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Companhias aéreas apóiam JK (Arquivo CPDOC, Fundação Getúlio Vargas)
Aula histórica
Minha amiga Mara Luquet, brilhante jornalista de Finanças, colunista do jornal Valor e com um programa