para 7,0%. E na Rússia, com alta de preços de 12,4%, para apenas 0,5%.

Para não ir muito longe na comparação, os juros brasileiros também são muito maiores que os existentes em países da América do Sul. Na Venezuela governada por Hugo Chávez, amigo do peito do presidente Lula, por exemplo, o juro real está negativo em 3,8% ao ano, com uma taxa nominal de 11,5%, menor que a inflação de 15,9%. O mesmo ocorre, de acordo com dado colhido em outra fonte, na Argentina do não tão amigo de Lula, presidente Néstor Kirchner, com uma taxa real negativa de 5,9%.

Quando a taxa real fica abaixo de zero, tecnicamente isso significa que a remuneração do capital passa do credor para o devedor, o que é um absurdo. Se emprestarem ou aplicarem dinheiro de acordo com a taxa básica, os rentistas venezuelanos e argentinos estarão, portanto, pagando aos tomadores por isso, ao invés de receber. Obviamente, não deve haver muitos deles nessa situação, a menos que se trate de algum banco estatal forçado a tanto por interesses governamentais.

Acresce que a taxa básica de juro representa apenas um piso. No Brasil, o crédito de pessoas físicas, dado na forma de empréstimo pessoal, cartão de crédito ou cheque especial, chega a custar mais de 100% ao ano. Para empresas, o crédito sai mais em conta, mas também custa bem mais que os 19% da taxa Selic.

Pode-se concluir, então, que o governo fez um pacto com o diabo para manter juros tão altos, como declarou o próprio vice-presidente da República, José Alencar, ou que eles servem apenas para encher o bolso dos banqueiros, à custa do sacrifício de empresas e trabalhadores? Não, porque tal conclusão seria simplista demais para ser verdadeira. A prova está em que praticamente todos os economistas vêem espaço para novas reduções na taxa Selic, mas nenhum deles prega um corte drástico.

A cautela se justifica, entre outras, pelas seguintes razões: 

CONTROLE DA INFLAÇÃO – Nenhum crescimento econômico se sustenta com base na inflação. Após um impulso inicial das atividades pelo estímulo da demanda, o desarranjo provocado nas contas públicas e nas relações entre os diferentes agentes econômicos é tanto que o governo se vê obrigado a controlar a alta de preços. Os juros negativos que existem na Venezuela e na Argentina só se explicam pelo fato de esses países terem governos populistas, que em matéria de resultados dão mais importância aos de curto prazo.

TAMANHO DA DÍVIDA – A dívida mobiliária (em títulos) do governo federal já se aproxima de 1 trilhão de reais. Como sua liquidação a curto prazo é impraticável, ela precisa ser financiada com novas emissões, que aumentam ainda mais o montante. Mas como ninguém é tolo o suficiente para aplicar em títulos do Tesouro se este não garantir uma remuneração compatível com a do mercado, o governo mantém alta a taxa Selic. Portanto, a calibragem dessa taxa tem a ver não só com o controle da inflação como também com a expectativa de ganhos dos aplicadores em títulos públicos.

O problema é que, quanto mais alto for o juro pago pelo governo aos aplicadores, maior é o custo desse fator na rolagem da dívida. E como a remuneração paga a eles não pode ser reduzida da noite para o dia, pelo risco de fuga, só há uma saída para evitar que a soma de novas emissões de títulos com juros altos resulte num processo de bola de neve na dívida: a redução do montante da dívida.

A saída do calote é irresponsável porque temerária. Investidores enganados cobram em dobro para voltar a acreditar no caloteiro. 

REDUÇÃO DA DÍVIDA – Para poder pagar todo ano uma parte da dívida, o governo precisa reservar dinheiro em seu orçamento. Um orçamento só gera sobras de três maneiras: 1) aumentando receitas; 2) cortando despesas; e 3) combinando o aumento de receitas com o corte de despesas. A melhor alternativa é, certamente, a terceira, já que todas embutem um risco à popularidade do governo mas a última, pelo menos, oferece à sociedade, como contrapartida do aumento de impostos, o espetáculo do governo cortando na própria carne. Mas, de acordo com as circunstâncias, às vezes só a segunda se torna viável.

É mais ou menos o que acontece hoje no Brasil. A carga tributária, como lembra o economista Rogério Werneck, professor da PUC do Rio de Janeiro, em apenas sete anos saltou de 29% do Produto Interno Bruto, PIB, em 1997, para 36% em 2004, e deve terminar este ano em no mínimo 37%. Ou seja, os impostos no país vêm crescendo à média de 1% do PIB por ano, cerca de 8 bilhões de dólares ao volume atual do produto, tendo atingido já o limite do tolerável pela sociedade – ainda mais porque esta não se sente retribuída à altura de seu sacrifício tributário pelas ações desenvolvidas pelo poder público. Mesmo assim, noticia-se que o governo estuda um novo aumento, equiparando profissionais liberais às empresas para lhes cobrar mais Imposto de Renda.

Para dar início ao processo de amortização da dívida, o presidente Fernando Henrique Cardoso instituiu na política econômica a busca do superávit fiscal primário, nome dado ao saldo positivo das contas do governo, incluídos os estaduais e os municipais, gerado para o pagamento dos juros da dívida. Conseguiu obtê-lo pela primeira vez em 1999, já durante o seu segundo mandato. Em maio de 2000, como complemento às metas de superávit instituiu a Lei de Responsabilidade Fiscal, que restringiu gastos correntes nos três níveis do Executivo (federal, estaduais e municipais), notadamente os realizados com o pagamento de pessoal.

O governo Lula não só manteve como ainda ampliou as metas de superávit primário. A deste ano, fixada em 83,8 bilhões de reais para o conjunto da União, estados e municípios, praticamente já foi atingida em agosto, quando o saldo acumulado totalizou 78,9 bilhões, 31% acima do número que fora planejado para os primeiros oito meses. Mantido o ritmo, até o final de dezembro o superávit chegará a algo em torno de 120 bilhões de reais, cerca de 6% do PIB.

Apesar do esforço fiscal requerido, isso ainda é pouco para começar a reduzir a dívida, porque o custo anual dos juros é maior. Como reverter esse quadro de forma séria, para que a solução se torne definitiva, e não apenas paliativa? Certamente não como prega a maioria do PT, o partido do presidente Lula, que acredita em almoço grátis em economia e defende o corte dos juros a bordunadas.

(Continua na nota abaixo, porque o limite de caracteres do blog foi excedido.)



Escrito por Dom Quixote às 02h06
[ ] [ envie esta mensagem ]



Bordunas são para trogloditas - 2

AUSTERIDADE FISCAL – A única saída séria para a redução da dívida está na ampliação da austeridade fiscal. Como a dívida se forma porque o governo gasta mais do que pode, sua amortização requer que ele passe a gastar menos. E também melhor, para compensar com o aumento da eficiência a diminuição de verbas.

Felizmente, o presidente Lula nunca deu ouvidos, pelo menos até agora, às propostas irresponsáveis de seus companheiros de partido. Não é por outra razão que agências internacionais de rating têm melhorado a avaliação de risco do país. Para elas, é fundamental que a administração da dívida pública seja confiável, para não dizer conservadora, porque só assim os investidores externos se sentem seguros. E, à medida que vão vendo sinais de melhora no equacionamento da questão, entre outros com a perda de velocidade do crescimento da dívida e a progressiva dilatação de seu prazo médio de vencimento, elevam as notas dadas ao Brasil. Não se trata apenas de um afago no ego nacionalista. Quando o país melhora de rating, passa a pagar menos pelos recursos que levanta no mercado internacional.

Num furo de reportagem, o jornalista Ribamar Oliveira, da sucursal do jornal O Estado de S. Paulo em Brasília, noticiou que o ministro Paulo Bernardo, do Planejamento, à frente de um grupo de trabalho, está montando uma proposta de ajuste fiscal para este e os próximos governos que pode ter grande importância na modernização da administração pública no país. Se o presidente, que apóia a proposta, conseguir aprová-la no Congresso, poderá ter nela a pedra de toque da avaliação de seu governo na frente econômica.

Basicamente, o que se estuda é o estabelecimento de um teto para as despesas correntes do orçamento (tudo aquilo que não se refere a investimentos e pagamento de juros) e de uma meta rígida para que elas sejam reduzidas à razão de 0,1% do PIB a cada ano. Como complemento dessas medidas, o governo teria uma maior flexibilidade na execução do orçamento, diminuindo dos 80% atuais para 65%, até 2013, a chamada "parcela engessada", que consiste nas despesas vinculadas por lei a determinadas áreas, como saúde e educação. A criatividade da proposta de Bernardo e sua equipe – provocada por uma sugestão inicial do deputado e ex-ministro Delfim Netto de zerar o déficit nominal (com os juros incluídos) a médio prazo - está em melhorar, ao mesmo tempo, o nível de governabilidade e a austeridade fiscal na execução do orçamento da União.

Como, por tudo o que já conseguiu em sua trajetória política, Lula parece ter um olho clínico para identificar trunfos eleitorais, é de se presumir que fará o que estiver ao seu alcance para tornar realidade a proposta. Ela serve de contraponto ideal ao sucesso do programa do Bolsa Família, que até as próximas eleições deverá estar chegando a cerca de 11 milhões de famílias, porque atende às aspirações de parte considerável da camada mais esclarecida da população. Juntos, a responsabilidade econômica e a assistência aos brasileiros mais desvalidos poderão dar-lhe uma montanha de votos para sua reeleição.

A aprovação pelo Congresso não deve ser fácil, já que a matéria envolve disposições constitucionais. Haverá também a incansável esquerda petista a postos, bradando contra mais esse desvio de conduta do companheiro Lula mas sem ter, como sempre, algum projeto alternativo a oferecer. É esperar para ver o que acontece.



Escrito por Dom Quixote às 02h03
[ ] [ envie esta mensagem ]



Efeito bumerangue

Enquanto a tropa de choque do PT e parlamentares cooptados de outros partidos da base de apoio do governo tentam, com manobras regimentais ou de outra natureza, protelar ao máximo o andamento do processo de cassação do deputado José Dirceu, o presidente Lula fez de novo uma declaração do tipo bumerangue, aquela que pode voltar-se contra o autor da fala.

Na abertura de um seminário internacional sobre o Bolsa Família, patrocinado por seu governo para comemorar os dois anos de execução do programa e o alcance do número de 8 milhões de famílias beneficiadas, o presidente quis alfinetar a oposição com a seguinte declaração, a respeito de fraudes que possam ser descobertas: "De vez em quando, alguém vai pegar uma falha numa cidadezinha qualquer e vai tentar dar dimensão nacional, não vai nem especificar, porque no Brasil é assim. Quando as coisas são boas, eles não especificam e não dizem nem o nome de quem fez. Quando são ruins, eles nacionalizam e fica muito difícil as pessoas que estão em casa, que não sabem do programa, entenderem".

Para começar, se é para dar o nome de quem faz coisas boas, o presidente deveria ter dito que o Bolsa Família, adotado no lugar de sua bandeira de campanha, o Fome Zero, que se revelou um fiasco pela impraticabilidade das medidas propostas, é apenas uma continuação de outro programa, o Bolsa Estudo, criado pelo presidente anterior, Fernando Henrique Cardoso. 

E para acabar logo, porque esse tipo de cantilena do presidente e de colegas de partido já cansou, Lula precisa ser lembrado de que o campeão inconteste da nacionalização denuncista é o PT. Na sua incansável pregação contra as "elites" e a "direita", sempre que pôde o partido transformou em crime de lesa-pátria iniciativas governamentais de maior abrangência, quando estava na oposição. Foi assim com o Plano Cruzado, o Programa de Desestatização, o Plano Real, o Proer e a Lei de Responsabilidade Fiscal, só para ficar nas mais conhecidas. Foi também com essa ótica, na sua oposição surda, cega e, por isso, às vezes estúpida, que se recusou em 1984 a votar na escolha do primeiro presidente civil depois da ditadura militar, entre o candidato da resistência civil no Colégio Eleitoral, Tancredo Neves, e o escolhido pelo establishment dos quartéis, Paulo Maluf.

Hoje, na situação, o PT apenas está provando do seu próprio veneno. É o efeito bumerangue.



Escrito por Dom Quixote às 20h37
[ ] [ envie esta mensagem ]



Xaxim vota sim

Engraçadíssima a entrevista que o traficante Xaxim, um dos reis dos morros cariocas, concede a uma repórter supostamente de rádio chamada Laura. Na gravação, que circula por e-mail, o bandido diz que ele e seus colegas de ofício votarão "sim" no referendo do próximo domingo sobre a proibição do comércio de armas de fogo e munição, por uma questão de segurança. Diante do espanto da repórter, explica que bandido também tenta ganhar a vida honestamente, seja lá o que isso signifique no conceito dele, e que o trabalho está sendo dificultado pela violência urbana, com transeuntes e moradores de condomínios de luxo armados de revólveres, sem contar a polícia.

A entrevista de Xaxim pode ser ouvida no link abaixo. A gravação abre mais rápido com a opção de salvar no disco rígido:

www.alfaya.com.br/xaximvotasim.mp3



Escrito por Dom Quixote às 18h46
[ ] [ envie esta mensagem ]



Imprensa e corrupção

O Brasil ganhou três posições no ranking mundial da liberdade de imprensa, organizado pela ONG Repórteres sem Fronteiras e divulgado ontem, em Paris: subiu do 66.o para o 63.o lugar.

É curiosa a similitude desse levantamento com um outro, também recente, sobre o nível de corrupção observado em diferentes países. Neste, feito pela ONG Transparência Internacional, o Brasil ocupa o 62.o lugar. E em ambos os rankings os países do Norte da Europa, como Islândia, Finlândia e Dinamarca, se classificam no topo da lista.

Seria mera coincidência, ou a liberdade de imprensa tem relação direta com a existência de baixos índices de corrupção? Números não mentem.     



Escrito por Dom Quixote às 21h15
[ ] [ envie esta mensagem ]



O Texas contra Tom DeLay

Nesta sexta, o ex-líder da maioria na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos – o segundo cargo em importância na casa, logo abaixo da presidência -, o deputado republicano Tom DeLay, deverá comparecer à audiência inicial na Justiça do Texas, em Austin, para responder a uma acusação de financiamento ilegal de campanha política.

DeLay, que foi indicado para o cargo pelo presidente George W. Bush mas precisou renunciar assim que surgiu a denúncia de ilegalidade, em fins de setembro, enfrenta a acusação de ter recebido na campanha eleitoral de 2002 um total de 190.000 dólares de contribuições de empresas – vedadas pela legislação eleitoral do Texas –, e depois distribuído o dinheiro entre seus liderados do grupo "Texanos para uma Maioria Republicana". Por conta dessa acusação, foi indiciado por crimes de conspiração e lavagem de dinheiro pelo juiz distrital Ronnie Earle, do condado de Travis.

DeLay não só nega ter recebido o dinheiro como atribui seu indiciamento a uma manobra política, uma vez que o juiz Earle é filiado ao Partido Democrata. "Este é mais um exemplo de como Ronnie Earle faz um mau uso do seu cargo para levar a cabo vendetas partidárias", declarou, ainda como líder na Câmara, ao tomar conhecimento do despacho do juiz. De qualquer forma, se for condenado, pode pegar uma pena que varia de dois anos à prisão perpétua, diante da natureza dos crimes em que foi indiciado.

As semelhanças do caso do deputado americano com o dos principais acusados do escândalo do Mensalão e do financiamento paralelo de campanhas políticas no Brasil são menores do que aparentam ser. Esgotam-se na motivação dos supostos crimes, a de prover numerário para a ação de políticos e partidos. A partir desse ponto, só existem diferenças entre o tratamento que se dá ao assunto naquele país e aqui. Primeiro, porque político americano vai para a cadeia quando se comprova que lançou mão do Caixa 2 para ocultar a origem e o destino do dinheiro utilizado. Segundo, porque a Justiça americana é muito mais rápida e eficaz do que a brasileira para julgar crimes cometidos no exercício da política. E, terceiro, porque lá as penas são muito mais severas para os criminosos.

Enquanto isso, por aqui continuamos com uma legislação eleitoral que no máximo pune com a perda do Fundo Partidário por um ano a agremiação política que comprovadamente fizer uso do Caixa 2; com tribunais de contas que julgam gastos de campanha com quatro ou cinco anos de atraso, como aconteceu agora em relação ao PT de São Paulo; e com uma série de graves denúncias cuja apuração é interrompida só porque o denunciado renuncia ao mandato, como fez o ex-presidente da Câmara, Severino Cavalcanti. Não é de admirar que a palavra "político", como adjetivo, seja empregada quase sempre de forma pejorativa no país.



Escrito por Dom Quixote às 19h40
[ ] [ envie esta mensagem ]



De políticos e futebolistas

A pregação do ministro Jaques Wagner, das Relações Institucionais, contra o que considera um desvio de finalidade da CPI dos Bingos, pode ser comparada, pela argumentação na qual se baseia, à declaração dada pelo jogador Souza, do São Paulo, após o seu time perder de novo para a Ponte Preta, em Campinas, em jogo remarcado por conta do escândalo da Máfia do Apito.

Mesmo diante da pilha de 7 cadáveres de testemunhas diretas ou indiretas do caso Celso Daniel, formada após o ex-prefeito petista de Santo André, cidade do ABC paulista, ter sido seqüestrado, torturado e fuzilado em janeiro de 2002, sendo o último deles o do médico-legista Carlos Delmonte Printes, o ministro diz que a CPI – cujas atividades são acompanhadas diariamente pela população, por notícias de televisão, rádio, jornais e blogs na internet  - nada tem a ver com isso. E chega a insinuar a possibilidade de o governo ir ao Supremo Tribunal Federal para obrigar o comando da comissão a retornar ao leito por ele delimitado. Quer dizer, apesar do nome de sua pasta, que pressupõe o zelo do titular pelo aperfeiçoamento das relações do governo com os demais poderes da República, o ministro pede que o Judiciário se imiscua em assuntos do Legislativo, para atender a um desejo do Executivo. Confusão maior, impossível.

É mais ou menos o que disse o futebolista, aliás um meia atacante talentoso. Após o seu time perder da Ponte Preta por 2 a 0 na noite de quarta, e não aproveitar a oportunidade de ganhar os pontos que deixara de conquistar na partida anulada pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva, STJD, na qual perdeu para o mesmo rival por 1 a 0, Souza disparou: "Este campeonato já virou um circo e perdeu toda a credibilidade. Pessoas que nunca jogaram bola estão mandando no futebol brasileiro".

O jogador não explicou por que um juiz de direito, como é Luiz Zveiter, presidente do STJD, precisaria ter jogado bola para julgar um caso judicial de corrupção no futebol, mas seus fãs certamente lhe perdoarão o atropelo da lógica porque o que importa mesmo, em última análise, são seus gols em campo. O mesmo não pode ser dito em favor do ministro Jaques Wagner, cuja função requer objetivos mais elevados do que o de apenas servir de porta-voz do desejo planaltino de acabar logo com a atual crise para lançar a campanha para a reeleição do presidente Lula.

Para não fugir à regra dos protagonistas do escândalo político convocados a depor pelas CPIs, Wagner atribuiu a "setores do governo" a intenção de recorrer ao Supremo Tribunal Federal. Aqui, 1 a 0 para o futebolista Souza, que pelo menos assumiu de peito aberto a declaração que fez.



Escrito por Dom Quixote às 02h10
[ ] [ envie esta mensagem ]



Brincadeira tem hora

No final de seu périplo europeu, em solo russo, onde procurou tranqüilizar o presidente Vladimir Putin a respeito da carne bovina exportada pelo Brasil, já embargada em mais de 30 países desde o surgimento do primeiro foco de febre aftosa no Mato Grosso do Sul, o presidente Lula declarou: "Aqui na Rússia tem gente que não está comendo mais frango por medo. Vamos apresentar o franguinho brasileiro, bem-criado, sadio, saudável". Ele se referia à possibilidade de o Brasil compensar as perdas nas exportações de carne bovina, e ainda de suína, ovina e caprina por causa da aftosa, com o aumento das exportações de carne de frango, diante do surgimento de focos de gripe aviária na Europa.

Tudo bem que o presidente queira aproveitar oportunidades comerciais em favor do país, mas para não ferir melindres ele poderia deixar de lado o tom jocoso nesse caso, porque a gripe aviária não é um problema apenas econômico, mas sim de saúde mundial. Seu vírus causador, o H5, tem se manifestado na Ásia na variante letal N1, ou GenZ, que já matou mais de 60 pessoas naquela região de origem. E agora, levada por aves migratórias, a gripe aviária foi identificada em focos surgidos na Turquia, Romênia e Grécia, num claro sinal de que já chegou à Europa.

A preocupação causada pela doença é tanta que, na França, a população inteira de 60 milhões de habitantes poderá ser obrigada a usar máscaras de proteção. O governo anunciou há dias a compra de 50 milhões de máscaras descartáveis para sua rede de hospitais, dentro da meta de ter um total de 200 milhões de unidades até o fim do ano. Diante da pressão internacional, o laboratório suíço Roche, fabricante da única droga considerada eficaz contra a doença, o Tamiflu, já anunciou que abrirá mão do monopólio para que outros laboratórios também passem a produzir o medicamento.

As precauções são mais do que justificadas. Segundo o pesquisador inglês Mark Honigsbaum, renomado especialista, em artigo publicado no The Guardian e reproduzido na edição de ontem do jornal O Estado de S. Paulo, a gripe aviária pode causar a maior catástrofe de saúde da história da Humanidade, com uma pandemia na qual poderão morrer de alguns milhões a até 1 bilhão de pessoas no mundo. A projeção leva em conta o aumento da população desde 1918, quando ocorreu outra pandemia, a da gripe espanhola, que vitimou um número estimado entre 40 milhões e 100 milhões de pessoas. E também  o fato de que, enquanto o vírus da gripe espanhola, segundo as estatísticas, matou 2,5% dos infectados, a letalidade do H5N1 tem sido da ordem de 70%. Honigsbaum, contudo, ressalva que em se tratando de vírus pequenas mutações fazem toda a diferença, ou seja, o H5N1 poderia tanto ser devastador quanto não ter poder nenhum nas novas regiões em que venha a se manifestar.

Portanto, não é um assunto para brincadeiras. Quanto a nós, vamos rezar para que a gripe aviária não ocorra por aqui, porque se as orações não derem resultado teremos de contar apenas com a eficácia das medidas sanitárias tomadas pelo governo do presidente Lula.

 

CORREÇÃO – Em nota postada aos 16 minutos da madrugada do dia 16, este blog diz que o país corria o risco de perder até 4 bilhões de dólares nas exportações de carne bovina fresca e enlatada. Estudos posteriores do caso e mesmo estimativas entre os produtores diminuem esse número para algo mais aceitável, no máximo 1 bilhão de dólares. Fica feita a retificação, portanto, embora os prejuízos na exportação representem apenas a ponta do iceberg. Se forem computadas também as perdas econômicas, na cadeia de produção, com a redução ou paralisação de atividades, o número pode ser até maior que os citados 4 bilhões de dólares.



Escrito por Dom Quixote às 23h52
[ ] [ envie esta mensagem ]



Fiscalização frouxa

A notícia de que o Tribunal Regional Eleitoral, TRE, rejeitou ontem por unanimidade as contas do PT no Estado de São Paulo referentes ao ano 2000, é emblemática da precariedade com que os órgãos de fiscalização de políticos e partidos, bem como do poder público de forma geral, funcionam no país. Como é possível aprovar ou rejeitar uma prestação de contas somente quatro ou cinco anos depois de ela ter sido apresentada?

Segundo a justificativa do órgão, o julgamento demorou porque o PT interpôs vários recursos, procurando dilatar prazos. Vá lá que seja uma explicação plausível, mas não se pode aceitá-la como normal. Algo precisa ser feito para que o direito à defesa, inerente à democracia, não acabe redundando em impunidade, como nesse caso. Muitos dos políticos eleitos naquele ano já nem estão na ativa. Cumpriram seus mandatos e foram para casa, por não terem sido reeleitos em 2004.

Do mesmo modo, é notório que os tribunais de contas do Executivo não cumprem a contento sua missão porque os juízes são nomeados, absurdamente, pelos próprios prefeitos, governadores ou presidente da República a quem deveriam fiscalizar para coibir desmandos administrativos. Para não ir muito longe, há poucos dias o Tribunal de Contas da União, TCU, reprovou todas – repetindo, todas – as obras da Petrobrás examinadas neste ano. Mas dificilmente haverá alguma punição exemplar contra a estatal, que se presume irá apresentar tantos recursos quantos puder para não pagar as multas.

Como os desmandos são cometidos com dinheiro público, mesmo no caso da Petrobrás, que por anos, antes de se tornar a gigante de hoje, teve seus déficits financiados pelo Tesouro, cabe perguntar: e o contribuinte, como é que fica?



Escrito por Dom Quixote às 22h31
[ ] [ envie esta mensagem ]



Corda no pescoço

Com a decisão do Supremo Tribunal Federal, por goleada de 7 a 3, de indeferir o mandado de segurança pedido pelo deputado José Dirceu, o caminho está aberto para que, na sessão de amanhã, o Conselho de Ética da Câmara vote o parecer do relator Júlio Delgado (PSB-MG) a favor da cassação de mandato por quebra de decoro. Como os votos do plenário do Conselho são abertos, à luz dos holofotes e das câmeras de televisão, é quase certo que tirante deputados petistas os demais membros seguirão a recomendação de Delgado. Restará então, a Dirceu, só uma tênue esperança de escapar da degola com um outro recurso seu, impetrado na Comissão de Constituição e Justiça e já com voto favorável do relator, deputado Darci Coelho, do PP de Tocantins. Mas como também neste caso os votos são abertos e nada indica que os demais membros acatem o parecer do relator, sobretudo depois do julgamento ocorrido no Supremo, muito provavelmente o processo de cassação seguirá seu curso até o ápice, que é a decisão em votação secreta pelo plenário da Câmara dos Deputados.

Na sessão de hoje da corte suprema, transmitida pela TV Justiça, houve um contraste evidente, até para leigos no juridiquês como este jornalista, entre o que pareceu ser uma magistral aula de Direito Constitucional dada pelo ministro Celso de Mello, em seu voto contrário à liminar, e a posição assumida pelo presidente da corte, ministro Nelson Jobim.

Ao justificar o voto favorável a Dirceu, Jobim, ex-ministro da Justiça no governo Fernando Henrique e que poderia abster-se, já que o placar estava em 6 a 3 e não requeria seu voto de Minerva, deu mais uma demonstração de ter se convertido às causas do atual governo. E se no final de setembro concedera a seis deputados do PT ameaçados de cassação uma liminar protelatória sob a alegação de falta do "devido processo legal", passando por cima de uma prerrogativa inscrita no regimento interno da Câmara, na sessão de hoje do Supremo ele se superou, com um argumento no mínimo discutível.

Com sua decisão, sustentou Jobim, a maioria da corte estaria desobedecendo ao preceito constitucional da separação entre os poderes, porque amanhã o Senado poderia destituir um ministro do Supremo por motivo político e a Câmara cassar o mandato de algum ministro-deputado (como Dirceu) que, cumprindo determinação da chefia do Executivo, tomasse alguma medida contrária aos interesses da maioria dos parlamentares. E, para coroar tal raciocínio, afirmou que a motivação política servia de base para o atual processo contra o ex-ministro chefe da Casa Civil.

Ora, pode-se perguntar ao ministro Jobim, que outra coisa os deputados e senadores poderiam fazer a não ser um julgamento político, já que isso é do próprio ofício deles? Cabe ao Judiciário examinar o mérito e corroborar ou não as decisões tomadas pelo Legislativo, ao qual não compete colocar ninguém atrás das grades por ilícitos cometidos. Basta lembrar o que aconteceu com o ex-presidente Fernando Collor, expelido do cargo em 1992 por um processo de impeachment. Dois anos depois, o Supremo Tribunal Federal o considerou inocente da acusação de corrupção passiva, por falta de prova material. Mas nem por isso Collor, derrubado politicamente pelo Legislativo, pôde voltar ao Palácio do Planalto. Portanto, no fecho de sua peroração, salvo melhor juízo o próprio Jobim acabou retirando substância da defesa que fazia do preceito constitucional.

A decisão de hoje do Supremo, ainda que preliminar por não ter julgado o mérito do pedido de liminar, é histórica. Ela firma de modo claro uma jurisprudência, não só ao dizer que um parlamentar licenciado do cargo continua parlamentar como também, de acordo com o que foi explicitado pelo ministro Celso de Mello, que a quebra de decoro pode ocorrer mesmo antes da posse no cargo, dependendo da gravidade do ato cometido. O deputado José Dirceu, assim, fica instado a considerar-se duplamente enquadrado: primeiro, porque embora na época a que se referem as denúncias de financiamento ilegal de campanhas e de pagamento do Mensalão ele fosse ministro, continuava de posse do mandato popular, tanto é que optou por manter o salário de deputado, mais gordo do que o de ministro, como permite a Constituição; e, segundo, porque as acusações de que ele chefiava o esquema posto em prática por dirigentes do PT também se referem ao período em que ele ainda não tinha obtido o mandato.

Votaram contra a concessão da liminar pedida pelo deputado, pela ordem, os ministros Joaquim Barbosa, Carlos Ayres de Britto, Gilmar Mendes, Ellen Gracie, Marco Aurélio Mello, Carlos Velloso e Celso de Mello. Votaram a favor os ministros Sepúlveda Pertence, relator do processo, Eros Grau e o presidente Nelson Jobim. Não votou por estar ausente do país, em viagem oficial à Espanha como representante da corte, o ministro Cezar Peluso.



Escrito por Dom Quixote às 21h49
[ ] [ envie esta mensagem ]



A bola está com o Supremo

As esperanças do deputado José Dirceu, do PT, ex-homem forte do governo Lula, de escapar da cassação repousam principalmente na decisão que o Supremo Tribunal Federal deverá dar amanhã ao mandado de segurança por ele requerido, sob a alegação de que não é passível de punição por seus pares no Congresso porque, na época a que se referem as denúncias de financiamento ilegal de campanhas e do Mensalão, ele era ministro da Casa Civil e, portanto, não exercia o mandato parlamentar.

Embora se diga que há precedentes que inviabilizam tal argumento, o fato é que se trata de assunto controverso. Não existe uma jurisprudência firmada, tanto é que o ministro Sepúlveda Pertence, relator do caso no Supremo, ao invés de decidir sozinho pela concessão ou não da liminar, pediu a ajuda dos demais membros da corte para julgarem o seu parecer, na sessão de amanhã. Caso a liminar seja concedida, o atual processo que tramita no Conselho de Ética perde validade jurídica, ou seja, volta tudo à estaca zero no que se refere à cassação do deputado. Mas isso não significa que Dirceu estará livre da ameaça, porque líderes partidários da oposição já anunciaram que, na hipótese de anulação do atual processo, entrarão com nova representação contra o deputado no Conselho de Ética.

E há mais. Como o próprio relator do processo no Conselho, Júlio Delgado, do PSB de Minas, lembrou a certa altura em seu parecer, apresentado hoje, pesa sobre Dirceu uma outra circunstância, a de ter mantido por alguns meses, já como deputado empossado, cargo remunerado no conselho da Petrobrás, em flagrante desrespeito a um dispositivo da Constituição. A punição, prescrita na própria Carta, é a perda imediata do mandato.

Em seu parecer, de certa forma surpreendente pelo rigor já que Delgado era tido como aliado de Dirceu, o relator não só recomendou a cassação como em dado momento associou a figura do acusado a Fausto, o personagem do poema teatral de Goethe (1749-1832) que vendeu a alma ao diabo, Mefistófeles, para alcançar suas ambições de glória, fortuna e vida fácil. Ficou no ar a dúvida sobre quem seria o demo que autorizou o suposto chefe das maracutaias denunciadas a agir como agiu, uma vez que sobre o objetivo delas, o aliciamento de políticos e partidos para formar a base de apoio do governo, as evidências já recolhidas permitem compor uma firme certeza. 

Não se deve perder, portanto, o capítulo decisivo da novela, amanhã. Com a palavra, o Supremo.



Escrito por Dom Quixote às 19h58
[ ] [ envie esta mensagem ]



Salário franciscano

Contratado para tirar do buraco a Delphi, a maior empresa fabricante de autopeças do mundo, hoje concordatária, o superexecutivo americano Robert "Steve" Miller, de 63 anos, acertou seu salário. Este será de 1 dólar por ano, a partir de 1.o de janeiro do próximo ano, e continuará nesse patamar franciscano até que a empresa se recupere.

É o que se pode chamar de confiança no próprio taco. E também de liderança, pois com seu exemplo pessoal Miller conseguiu que os demais diretores da empresa também concordassem em reduzir seus salários.

Ex-subsidiária da General Motors, a Delphi pediu concordata no dia 8 passado, afogada em dívidas causadas, sobretudo, pelo custo de pessoal. Entre outros direitos trabalhistas, pesam no seu caixa os caros planos de saúde que paga aos 51.000 funcionários.

Miller, ex-presidente ou membro do conselho de administração de outros portentos empresariais como a Bethlehem Steel, Federal Mogul Corp. e United Airlines, poderá até fracassar na tarefa a que se propôs. Mas já assegurou seu lugar na história do capitalismo americano como o executivo mais mal pago de todos.



Escrito por Dom Quixote às 17h42
[ ] [ envie esta mensagem ]



Uma gota no oceano

Ao discordar da declaração do ministro Antonio Palocci, da Fazenda, de que "a combinação da estabilidade macroeconômica com as políticas públicas e sociais gerou tantos empregos que tornou desnecessária qualquer mudança na legislação trabalhista", o professor José Pastore, da FEA-USP, reputado especialista no assunto, dá seus motivos, em artigo publicado hoje no jornal O Estado de S. Paulo.

Um deles: é praticamente impossível para as pequenas e microempresas, que representam 97% do total de empresas do país, admitir empregados com as despesas atuais impostas pela legislação, que chegam a 103,46% do salário. Ou seja, um funcionário que ganhe 1.000 reais custa, na verdade, 2.030 para a empresa.

Outro: o Brasil tem ainda cerca de 47,5 milhões de pessoas na informalidade, ou 60% dos brasileiros que trabalham. Se tantos trabalham sem carteira assinada, é porque não encontram emprego que lhes dê salário, 13.o, Fundo de Garantia, férias e plano de saúde, entre outros benefícios. E como o autônomo, em geral, também não contribui para o INSS, porque precisaria arcar com um custo mensal de 20% do salário de contribuição, a Previdência Social sofre todo ano déficits monumentais. Para este ano, o rombo estimado é de 38 bilhões de reais.

Depois de elencar outras razões para a discordância em relação ao ministro, o professor Pastore diz: "Tomando como verdadeira a controvertida geração (N.R. – pelo governo Lula) de cerca de 1,5 milhão de empregos formais por ano em 2004 e 2005, o país levará uns 30 anos para: 1) pôr na formalidade os 47,5 milhões de brasileiros que trabalham sem proteção; 2) sanear as finanças da Previdência Social; e 3) gerar os empregos de boa qualidade para os que entrarão no mercado de trabalho".

Ou seja, os alardeados empregos criados até agora no atual governo não passariam de uma gota dágua frente às reais necessidades do país. 



Escrito por Dom Quixote às 16h58
[ ] [ envie esta mensagem ]



Nota vermelha em corrupção

No ranking mundial da corrupção, organizado anualmente pela ONG Transparência Internacional e divulgado hoje, em Londres, o Brasil caiu da 59a. para a 62a. posição. Sua nota, de 0 a 10, piorou de 3,9 para 3,7.
Só como comparação, o país de melhor nota, a Islândia, obteve 9,7. Logo depois vêm Finlândia e Nova Zelândia, com 9,6, e Dinamarca, com 9,5.
E olhem que o levantamento da ONG foi feito em junho, quando as denúncias envolvendo o PT e o governo Lula estavam apenas no início.



Escrito por Dom Quixote às 16h11
[ ] [ envie esta mensagem ]



Frases do dia

"Ele (Delúbio Soares) colocou a credibilidade do partido em risco." Ricardo Berzoini, novo presidente do PT.

Comentário: o deputado Berzoini parece viver em alguma caverna na qual as notícias chegam com uns cinco meses de atraso. A credibilidade do PT não está em risco. Foi comprometida há muito tempo.

 

"Os países pobres (como o Brasil) têm de dar exemplo de severidade, honestidade e ética." Presidente Lula, ao receber uma medalha da FAO, órgão da ONU para Alimentação e Agricultura, pela luta contra a fome. Foi uma resposta indireta à recomendação do secretário-geral da mesma ONU, Kofi Annan, de que os países da América Latina deveriam combater tanto a fome quanto a corrupção.

Sem comentário.

 

"Acreditamos neles. Nunca poderíamos imaginar que um dia colocariam o dinheiro do PT sob suspeita." Deputado José Janene, líder do PP na Câmara e ameaçado de cassação por ter recebido dinheiro do valerioduto, seguindo instruções do PT.

Sem comentário.



Escrito por Dom Quixote às 15h56
[ ] [ envie esta mensagem ]



Escolhidos os relatores

O colunista político Josias de Souza, da Folha de S. Paulo, publicou agora há pouco no seu blog a lista dos relatores dos onze novos processos de cassação instaurados no Conselho de Ética da Câmara. A escolha se deu por sorteio, com bolinhas colocadas numa pequena esfera manuseada pelo presidente do órgão, deputado Ricardo Izar.

A lista dos relatores por processo é a seguinte:

1. João Magno (PT-MG) - relator: Jairo Carneiro (PFL-BA)
2. João Paulo Cunha (PT-SP) - relator: Cezar Schirmer (PMDB-RS)
3. José Janene (PP-PR) - relator: Angela Guadagnin (PT-SP)
4. José Mentor (PT-SP) - relator: Edmar Moreira (PFL-MG)
5. Josias Gomes (PT-BA) - relator: Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP)
6. Pedro Corrêa (PP-PE) - relator: Carlos Sampaio (PSDB-SP)
7. Pedro Henry (PP-MT) - relator: Orlando Fantazzini (PSOL-SP)
8. Professor Luizinho (PT-SP) - relator: Pedro Canedo (PP-GO)
9. Roberto Brant (PFL-MG) - relator: Nelson Trad (PMDB-MS)
10. Vadão Gomes (PP-SP) - relator: Moroni Torgan (PFL-CE)
11. Wanderval Santos (PL-SP) - relator: Chico Alencar (PSOL-RJ)



Escrito por Dom Quixote às 15h18
[ ] [ envie esta mensagem ]



Azeitona com caroço

"Mas só o Paulo Rocha renunciou?", teria perguntado, em tom de desolação, o presidente Lula, ao ser informado de que, com a exceção do ex-líder do partido, os demais cinco deputados do PT ameaçados de cassação preferiram enfrentar seus processos no Conselho de Ética. A reação do presidente, que se encontra na Europa em mais uma viagem ao exterior, foi manifestada durante o vôo de Roma a Moscou, segundo reportagem da Agência Estado assinada por João Domingos e Leonencio Nossa. Pouco antes, o Supremo Tribunal Federal havia negado a liminar com que Rocha e mais quatro colegas de partido pretendiam retardar a abertura dos processos pelo Conselho. 

A renúncia de apenas um parlamentar do PT – o deputado José Borba, ex-líder do PMDB, também renunciou ontem - é má notícia para o governo. A idéia, para a qual se mobilizou ajuda interna e externa, entre elas a do presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo, era convencer todos os seis implicados a tomar a mesma medida, deixando para ser imolado apenas o ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu, cujo processo no Conselho de Ética está prestes a ser concluído, com o relator Júlio Delgado (PSB-MG) recomendando a cassação de seu mandato.

Ao isolar a crise do partido dentro do Congresso na figura do deputado Dirceu, raciocinava-se com essa manobra, o governo estaria matando dois coelhos com uma cajadada, pois de um lado o sacrifício de um peixe graúdo do PT serviria como mea-culpa perante a opinião pública e, de outro, se aplainaria rapidamente o terreno para a próxima campanha eleitoral. Livres da sombra de suspeição lançada pelos processos de cassação, o governo e o PT poderiam assim passar da defesa para o ataque, fustigando a oposição, em especial o PSDB, para fortalecer seus candidatos a presidente da República, governadores e senadores. Em nome de tal estratégia, chegou-se a oferecer aos parlamentares cassáveis do PT direito líquido e certo à legenda para que pudessem concorrer à reeleição.

Para desgosto dos articuladores políticos do Planalto, somente o deputado Rocha aceitou participar da manobra, talvez porque, como presidente do partido no Pará, caberá a ele próprio dar a legenda à sua candidatura, o que é o fim do mundo. E agora, como são nada menos de 14 os processos em andamento no Conselho de Ética – os 11 abertos ontem somam-se aos 3 mais antigos, entre eles o do deputado José Dirceu (veja a lista completa abaixo) -, as previsões são de que eles somente estarão concluídos por volta de março do ano que vem, faltando menos de sete meses para as eleições. A memória dos eleitores, convenhamos, estará incomodamente fresca na hora de apertar o botão do voto.

 

OS 14 PROCESSOS DO CONSELHO DE ÉTICA

 

Antigos

1. José Dirceu (PT-SP)

2. Romeu Queiroz (PTB-MG)

3. Sandro Mabel (PL-GO)

Novos

1. João Magno (PT-MG)
2. João Paulo Cunha (PT-SP)
3. José Janene (PP-PR)
4. José Mentor (PT-SP)
5. Josias Gomes (PT-BA)
6. Pedro Corrêa (PP-PE)
7. Pedro Henry (PP-MT)
8. Professor Luizinho (PT-SP)
9. Roberto Brant (PFL-MG)
10. Vadão Gomes (PP-SP)
11. Wanderval Santos (PL-SP)



Escrito por Dom Quixote às 03h01
[ ] [ envie esta mensagem ]



Renúncias à vista

Sai hoje a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a liminar que cinco deputados do PT ameaçados de cassação pediram na última sexta-feira, para protelar o início do andamento de seus processos no Conselho de Ética da Câmara. Os cinco são João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara (SP), Professor Luizinho (SP), José Mentor (SP), Paulo Rocha (PA) e Josias Gomes da Silva (BA).

Segundo o blog do colunista Josias de Souza, da Folha de S. Paulo, o relator do Supremo para o julgamento do recurso, ministro Carlos Ayres Britto, ex-militante do PT, deverá votar contra a concessão da liminar. Como basta o voto do relator da corte em tais casos, os deputados veriam assim o Conselho de Ética instaurar os processos às 18h01 de hoje, como prometeu o presidente do órgão, deputado Ricardo Izar.

Mas três deles, pelo menos, poderão renunciar ao mandato antes, para não correr o risco de perder os direitos políticos: José Mentor, ex-relator da CPI do Banestado (a qual, como se sabe, terminou em pizza), Paulo Rocha e Josias Gomes da Silva. A eles se juntaria um quarto renunciante, José Borba, do Paraná, ex-líder do PMDB.

Caso seus deputados sob denúncia renunciem ao mandato, praticamente assinando uma confissão de culpa, o que fará o PT, partido que dizia representar a ética e a moralidade na política brasileira? Oferecerá de novo a legenda aos renunciantes nas próximas eleições, sem submetê-los a julgamento interno? Se o fizer, o partido estará assumindo publicamente, em lugar dos hoje deputados, a responsabilidade por eventuais atos condenáveis que tenham sido praticados por seus filiados no atual escândalo político.



Escrito por Dom Quixote às 02h06
[ ] [ envie esta mensagem ]



Cena de domingo

Foi antes de começar o jogo entre Santos e Goiás, ontem, no estádio da Vila Belmiro. Entre duas filas de crianças animadas, um garoto de 3 ou 4 anos saltita, cúmplice e participante.

Depois, na evacuação do campo para o início da partida, vê-se o mesmo garoto correndo em direção ao vestiário. Um rapaz, talvez algum funcionário do Santos, acompanha-o com passos miúdos, a respeitosa distância.

A inocência correndo à solta, com o tributo dos adultos. Como seria bom se a cena fosse corriqueira também fora dos estádios.



Escrito por Dom Quixote às 00h35
[ ] [ envie esta mensagem ]



Aftosa versus demagogia

 

 

O demagógico plebiscito sobre a proibição do comércio de armas de fogo e munição, a realizar-se no próximo dia 23, vai custar aos cofres públicos 600 milhões de reais.

 

Por cerca de um quarto disso, 160 milhões, o governo poderia ter reforçado a vigilância sanitária e, talvez, evitado o surgimento do foco de aftosa no Mato Grosso do Sul.

 

Com o aparecimento da doença, o país corre o risco de perder até 4 bilhões de dólares, ou cerca de 9 bilhões de reais, em exportações de carne bovina fresca e enlatada.

 

A estupidez humana, já disse alguém, não parece ter limites.



Escrito por Dom Quixote às 23h16
[ ] [ envie esta mensagem ]



O sumiço das provas

O desaparecimento do laudo cadavérico complementar em que o médico-legista Carlos Delmonte Printes estava trabalhando há dois meses, a pedido do Ministério Público, antes de também ser encontrado morto na última quarta-feira, vem somar-se aos vários mistérios que cercam o assassinato do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel. Nenhum rascunho ou vestígio do documento, como anotações em folhas soltas, foi encontrado pelos policiais, durante busca realizada ontem no escritório particular de Printes e no gabinete que ele ocupava no Instituto Médico Legal de São Paulo. E no entanto, segundo João Francisco Daniel, irmão do ex-prefeito, o médico lhe teria assegurado, cerca de duas semanas atrás, que estava prestes a concluir o laudo.

Assim como o documento de Printes, nunca foi encontrado o suposto dossiê que Celso Daniel teria elaborado sobre o esquema de corrupção montado a partir da Prefeitura de Santo André, envolvendo empresas de ônibus e de coleta de lixo da região com a participação, segundo denúncias, de dirigentes do PT, em particular do então presidente do partido, deputado José Dirceu. Desapareceu também misteriosamente, do apartamento em que morava o ex-prefeito, um computador portátil no qual ele armazenava documentos pessoais e de trabalho. Entre o momento do seqüestro e o da morte de Daniel, segundo um testemunho colhido pela polícia, estiveram no apartamento seu amigo e secretário da Prefeitura Klinger Luiz de Oliveira, acompanhado da namorada do prefeito, Ivone de Santana.

Ontem ainda, enquanto o irmão mais novo de Daniel, Bruno, procurava a delegada Elizabeth Sato, encarregada das investigações pelo governador paulista Geraldo Alckmin desde a reabertura do caso, para pedir proteção policial à família, o irmão mais velho, João Francisco, afirmou à reportagem do jornal O Estado de S. Paulo que está com medo de ser "a próxima vítima", a exemplo das seis testemunhas diretas ou indiretas que já foram assassinadas e do médico-legista, que também não morreu, aparentemente, de causas naturais.

Disse mais João Francisco, à mesma reportagem: "Está evidente que existe uma força muito mais poderosa que não quer que o caso do Celso seja resolvido. Só não enxerga quem não quer". Ele não disse a quem se referia, mas parece óbvio a esta altura que nada do que aconteceu em torno do caso se deveu a meras coincidências. Se não, como explicar que dois dias antes do assassinato do ex-prefeito nada menos que um helicóptero tenha pousado dentro de um presídio para resgatar dois dos autores do crime?



Escrito por Dom Quixote às 22h20
[ ] [ envie esta mensagem ]



O que falta apurar

Num impressionante relato dos bastidores do caso Celso Daniel, o ex-prefeito petista de Santo André, no ABC paulista, assassinado em janeiro de 2002, o repórter João Gabriel de Lima revela, na revista Veja que começa a circular hoje, uma profusão de novos dados que podem ajudar na elucidação do crime e de suas reais motivações.

Duas das pistas indicadas na reportagem têm de ser conferidas já pela Polícia Civil e pelo Ministério Público: 1) a realização de nova perícia no cadáver do ex-prefeito, como defendia o legista Carlos Demonte Printes, antes de ser encontrado morto em seu escritório na última quarta-feira, em busca de provas adicionais. O corpo de Daniel, enterrado no Cemitério da Saudade, em Santo André, encontra-se em boas condições para o exame, já que foi embalsamado antes do sepultamento; e 2) a reinquirição de Ailton Alves Feitosa, um dos participantes do seqüestro e assassinato do ex-prefeito e que está preso em São Paulo. Pela intimidade que tinha com Dionísio Aquino Severo, um dos líderes da ação criminosa que logo depois de preso foi morto na cadeia, em aparente operação de queima de arquivo, Feitosa pode saber mais do que já contou à polícia sobre as motivações do crime.

Um primor de trabalho jornalístico pela riqueza de detalhes que traz, a reportagem da revista Veja constitui desde já um marco da atuação da imprensa na cobertura da atual crise, que está no seu quinto mês de duração. Sua leitura é indispensável a todos os cidadãos que defendam a moralização da prática política no país, inconformados e indignados com o desprezo que se tem demonstrado à decência e à honestidade.



Escrito por Dom Quixote às 17h28
[ ] [ envie esta mensagem ]



Vote NÃO no dia 23

 

O Ibope confirma: a proposta demagógica de proibir o comércio de armas de fogo no país, a pretexto de reduzir a criminalidade, perde terreno a cada dia. Os que votam NÃO à proibição já são 49%, contra 45% da turma do sim e 6% dos indecisos ou que ficam na moita.

 

Depois da derrota no referendo do próximo dia 23, só restará à turma do sim defender uma outra proibição: o da fabricação de camas. É que a grande maioria das pessoas ainda morre deitada nelas.



Escrito por Dom Quixote às 23h29
[ ] [ envie esta mensagem ]



Capital estrangeiro na bolsa

O dinheiro estrangeiro aplicado na Bolsa de Valores de São Paulo, Bovespa, chegava em 10 de outubro a 4,1 bilhões de reais, considerados apenas os investimentos feitos este ano, de acordo com dados divulgados pela assessoria de imprensa da entidade. Esse é o valor líquido, ou seja, a diferença entre os valores acumulados de compras e vendas no ano. No período, o maior volume de compras foi registrado em fevereiro, 13,7 bilhões, e o maior volume de vendas, 14,0 bilhões, em março.

 Como as estatísticas da Bovespa são reiniciadas a cada ano, ao invés de terem uma continuidade histórica, não dá para saber quanto, exatamente, existe hoje de capital estrangeiro na bolsa. Contudo, os números disponíveis mostram que os investidores residentes fora do país têm presença marcante, respondendo por cerca de um terço das negociações realizadas este ano. No acumulado até o dia 10 de outubro, sua participação foi de 32,7%, a maior entre todas as categorias de aplicadores da bolsa, situando-se à frente dos investidores institucionais (27,3%), pessoas físicas (25,7%) e instituições financeiras (11,7%).

O ingresso de capital estrangeiro acelerou-se depois do Plano Real, em 1994. Rapidamente, o volume de compras dos aplicadores externos na bolsa aumentou de 12,7 bilhões de reais, naquele ano, para 53,7 bilhões em 1997. Seguiu-se um período de altos e baixos, por conta das crises financeiras mundiais que também atingiram o Brasil, mas com a recuperação da estabilidade os volumes voltaram a crescer, tendo atingido 83,3 bilhões de reais em 2004 e 100,5 bilhões só neste ano, até 10 de outubro.



Escrito por Dom Quixote às 19h28
[ ] [ envie esta mensagem ]



Inflação faz bem a Hillary

Por culpa sobretudo da alta no preço de energia provocada pelos estragos feitos pelos furacões Katrina e Rita, o custo de vida nos Estados Unidos, medido pelo indicador CPI-U, subiu 1,22% em setembro, a maior alta desde junho de 1982, segundo a consultoria Economática, de São Paulo. Com esse repique, a inflação acumulada de janeiro a setembro, ainda segundo a consultoria, chegou a 4,47%, a maior para esse período desde 1990.

A persistência da febre inflacionária, apesar dos sucessivos reajustes que o Federal Reserve, o Banco Central dos EUA, vem impondo aos juros básicos no país, é um dado que torna ainda mais desconfortável a situação do governo Bush, num momento em que a longa intervenção no Iraque já resulta em mais de 2.000 soldados americanos mortos e se sobrepõem acusações de incompetência no atendimento às vítimas dos furacões, gastos desenfreados com o orçamento militar e irregularidades no financiamento de campanhas políticas passadas.

Diante desse quadro, a oposição ao governo, representada no Partido Democrata, esfrega as mãos de contentamento, antevendo grandes chances para sua possível candidata à sucessão presidencial, Hillary Clinton. Senadora por Nova York, a mulher do ex-presidente Clinton, que angariou simpatias populares no episódio do envolvimento do marido com a ex-estagiária da Casa Branca, Monica Levinsky, é tida hoje como o nome mais forte para as futuras eleições primárias, entre os democratas.

Caso Hillary seja indicada pelo partido, e vença depois o opositor republicano, ela se tornará a primeira mulher presidente dos Estados Unidos, em fato histórico. E nas reuniões de cúpula do G-8, que reúne as economias mais fortes do planeta, terá a companhia de Angela Merkel, recém-eleita chanceler da Alemanha, em fato igualmente histórico.



Escrito por Dom Quixote às 18h31
[ ] [ envie esta mensagem ]



Quem quebrou mais o decoro?

O Partido dos Trabalhadores, PT, entrou hoje com uma representação no Conselho de Ética da Câmara, por suposta quebra de decoro parlamentar, contra o deputado Onyx Lorenzoni, do PFL. No entender do partido, Lorenzoni feriu o decoro ao revelar para a imprensa dados do sigilo fiscal do deputado José Dirceu, mais exatamente um empréstimo de 14.322 reais que ele teria recebido do PT sem declará-lo no Imposto de Renda. Dirceu e o partido negaram ter havido o empréstimo, e a CPI dos Correios acabou por desqualificar o documento em que Lorenzoni encaminhava a denúncia.

Tudo bem que não existisse o empréstimo e Dirceu não tenha sonegado, mas uma coisa é agir com base em alguma dedução equivocada, como fez Lorenzoni, e outra, bem pior, é botar para circular uma lista falsa de beneficiários do esquema de financiamento paralelo montado pelo publicitário Marcos Valério, como fez o deputado Paulo Pimenta, do PT, para envolver nomes da oposição. À época, início de agosto, vice-presidente da CPI dos Correios, Pimenta renunciou a seu cargo quando a farsa veio à tona. Para sua sorte, nenhum partido da oposição requereu processo de cassação contra ele no Conselho de Ética.



Escrito por Dom Quixote às 17h18
[ ] [ envie esta mensagem ]



Cada macaco no seu galho

Ao anunciar que cinco deputados petistas ameaçados de cassação iriam recorrer em bloco ao Supremo Tribunal Federal para tentar suspender a abertura de seus processos pelo Conselho de Ética da Câmara na próxima segunda-feira, o deputado João Paulo Cunha, um dos envolvidos, disse que a liminar seria pedida porque a Mesa Diretora da casa não tipificou as faltas e as penas aplicáveis de cada um dos parlamentares. No recurso, segundo o mesmo Cunha, os cinco pretendiam também insistir no argumento de que não tiveram direito à plena defesa durante a tramitação dos casos, inicialmente na Corregedoria da Câmara e, depois, na Mesa Diretora. Os cinco são, além de Cunha (SP), os deputados Professor Luizinho (SP), José Mentor (SP), Paulo Rocha (PA) e Josias Gomes da Silva (BA). Há um sexto parlamentar do PT envolvido, mas este, João Magno (MG), preferiu ficar de fora do recurso e enfrentar seu processo, descartando inclusive a hipótese de renúncia.

Não se sabe se, como da vez anterior, os impetrantes obterão êxito na sua manobra protelatória, mas de antemão pode-se apostar que dificilmente a inexistência de tipificação das faltas e penas será aceita como argumento pela corte, porque essa providência não cabe à Mesa ou à Corregedoria. É no âmbito das posteriores investigações no Conselho de Ética que se colhem os elementos necessários à formação de juízo por parte do relator de cada processo. Assim, a menos que o Supremo dê outra vez guarida à discutível alegação de cerceamento de defesa, passando por cima do que está escrito no regimento interno da Câmara, os cinco deputados petistas podem não conseguir retardar de novo o andamento de seus processos. 

Como ex-presidente da Câmara, o deputado João Paulo Cunha deveria zelar pela separação de poderes entre o Legislativo e o Judiciário. Ao invés disso, invoca a intromissão do poder externo em seu benefício, atropelando de novo o decoro parlamentar - assim como o fez quando faltou com a verdade ao dizer que sua mulher fora ao banco não para receber dinheiro enviado pelo publicitário Marcos Valério, mas para pagar uma conta de TV a cabo. 



Escrito por Dom Quixote às 14h56
[ ] [ envie esta mensagem ]



A pátria de chuteiras

Os jogadores, a comissão técnica e os dirigentes da seleção de futebol do Equador, classificada para disputar a Copa do Mundo na Alemanha, no próximo ano, foram condecorados ontem em Quito, capital do país, pelo presidente Alfredo Palacio. E não com uma comenda qualquer. Receberam a Ordem Nacional do Mérito, a mais alta do país, pelo terceiro lugar obtido nas eliminatórias sul-americanas para a Copa. O técnico da seleção, Luis Suárez, é colombiano, mas ninguém pareceu se importar com esse detalhe em meio à euforia da conquista.

É possível que alguns de seus patrícios discordem do ato de Palacio por vulgarizar, de certa forma, a honraria, mas o presidente equatoriano não inovou nessa matéria. No mundo inteiro, governantes pegam carona na fama de esportistas e artistas. Até a rainha da Inglaterra já concedeu o título de "sir" a personalidades sem nenhuma ascendência na nobreza, como os ex-Beatles e o ator Sean Connery, mais conhecido como o melhor James Bond do cinema.

No Brasil, a homenagem prestada pelo presidente Médici aos jogadores da seleção de 70, campeã do mundo, ficou na memória como um dos raros momentos que se poderiam considerar simpáticos na biografia do general, que governou o país como se este fosse um imenso quartel. O prefeito de São Paulo nomeado pela ditadura, Paulo Maluf, que nunca perdia uma oportunidade de se promover, sentiu-se então liberado para também homenagear os jogadores. A cada um deles deu um Fusca, por conta do erário. Condenado por uso impróprio de recursos públicos até pelo Supremo Tribunal Federal, Maluf depois pediu revisão da sentença e obteve êxito, sendo liberado de devolver o dinheiro à Prefeitura. Coisas da Justiça brasileira.

Em sua defesa, Maluf alegou que atendia a uma vontade da população ao homenagear os craques da seleção de 70, o que não deixa de ser verdade. Já o presidente Lula não encontra remissão possível para seu gesto de condecorar o então presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti, com a Ordem do Rio Branco, a mais alta da diplomacia brasileira. Vinte dias depois de receber a comenda, o deputado precisou renunciar ao cargo e ao mandato, diante da acusação, comprovada por um cheque, de que exigira propina de um concessionário de serviços da Câmara.



Escrito por Dom Quixote às 02h08
[ ] [ envie esta mensagem ]



Outra morte misteriosa

Com a morte do médico-legista Carlos Delmonte Printes, de 55 anos, ocorrida ontem, chega a sete o número de pessoas mortas misteriosamente depois que se viram envolvidas de alguma forma no caso do assassinato de Celso Daniel, ex-prefeito de Santo André, cidade do ABC paulista. Além da sucessão macabra de acontecimentos, a própria imprecisão da cobertura jornalística contribui para aumentar o clima de mistério. Enquanto o noticiário on-line do jornal Folha de S. Paulo sustenta que Printes foi encontrado morto ontem à tarde em seu escritório, localizado na zona sul da capital paulista, o do jornal O Estado de S. Paulo diz que ele morreu em casa, de parada cardíaca. Seja como for, o caso está sob investigação da Polícia Civil.

Printes, encarregado da autópsia no corpo do ex-prefeito no Instituto Médico Legal de São Paulo, em janeiro de 2002, sempre sustentou opinião contrária à da conclusão do inquérito policial, segundo a qual Daniel teria sido vítima de crime comum. Para tanto, baseava-se nas evidências de tortura que recolhera durante o exame do corpo. Em depoimento dado no dia 28 de agosto passado ao Ministério Público de São Paulo, além de detalhar essas evidências, que segundo ele indicavam uma crueldade incomum dos torturadores, acusou dois superiores de o terem censurado para que não mais passasse informações à imprensa. Acusou também o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, designado pelo PT para acompanhar o caso, de ter tentado impedir o andamento normal da autópsia. O deputado, declarou aos promotores que o ouviam, estava "emocionalmente alterado".

Por que Daniel foi torturado antes de ser morto? Em nome de que interesses o deputado Greenhalgh se esforçou para que o laudo do perito indicasse ter havido apenas um crime de homicídio comum antecedido de seqüestro, e não um crime encomendado, antecedido de tortura após o seqüestro? Por outro lado, quem está dizendo a verdade, os dois irmãos – João Francisco e Bruno – da vítima, que sustentam ter ouvido do atual chefe de gabinete do presidente Lula, Gilberto Carvalho, que este levava para o deputado José Dirceu, em seu Corsa Preto, as propinas extorquidas das empresas de ônibus do município, ou o assessor presidencial, que nega a denúncia?

São perguntas até hoje sem resposta, assim como continuam envoltas em mistério as seis outras mortes de pessoas ligadas ao caso, numa aparente operação de queima de arquivo. Uma delas foi a de um dos seqüestradores, Dionísio Aquino Severo, morto na prisão três meses após o assassinato de Daniel. Seu amigo Sérgio "Orelha", que o escondeu em casa após o crime, também foi assassinado, em novembro daquele mesmo ano. O investigador da Polícia Civil, Otávio Mercier, com ligações com o bando, foi fuzilado depois de ter a casa invadida. O garçom do restaurante Rubaiyat (no qual Daniel, pouco antes de ser seqüestrado, tinha jantado com o empresário Sérgio Gomes da Silva, suposto mandante do crime), Antonio Palácio de Oliveira, morreu ao bater com sua moto num poste, fugindo de perseguição movida por dois desconhecidos. Paulo Henrique Brito, única testemunha da morte do garçom, foi morto por um tiro, 20 dias depois. E, por fim, a sexta vítima, o agente funerário Iran Moraes Redua, que reconheceu o corpo de Daniel no local em que ele foi encontrado, no município de Juquitiba, também foi morto a tiros.

Sete mortes, contando com a de ontem, do médico-legista, é muita coincidência para um caso só. E se não se tratar de coincidência, que organização criminosa está por trás desses acontecimentos e qual é seu grau de envolvimento com o esquema de corrupção montado pela prefeitura petista em Santo André?

A opinião pública espera por uma resposta cabal das autoridades policiais, porque após toda essa sucessão de acontecimentos nada ainda foi esclarecido de forma definitiva.



Escrito por Dom Quixote às 03h46
[ ] [ envie esta mensagem ]



Em memória de Ulysses

O lema "Navegar é preciso", que será usado em campanha publicitária ufanista pela Transpetro, subsidiária da Petrobrás para o transporte marítimo, por conta de pretenso reerguimento da indústria naval brasileira mediante uma encomenda inicial de 26 petroleiros, de um total previsto de 42, já serviu para muita coisa, de um poema em prosa de Fernando Pessoa a uma linda música de Caetano Veloso, de uma ordem do general romano Pompeu a seus comandados a um histórico discurso de Ulysses Guimarães - e também para uma atroz demonstração de ignorância por parte da assessoria do presidente Lula.

Numa de suas falas quase diárias, às vezes até horárias, perante diferentes auditórios de Norte a Sul do país, quando não do exterior, desinformado por seus assessores o presidente atribuiu a Chico Buarque de Hollanda a autoria da música "Os Argonautas", em cujos versos figura o famoso lema. Isso foi em agosto. Na última segunda-feira, em discurso durante o lançamento da licitação dos navios pela Transpetro, corrigiu parcialmente o equívoco ao citar pelo menos a interpretação da canção por Caetano Veloso.

Um pouco de cultura não faz mal a ninguém, e nem o presidente, nem sua assessoria, podem ser crucificados por um ou outro equívoco. É errando que se aprende, como todos sabemos, e a tentativa de abordar temas mais eruditos na fala presidencial frutifica, quando menos, em discussões que se prestam à disseminação de conhecimentos entre a população. Além disso, não seria sensato nem justo pedir que Lula mude o estilo, já que muito do seu poder de comunicação com as massas deriva da informalidade de seu discurso, no qual assuntos mais sérios, menos sérios ou apenas jocosos merecem praticamente o mesmo nível de tratamento.

Ninguém poderá esperar que o presidente algum dia faça um pronunciamento como aquele com que Ulysses Guimarães lançou sua anti-candidatura à Presidência da República em setembro de 1973, no auge da ditadura militar. Escrito de próprio punho por Ulysses, posteriormente o "Senhor Diretas" e presidente da Assembléia Constituinte que redigiu a Carta de 1988, o discurso é uma das mais belas peças da oratória política no Brasil em todos os tempos. "Senhores convencionais", conclamou o então presidente do MDB, o partido de oposição tolerado pelo regime porque foi criado por este junto com a Arena, da situação, "a caravela vai partir. As velas estão pandas de sonho, aladas de esperança. O ideal está no leme e o desconhecido se desata à frente".

E prosseguiu, com sua poderosa voz de barítono: "No cais alvoroçado, nossos opositores, como o Velho do Restelo de todas as epopéias, com sua voz de Cassandra e seu olhar derrotista, sussurram as excelências do imobilismo e invencibilidade do establishment. Conjuram que é hora de fiar e não de se aventurar".

"Mas, no episódio, nossa carta de marear não é de Camões e sim de Fernando Pessoa ao recordar o brado: navegar é preciso, viver não é preciso."

"Posto hoje no alto da gávea, espero em Deus que em breve possa gritar ao povo brasileiro: alvíssaras, meu capitão. Terra à vista!"

Esse discurso épico, ironicamente proferido numa farsa montada como se fosse a sexta convenção nacional do MDB transmitida em cadeia de TV para todo o país quando, na verdade, Ulysses falava do Congresso quase deserto diante somente da câmera, de alguns técnicos de gravação e de um fiscal do regime, depois de acordo firmado com o então ministro da Justiça, Leitão de Abreu, foi um marco da resistência civil que forçou o processo de distensão iniciado no governo do general Ernesto Geisel, contra quem o deputado erguia sua anti-candidatura. O discurso também não foi ao ar, como combinado com Leitão, porque o chefe militar da repressão, o general Milton Tavares, ordenou a interrupção da transmissão. Mas seus trechos essenciais chegaram aos jornais, que os divulgaram, dando origem ao silencioso movimento de oposição que acabou por dar ao MDB, nas eleições seguintes para a Câmara e o Senado, muito mais votos do que queriam os militares.

Todavia, mesmo Ulysses, que lembrava no nome um herói da mitologia grega celebrado por Homero nos versos da "Odisséia", não foi inteiramente elucidativo nas citações eruditas de sua fala, o que, talvez, se devesse à limitação de tempo dada ao pronunciamento. Se o Velho do Restelo era, de fato, uma figura de "Os Lusíadas", de Camões, a citação à "voz de Cassandra" remetia a um outro personagem da mitologia grega, a bela profetisa cantada na "Ilíada" de Homero, que teria recebido seu poder diretamente do deus Apolo. Depois, ao dizer que os derrotistas recomendavam fiar, em lugar de se aventurar, Ulysses lembrava o interminável manto que Penélope, a fiel mulher do herói mitológico Ulisses, tecia de dia e desmanchava à noite, num artifício para esperar o marido, que tardava na viagem, e ganhar tempo em relação à investida de seus numerosos pretendentes. Por fim, o lema "Navegar é preciso, viver não é preciso" foi corretamente mencionado por Ulysses como tendo sido recordado, e não criado, pelo poeta português Fernando Pessoa. O próprio poeta anotou no rodapé do seu poema em prosa que o tomou emprestado do general romano Pompeu (106-48 A.C.), que teria ordenado a seus soldados atemorizados que embarcassem em meio à tormenta para levar alimentos a Roma: "Navigare necesse. Vivere non est necesse". Ou seja, a ordem seria de que, mesmo correndo risco de vida, os soldados cumprissem a missão.

Só que também Pompeu não foi o verdadeiro autor do lema, já que por sua vez o tomou emprestado de uma tradição militar corrente na civilização grega, cujo apogeu ocorrera séculos antes do domínio de Roma. Não há um consenso a respeito, mas é bem possível que a tradição tenha nascido mesmo com heróis navegantes como Ulisses, que mandou construir um enorme cavalo de madeira, o Cavalo de Tróia, para nele esconder soldados e tomar de assalto a cidade sitiada pelos gregos na calada da noite, ou Jasão, que com a ajuda de Medéia, a filha do rei Eestes, apossou-se do Velocino de Ouro guardado pelo monarca para levá-lo como troféu à sua terra, Iolco.

Jasão cumpriu assim a missão quase impossível recebida de seu tio Pélias, cujo verdadeiro objetivo era usurpar o trono que por herança pertencia ao sobrinho, mas não lhe faltaram motivos para lamentar a união com Medéia. Durante a aventura empreendida a bordo do navio Argo (célere, em grego) com seus 49 companheiros, os argonautas, Jasão presenciou a ordem de Medéia de matar o jovem irmão dela, Absirto, esquartejar o corpo e jogar as partes no mar para impedir a perseguição movida por Eestes. De volta ao reino, soube que a mulher, feiticeira, dera um jeito de eliminar o tio cobiçoso. Por fim, dez anos depois, quando quis trocá-la pela jovem Gláucia, filha do rei de Corinto, descobriu que Medéia, louca de ciúme, assassinara os próprios dois filhos que ambos tiveram, e de quebra a rival e o pai dela.

Por uma dessas estranhas coincidências que acontecem na História e na vida, Ulysses Guimarães morreu no mar, no litoral entre São Paulo e Rio, quando o helicóptero em que viajava não resistiu à tempestade de uma tarde de outubro de 1992 e caiu. Todos os corpos dos mortos no acidente foram resgatados, entre eles os de sua mulher, Ida, e do ex-senador Severo Gomes, mas o de Ulysses nunca foi encontrado. Hoje, dia 12, completam-se 13 anos de sua morte.

"Navegar é preciso, viver não é preciso" – o lema também serviu de epitáfio ao grande político.



Escrito por Dom Quixote às 06h00
[ ] [ envie esta mensagem ]



Cassado mas aposentado

O presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo, assinou ontem o ato que confere uma aposentadoria vitalícia de cerca de 8.000 reais por mês ao ex-deputado Roberto Jefferson, cassado em setembro pelo plenário da casa.

Autor das principais denúncias que causaram a crise política atual, entre elas as da compra de alianças partidárias e do pagamento do Mensalão com uso de dinheiro do Caixa 2 a parlamentares do bloco situacionista pelo PT, Jefferson poderá merecer o beneplácito da opinião pública em relação à sua aposentadoria. Afinal, mesmo longe de ser personagem isento de culpa no episódio, há que se reconhecer que prestou um serviço à nação quando tornou inevitável um amplo processo de investigações, tamanha era a gravidade das acusações que fez.

Outra atenuante em seu caso é o fato de ele ter sido deputado federal por seis legislaturas consecutivas, perfazendo quase 22 anos de freqüência à Câmara. Nesse período, Jefferson contribuiu regularmente para os órgãos de previdência dos congressistas, tanto para o antigo, um instituto extinto por lei em 1997 e liquidado em 1999, quanto para o novo, constituído na forma de um fundo de pensão.

Se a aposentadoria de Jefferson pode ser mais bem-aceita, o mesmo não se aplica à de outros parlamentares que já renunciaram ao mandato ou que possam vir a renunciar ou ser cassados, no bojo da atual crise. Todos eles, independentemente das penalidades legais que possam sofrer por seus atos ao fim de eventuais e morosos processos na Justiça, têm direito a receber proventos vitalícios pagos pelo Senado (se o mandato for de senador) ou pela Câmara, por meio do órgão de previdência.

Afora os altos valores dos proventos, que resultam da divisão do salário da ativa dos deputados – atualmente de 12.847 reais por mês – por 35 e da multiplicação do resultado pelo número de anos de mandato exercidos, o que também indigna a opinião pública é a inexistência de um prazo mínimo para que os ex-parlamentares façam jus à aposentadoria proporcional.

Ao contrário do que acontece na previdência oficial para os trabalhadores do setor privado, que precisam mourejar pelo menos 30 anos para requerer 70% do benefício integral, deputados e senadores estão isentos dessa condicionalidade. Assim, um deputado por duas legislaturas, ou seja, 8 anos de trabalho, por exemplo, pode ir para casa e receber pelo resto da vida, mesmo que esteja longe da idade mínima para a aposentadoria requisitada dos trabalhadores comuns, cerca de 3.000 reais por mês – bem mais que o valor máximo pago a quem se aposenta pelo INSS após, no mínimo, 35 anos de contribuições.

Trata-se de um privilégio, mais um entre tantos que vigoram no país, tornando alguns cidadãos mais iguais que os outros. Cabe à sociedade dizer por quanto tempo mais tolerará a manutenção dessas iniqüidades resultantes do corporativismo.



Escrito por Dom Quixote às 04h54
[ ] [ envie esta mensagem ]



De ovelhas e políticos

O bispo de Barra, na Bahia, dom Luiz Flávio Cappio, tornado famoso há alguns dias com uma greve de fome em protesto contra o projeto de transposição das águas do rio São Francisco, disse ontem em Juazeiro, outra cidade baiana, que seu gesto não foi demagógico, nem teve conotação político-partidária. Afirmou ainda, segundo relato do repórter Fábio Guibu, da Agência Folha, que foi um "gesto de amor para ajudar o nosso presidente Lula a resgatar a sua dignidade e o seu compromisso com o seu povo, porque ele é nordestino". Em seguida, dirigindo-se ao presidente, acrescentou: "Lula, minha vida de militante foi vestindo sua camisa. Agora, espero que você vista a minha, que não é só minha, mas de milhões de nordestinos".

Falas de improviso costumam pecar pela falta de lógica, e o bispo pode ter sido vítima dessa circunstância. Talvez num texto escrito ele não dissesse que estava ajudando Lula a "resgatar a sua dignidade e o seu compromisso", porque só se resgata aquilo que se perdeu. Além disso, é impróprio dizer que o compromisso de Lula é com o povo nordestino, porque como presidente ele governa para todos os brasileiros. E há uma evidente contradição entre repelir a conotação político-partidária do gesto e mais adiante dizer que, como militante, vestiu a camisa do presidente.

Não é só uma questão de lógica semântica. Assim como um presidente deve governar para todos, independentemente de filiações ou simpatias partidárias, não cabe a um pastor de almas vestir a camisa de um político. Ao fazê-lo, ele se desqualifica para a missão de agregar todas as ovelhas desgarradas ao rebanho.



Escrito por Dom Quixote às 13h15
[ ] [ envie esta mensagem ]



Advérbio infeliz

A propósito da notícia de que o irmão mais velho do presidente Lula, Genival Inácio da Silva, o Vavá, montou um negócio de venda de facilidades a empresários valendo-se de seu parentesco com o primeiro mandatário do país, o líder do governo no Senado, Aloízio Mercadante, foi ontem à tribuna para recomendar moderação por parte de Vavá e outros familiares do presidente. E afirmou: "Nenhuma facilidade será obtida simplesmente por uma pessoa ter parentesco com um homem público, mesmo o presidente da República, sobretudo neste governo".

Não cabe reparo à iniciativa de Mercadante, tomada ao amparo da função que exerce no Senado. Mas o fecho que deu à sua afirmação foi, no mínimo, infeliz. Diante de tudo o que já se revelou pela imprensa e nas investigações das CPIs, acerca da corrupção que envolve o partido do governo, o PT, parlamentares da base de apoio e ainda funcionários de empresas estatais, em volume sem paralelo na história da República, dizer que a leniência não será tolerada "sobretudo" neste governo é zombar da opinião pública. Se o senador tivesse dito "inclusive", o advérbio poderia ser aceito em benefício da dúvida. "Sobretudo" é que, definitivamente, não é.  



Escrito por Dom Quixote às 12h00
[ ] [ envie esta mensagem ]



Apego à mentira

"Esbofeteia-se a verdade numa escala sem precedentes. Subestima-se a inteligência dos brasileiros."

 

(Carlos Alberto Di Franco, jornalista e professor de Ética da Comunicação)



Escrito por Dom Quixote às 11h56
[ ] [ envie esta mensagem ]



O feijão e o sonho

Mesmo que saia vitoriosa das eleições de ontem do PT a chapa do Campo Majoritário, encabeçada pelo candidato alinhado ao Planalto, o ex-ministro Ricardo Berzoini, o projeto de reeleição do presidente Lula continuará longe de navegar sob um céu de brigadeiro.

Em primeiro lugar, porque dificilmente as alas mais à esquerda do partido, que fecharam com o candidato Raul Pont, da Democracia Socialista, recolherão as armas diante do resultado das urnas, por conta de suas inconciliáveis divergências ideológicas em relação, sobretudo, à política econômica do governo. E em segundo, porque se o rachado PT não encontrar alternativa melhor mais adiante, e oferecer de novo a legenda a Lula, a candidatura presidencial deparará com uma oposição muito mais forte, engrossada por pequenos partidos que a apoiaram na eleição anterior e até por ex-correligionários que debandaram para outras agremiações de esquerda ou centro-esquerda. Assim, no primeiro turno, entre outras perdas Lula terá um tempo muito menor que o do conjunto de seus opositores na TV, o que constituirá um fator de peso na campanha eleitoral.

Pode ser que, mesmo enfrentando todas as dificuldades, a candidatura se torne de novo vitoriosa, mas aí os eleitores de Lula saberão de antemão que não podem contar com nenhuma mudança substantiva em relação ao quadro atual, tanto no que se refere à política econômica quanto à costura das alianças necessárias à governabilidade. Os acordos terão de ser fechados de novo, em sua quase totalidade, com os mesmos partidos de direita ou apenas oportunistas que hoje estão soterrados, junto com a bandeira vermelha do PT, sob uma montanha de denúncias.

Encontrar um meio-termo aceitável entre o discurso de esquerda e a prática conservadora em matéria econômica é desafio para titãs. E a conciliação plena entre discurso e prática, por meio da ruptura socialista, a esta altura soa mais como um sonho de noite de verão.

Para infelicidade das correntes de esquerda daqui e do mundo, a História mostra que todas as tentativas de substituir o capitalismo pelo planejamento centralizado malograram, e que os países que mais perto chegaram da utopia distributivista são, ironicamente, os que nunca se afastaram do modelo de acumulação de riquezas anatematizado por Marx e seus seguidores. Exemplos disso são as nações nórdicas da Europa e mesmo a China, com seu hibridismo de regime fechado e economia aberta. Não poucos analistas acreditam que, com o tempo, a liberdade dos meios de produção acabará por se estender também ao regime chinês.

Diante desses fatos da vida real, é o caso de perguntar se algum dia as correntes de esquerda do PT e o governo Lula conseguirão transpor o abismo que os separa. Como se trata de uma disputa ideológica, a questão só se resolverá quando Lula imprimir o viés reclamado em sua política econômica – claro, não sem antes ter aterrorizado o capitalismo externo e o tupiniquim, porque ele pode ser habilidoso mas não é milagreiro.



Escrito por Dom Quixote às 01h13
[ ] [ envie esta mensagem ]



Estranha explicação

No afã de desmentir a revista Veja, que na edição desta semana traz uma reportagem sobre o comércio de influência que estaria sendo praticado por Genival Inácio da Silva, o Vavá, irmão mais velho do presidente Lula, a Assessoria de Imprensa do Planalto emitiu um comunicado algo estapafúrdio. Diz a nota que Lula "nunca teve conhecimento da existência de suposto escritório do qual seu irmão participasse".

Como Veja publicou as fotos do escritório, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, com o poster de Vavá junto com sua assessora Cristina Caçapava e Lula, além de documentos manuscritos por ela que comprovam as atividades suspeitas, de duas uma: ou a Assessoria de Imprensa não soube redigir o comunicado, falhando grosseiramente em sua função, ou a revista sabe mais sobre o irmão dele do que o próprio Lula.

Qualquer que seja a conclusão correta, a imagem do presidente sai chamuscada. Se administrar bem qualquer empresa já implica escolher assessores competentes e coibir maracutaias, mesmo as lideradas por um parente próximo, mais ainda isso se torna necessário quando se trata de gerir um país.



Escrito por Dom Quixote às 20h10
[ ] [ envie esta mensagem ]



Mais maligno que a direita

"O PT conseguiu fazer mal muito maior para a esquerda no mundo do que a direita, em todos os tempos."

 

(Roberto Freire, presidente do PPS, partido constituído com o espólio do antigo PCB)


Escrito por Dom Quixote às 20h06
[ ] [ envie esta mensagem ]



Quer moleza? Escale o Everest

Segundo notícia divulgada pela agência EFE, o Departamento de Cartografia do governo chinês fez uma medição acurada e chegou à conclusão de que a altura do monte Everest é 3,7 metros menor do que se pensava.

Grande coisa: como o Everest, o pico mais alto do planeta, fica com 8.844,43 metros depois do desconto, o que ele perdeu com a medição dos cartógrafos chineses foi apenas 0,04%. Até a caderneta de poupança paga bem mais que isso todo mês, no Brasil.



Escrito por Dom Quixote às 00h17
[ ] [ envie esta mensagem ]



Mestre camarada

Professores de Português, pelo que me lembro dos tempos de escola, costumam ser mais severos e sisudos que outros. Havia um, no ginásio (chamava-se assim a segunda metade do ensino básico), que raramente dava nota maior que 5. E ai daquele aluno que não se levantasse à sua entrada na sala.

Nunca entendi direito a razão desse comportamento por vezes austero demais dos meus antigos mestres da língua. Talvez quisessem, com isso, dizer que o Português era uma matéria escolar mais importante que as outras, por se tratar do nosso idioma. Portanto, teríamos de aprendê-lo bem porque a tanto nos obrigávamos como brasileiros. Se não estou errado na interpretação, o ensino da língua se misturava ao de civismo.

O professor Pasquale Cipro Neto não se enquadra no paradigma. Sua afabilidade quase indulgente, mostrada em aparições na TV Cultura, nas colunas escritas para o UOL e em seus livros, não lembra em nada a postura de meus antigos mestres. E no entanto, ou talvez por isso mesmo, consegue ser extremamente eficiente no seu ofício de ensinar.

Creio que, com o seu estilo, Pasquale faz mais do que dar aulas de Português. Ele nos ensina também que, no cotidiano das relações com parentes, amigos, vizinhos e colegas, só temos a ganhar se a altaneria der lugar à lhaneza e ao companheirismo.

 

Bola preta 1 – Por falar em idioma e civismo, dou bola preta, como faria o saudoso colunista Ibrahim Sued, à decisão da Petrobrás de escrever seu nome sem acento. A maior empresa do país pode ter considerado que a mudança de grafia, feita já há alguns anos, facilitaria sua identificação no exterior. Mas em relação ao Brasil, a Petrobrás, um dos símbolos do orgulho nacional, pisou na bola. Seu nome sem acento pronuncia-se pe-TRÓ-bras, de acordo com as regras do vernáculo.

 

Bola preta 2 – O presidente Lula precisa ser avisado por sua assessoria, urgentemente, de que não deve mais falar "nesse país", ao se referir ao Brasil. O correto é "neste", já que ele está aqui, e não em outro lugar qualquer. Um presidente da República tem obrigação redobrada de cuidar do idioma pátrio.



Escrito por Dom Quixote às 23h23
[ ] [ envie esta mensagem ]



Rebelde sem causa

 

James Dean em Vidas Amargas, de Elia Kazan (1955)

 

No último dia 30, completaram-se 50 anos da morte de James Dean e nenhuma distribuidora cuidou de reexibir seus filmes, pelo menos não em grande circuito, nas principais cidades brasileiras. Foi pena, porque Dean é um mito, o mais duradouro do cinema.

Se vivo fosse, Jimmy, como era conhecido, estaria com 74 anos. Mas nenhum fã seu admitiria vê-lo careca ou com os cabelos brancos, enrugado, barrigudo, de bermudas e chinelos.

Até que ele tentou parecer um velho em Assim Caminha a Humanidade (Giant), sem muito sucesso. A maquiagem falhou, assim como em relação a outros atores, e o que acabou ficando na memória daquelas cenas da parte final do filme foi a voz lamurienta e impressionante de Jimmy, caído de bêbedo na mesa e clamando por Leslie (Elizabeth Taylor), seu amor impossível.

O Jimmy Dean que continua vivo na lembrança é o do Jett Rink jovem, balbuciando palavras na presença de Leslie e investindo feroz sobre o desafeto Jordan Benedict Jr. (Rock Hudson), o senhor do gado, em cujas terras ele, Jett, recebera um pequeno enclave e lá descobrira petróleo.

O Jimmy Dean que continua vivo é também o Cal Trask, o Caim de Vidas Amargas (East of Eden, baseado no romance de John Steinbeck), que disputava com o irmão Aron (Richard Davalos), o Abel da passagem bíblica, o amor do pai, Adam (Raymond Massey). E ainda o garoto-problema Jim Stark, de Juventude Transviada (Rebel Without a Cause), que também órfão do afeto do pai, Frank (Jim Backus), se entregava a rachas de carros, em louca dissipação.

Todos os três personagens que ele interpretou como protagonista, em sua curta carreira, tinham em comum essa profunda carência afetiva, ora produzida pela indiferença do pai, ora pela inatingível mulher amada. Na vida real sua história foi parecida, depois de perder a mãe aos sete anos.

Dá, assim, para entender por que Jimmy se tornou um ícone da juventude no mundo todo. Ninguém melhor do que ele personificou a insegurança, as dúvidas e as angústias que nós todos vivemos durante nosso rito de passagem para a idade adulta e, junto com elas, a frustração por não sermos aceitos como igual pelos mais velhos.

Depois de Jimmy vieram as drogas pesadas, o Vietnã, a Aids, e muito da inocência de 50 anos atrás se perdeu. Mas olhe no fundo dos olhos de qualquer garoto de 20 anos ou pouco mais e você verá que ali ainda existe esse inconfessado desejo de ser aceito, sem restrições nem censuras. Muitos de nós só nos sentimos suficientemente seguros quando os cabelos já encanecem e passamos a rir das ilusões da juventude. Jimmy não esperou pela idade do ceticismo. Partiu antes, a bordo de seu Porsche Spyder prateado.  



Escrito por Dom Quixote às 03h43
[ ] [ envie esta mensagem ]



O buraco é mais embaixo

Tanto na reunião do Palácio do Planalto, entre o presidente Lula e 66 deputados federais da bancada petista, quanto no debate entre os dois candidatos à presidência do partido, Ricardo Berzoini, do Campo Majoritário, e Raul Pont, da Democracia Socialista, que se enfrentam no segundo turno das eleições do PT neste domingo, o tema em evidência na sexta-feira foram os meios e modos usados na condução da política econômica.

No Planalto, as contestações à regência do ministro Antonio Palocci centraram-se nos juros e no superávit fiscal. Se ambos fossem menores, foi o argumento ouvido, o governo teria mais dinheiro para investir em setores como a infra-estrutura. Já no debate dos candidatos, enquanto Berzoini pregava a necessidade de o PT cerrar fileiras em torno da reeleição de Lula, para consolidar os avanços que teriam sido obtidos nas áreas econômica e social, o oposicionista Pont criticou com veemência a política econômica. "Sabemos que esse tipo de orientação (da política) não segue os interesses nem nacionais, nem populares", afirmou. "Não entendo como essa política ditada pelos neoliberais possa vir a ser aceita pelo partido ou pelo país."

Como o apaziguamento dos ânimos oposicionistas dentro do PT é fundamental para o seu projeto de reeleição, Lula certamente já teria mandado para a guilhotina seu ministro da Fazenda, e junto com ele o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, se as coisas fossem assim tão simples como querem Pont e outros defensores de uma política econômica menos conservadora. O problema é que elas não o são.

O juro básico da economia (a taxa Selic) hoje, de 19,5% ao ano, é quase um escândalo, realmente, não só por figurar entre os mais altos do mundo como também por cobrar um enorme preço na rolagem da dívida do governo. Indexador responsável por cerca de 56% da dívida mobiliária federal, que já chegava a 921 bilhões de reais em agosto, a Selic sozinha representa, à taxa atual, um custo anual da ordem de 100 bilhões na rolagem dos títulos do governo, o que é mais que o dobro dos 46,5 bilhões fixados como meta deste ano para o superávit primário (saldo positivo das contas do governo, incluídas as esferas federal, estadual e municipal, antes do pagamento dos juros da dívida).

Reduzir os juros no país, a começar da taxa básica, é portanto uma aspiração nacional, e não apenas da oposição petista. Mas fazer um grande corte na taxa Selic da noite para o dia seria uma loucura, ainda mais com o dólar tão desvalorizado como anda. As chamadas expectativas inflacionárias se exacerbariam, e haveria um convite à debandada do capital estrangeiro aplicado no país em títulos.

Tal situação levaria, forçosamente, a uma grande alta do dólar, acelerando ainda mais a saída de capitais e aumentando os custos da produção industrial e agrícola. Enfim, baixar os juros abruptamente seria o mesmo que jogar lenha na fogueira da inflação, a qual se mostra hoje tão comportada que registra até variações mensais negativas. A meta de alta para este ano, de 5,1%, parece assegurada, e o Banco Central já projeta uma taxa ainda menor, de 3,5%, para o ano que vem.

E se a inflação voltar a subir com força, todo o esforço feito até agora para conter os déficits do orçamento do governo iria por água abaixo, e mais uma vez se retardaria o início de um ciclo sustentável de crescimento da economia, porque a taxa geral de investimentos (formação bruta de capital) diminuiria, pela retração tanto dos agentes internos quanto dos externos.

Só se criam mais empregos e renda com crescimento. E crescimento, ao contrário do que acreditam alguns próceres do PT, depende de estabilidade, porque capitalista nenhum põe a mão no bolso para investir se tem diante de si um cenário sujeito a chuvas e trovoadas.



Escrito por Dom Quixote às 23h39
[ ] [ envie esta mensagem ]



Todos os defeitos e uma virtude

Em meio aos rumores de renúncia coletiva ao mandato dos seis deputados do PT acusados pelas CPIs dos Correios e do Mensalão, para escaparem da cassação e da perda de direitos políticos até 2015, o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio, enalteceu hoje, em entrevista no Rio, a coragem do deputado José Dirceu, que resolveu ir até o fim no processo por quebra de decoro parlamentar. "Meu arqui-adversário José Dirceu, que tem todos os defeitos mais aqueles que eu vejo nele e os outros não vêem, teve a coragem de não renunciar na hora em que podia", afirmou.

Dirceu, um dos sete deputados petistas acusados, está impedido de renunciar porque seu processo já está em andamento na Comissão de Ética da Câmara. O mesmo não ocorre com os outros seis, que são João Magno, o ex-presidente da casa João Paulo Cunha, José Mentor (ex-relator da CPI do Banestado, que terminou em pizza), Josias Gomes da Silva, Paulo Rocha e Professor Luizinho. 



Escrito por Dom Quixote às 21h15
[ ] [ envie esta mensagem ]



Esse aí sou eu

Dom Quixote arremete contra moinhos de vento (Gustave Doré, 1832-1883)

 



Escrito por Dom Quixote às 01h50
[ ] [ envie esta mensagem ]



Diga NÃO no plebiscito

 

Se o comércio de drogas fosse legal, você consumiria maconha ou cocaína? Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

É o mesmo caso do comércio de armas de fogo. Proibi-lo não resolve o problema da criminalidade.

Ao propor essa esdrúxula consulta, o governo está querendo é eximir-se da própria responsabilidade para com a segurança da população. Pior, está passando por cima do seu direito de cidadão de decidir livremente o que fazer para defender sua segurança e a de sua família.

Resista a essa invasão de privacidade pelo Estado. Diga NÃO à proposta de proibir o comércio de armas de fogo. Mesmo que nunca tenha tido, nem pense em comprar alguma.



Escrito por Dom Quixote às 01h41
[ ] [ envie esta mensagem ]



Verdade ou mentira?

Tsunami de 32 metros de altura, em foto que teria sido tirada na costa de Sumatra. Se for só uma montagem, é brincadeira de mau gosto.

 

 



Escrito por Dom Quixote às 00h56
[ ] [ envie esta mensagem ]



Lula critica FHC

Em Belo Horizonte, onde esteve ontem para participar de cerimônia de assinatura de convênios na área da saúde, o presidente Lula voltou a fazer um auto-elogio em matéria econômica e a criticar seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. 

No auto-elogio, afirmou que o momento é de "crescimento econômico, crescimento das exportações, das importações – sobretudo de bens de capital, demonstrando que as empresas brasileiras estão acreditando no seu próprio futuro -, crescimento da poupança interna, do crédito, da massa salarial, do emprego e de queda da inflação e do custo de vida", para em seguida arrematar: "Essa combinação nós não tínhamos há muitos e muitos anos no nosso país" (acima da média dos últimos 30, 40 anos, segundo declarou em outro trecho do discurso). 

Já na crítica a FHC, acusou o governo anterior de promover, em janeiro de 1999, uma desvalorização cambial que fez com que os agricultores "acordassem devendo mais". 

O que o presidente Lula se esqueceu de dizer é que ele não só não mexeu nas linhas mestras da política econômica herdada do antecessor como ainda as aprofundou, tanto é que em seu próprio partido, o PT, não poucos militantes e ex-militantes o acusam de traidor. 

A Lei de Responsabilidade Fiscal, criada na gestão FHC, é que produz os atuais superávits primários das contas do governo. 

A política de metas de inflação, lançada na gestão FHC como complemento da lei anterior, é que leva à atual queda no custo de vida, ainda que ao peso de juros considerados como dos maiores no mundo todo. 

O câmbio flutuante, adotado na gestão FHC, é que propicia a atual queda no valor do dólar, mesmo que, na partida (em janeiro de 1999), tenha provocado uma elevada desvalorização do real porque este estava inflado em relação à moeda americana. E por que estava inflado? Porque o câmbio servia de âncora para segurar a inflação interna, assim como acontece hoje, paradoxalmente, com o dólar desvalorizado. Mas Lula também se esqueceu de dizer que o câmbio flutuante foi adotado não para prejudicar os agricultores, mas porque era o único jeito de deter a sangria de divisas provocada por crises financeiras vindas do exterior – que foram três, além de gravíssimas, no governo FHC, enquanto o governo Lula não enfrentou nenhuma.

E, para completar, já que o PT a definiu como uma herança maldita dos tucanos, a dívida mobiliária (em títulos) do governo continua a crescer, pela simples razão de que os superávits primários, também inaugurados na gestão FHC, não são suficientes para cobrir o custo dos juros. 

Ao abordar as questões econômicas, Lula faria melhor se imitasse o exemplo de seu ministro Antonio Palocci, que nunca deixou de reconhecer que, na essência, a atual política representa uma continuação da praticada pelo governo anterior. Não fica bem para um presidente torcer os fatos em benefício próprio.



Escrito por Dom Quixote às 00h41
[ ] [ envie esta mensagem ]



Em defesa de Gérson

Diante de tudo o que já foi levantado no atual escândalo político e das sorrateiras tentativas de salvar o mandato dos parlamentares envolvidos, o público pode ser induzido à conclusão de que se trata, mais uma vez, do jeitinho brasileiro de obter a impunidade. Ou da aplicação da chamada Lei de Gérson.

Como já disse Noel Rosa ("Meus inimigos,/que hoje falam mal de mim,/vão dizer que nunca viram/pessoa tão boa assim"), é costume nosso reconhecer os méritos só após a morte daquele que os tem. Mas no caso da citada lei impõe-se uma correção em vida para isentar o personagem no qual ela se inspirou.

Gérson de Oliveira Nunes, o famoso "Canhotinha de Ouro", carioca de Niterói que no dia 1.o de novembro próximo completa 64 anos, desfilou seu imenso talento no Canto do Rio, onde foi revelado, em quatro grandes clubes - Flamengo, Botafogo, São Paulo e Fluminense – e na seleção brasileira, na qual foi decisivo, por exemplo, para faturarmos o caneco na Copa do Mundo de 70, no México.

A bordo da justa fama, um dia foi convidado a ser garoto-propaganda de uma marca de cigarros, Vila Rica. E ele, fumante inveterado, não se fez de rogado. Nos comerciais, batia o maço na testa, como a mostrar inteligência, e dizia que gostava de levar vantagem em tudo. Disso nasceu o que, popularmente, se conhece como a Lei de Gérson.

Mas o que Gérson dizia era que a vantagem daquele cigarro estava em ser barato e bom. E o que há de mau nisso? Que crime existe no fato de um consumidor querer um produto bom e barato? Talvez o fecho do texto, "levar vantagem em tudo", favorecesse outras ilações. Mas daí a colocar em suspeição o caráter do futebolista que fez a propaganda vai uma grande distância.

Por tudo o que o "Canhotinha de Ouro" fez pelo futebol brasileiro, está na hora de parar de falar em Lei de Gérson. É o mínimo que devemos a ele.



Escrito por Dom Quixote às 00h18
[ ] [ envie esta mensagem ]



Fidelidade partidária

O senador petista Delcídio Amaral, presidente da CPI dos Correios, disse à colunista Dora Kramer, do Estadão, estar convencido de que dentro de uns quatro meses vai aparecer, com toda a clareza, "o mapa da origem do dinheiro e das formas de operação dos recursos" do Caixa 2 e do Mensalão do PT. É por isso, explicou, que quer prorrogar por mais dois meses, além de dezembro, o prazo previsto para o encerramento dos trabalhos da CPI.

Curioso o caso desse senador, egresso do PSDB. Apesar do canto-de-sereia de que terá o apoio do Planalto em sua candidatura ao governo do Mato Grosso do Sul, em substituição ao atual governador, Zeca do PT, ao que parece ele se mantém fiel mais à sua missão como presidente da CPI, circunstancialmente, do que a seu partido ou a seus correligionários.

Não deve ter sido uma escolha fácil. Mas ao optar por preservar a instituição que representa, mesmo sabendo dos riscos para seus projetos pessoais, Delcídio enobreceu o cargo e a classe política.



Escrito por Dom Quixote às 00h16
[ ] [ envie esta mensagem ]



Pizza, não

Um grupo de cerca de 120 deputados autodenominado Pró-Congresso lançou a campanha "Pizza, não". O grupo se reuniu na quarta-feira em frente à mesa da Câmara, em sessão presidida por Aldo Rebelo, empunhando cartazes que pedem investigação e punição aos parlamentares envolvidos no escândalo do Mensalão.

Oxalá mais deputados, e também senadores, engrossem o movimento. Nunca é demais trabalhar pela melhora de imagem do Congresso, principalmente num momento como este. Faz bem à democracia.

 



Escrito por Dom Quixote às 00h14
[ ] [ envie esta mensagem ]



Quem está embaçando?

Além do presidente Lula, o deputado cassável José Dirceu e o presidente interino do PT, Tarso Genro, acusaram as CPIs em curso de perda de foco e desvio das finalidades originais. Pode-se recomendar aos três que tomem algum remédio contra amnésia.

Quem é que, desde o início, procurou melar a apuração das denúncias de Caixa 2 e Mensalão, feitas pelo ex-deputado Roberto Jefferson? Não foi o governo do presidente Lula, apoiado pelos partidos da situação, ao primeiro tentar impedir e, depois, em manobra claramente divisionista, cuidar para que fossem criadas duas CPIs com superposição de funções?

Quem, a não ser a tropa de choque do PT e de outros partidos envolvidos no escândalo, liderada pela senadora Ideli Salvatti, de Santa Catarina, hoje procura por todos os meios obstar e retardar o andamento dos trabalhos das CPIs, que a esta altura já são três? Ou desviar o foco do escândalo atual para vagas denúncias feitas sete, oito anos atrás?

Como diria o ex-cacique deputado Mário Juruna, na recriação do comediante Agildo Ribeiro, perguntar não ofende.



Escrito por Dom Quixote às 00h10
[ ] [ envie esta mensagem ]



Quem não deve, não teme

A deputada Raquel Teixeira, do PSDB de Goiás, não aceitou que sua acareação com o líder do PL, deputado Sandro Mabel, do mesmo estado, seja feita em sessão secreta do Conselho de Ética da Câmara. Raquel acusou Mabel de lhe oferecer dinheiro para que trocasse de partido, e depois Mabel desmentiu Raquel. Agora, Raquel diz que quer uma acareação ao vivo e em cores para todo o Brasil com Mabel. Quem está falando a verdade?



Escrito por Dom Quixote às 23h48
[ ] [ envie esta mensagem ]



A democracia e o PT

 

A brava gente do PT nunca entendeu que a democracia é um regime que privilegia os meios em detrimento dos fins. Nenhum fim é lícito se os meios para obtê-lo não forem lícitos também. O princípio fundamental e primeiro do regime democrático é aquele que reza que "a Justiça só é justa quando alcançada por meios justos".

 

(João Mellão Neto, jornalista que já foi deputado federal, secretário de Estado e ministro)


Escrito por Dom Quixote às 23h37
[ ] [ envie esta mensagem ]



A mulher, segundo Desmond Morris

 

Saiu no La Vanguardia, jornal espanhol. Desmond Morris, 74 anos, o famoso zoólogo, autor de "O Macaco Nu", fala das mulheres. Eis o que ele disse para o repórter do jornal, Lluis Amiguet, em Barcelona:

 

Morris - Muitas mulheres ainda desconhecem seu enorme potencial sensorial. Sabe que as mães são capazes de reconhecer seu bebê de olhos vendados, só pelo choro, e que distinguem os batimentos do coração de seu filho entre centenas? Comprovamos isso empiricamente, e é espetacular.

LV - O que o senhor mais inveja nas mulheres?

Morris -
Sua capacidade de percepção: o mundo sensorial das fêmeas humanas é muito mais rico que o dos machos: elas percebem melhor as cores e a gama cromática, têm um ouvido mais agudo, olfato e paladar mais refinados.

LV - E não acha isso injusto?

Morris -
É natural. Elas cuidaram de coletar as frutas enquanto nós caçávamos. Nós podemos correr mais depressa.

LV - O senhor não inveja nada nelas?

Morris -
Invejo sua sensualidade: não só porque sua capacidade de gozar no orgasmo é muito superior à nossa...

LV - Sim...

Morris -
... mas porque essa sensualidade não é só uma extensão de sua capacidade reprodutiva, mas conseqüência de sua maior inteligência emocional. Entre os humanos, foram as mulheres que passaram de copular a fazer amor, e assim estabeleceram vínculos de uma riqueza e sofisticação tais que concederam uma enorme vantagem evolutiva à nossa espécie sobre os outros primatas. Como você deve saber, as mulheres têm quatro zonas erógenas...

LV - Eu me conformaria em encontrar uma.

Morris -
Se eu aos 18 anos soubesse tudo o que descobri em uma vida de estudos!...

LV - Ânimo, ainda somos jovens!

Morris -
Em suma, elas experimentam com maior profundidade percepções, sensações e sentimentos. Vivem mais. Imitar os homens, como propunham algumas tendências feministas errôneas, é retroceder.

 

(Transcrito de tradução publicada no UOL)



Escrito por Dom Quixote às 23h34
[ ] [ envie esta mensagem ]



Diga NÃO no plebiscito

 

Defensa os seus direitos.

Mesmo que nunca tenha tido uma arma,

diga não à proibição do comércio no país.



Escrito por Dom Quixote às 23h22
[ ] [ envie esta mensagem ]




[ ver mensagens anteriores ]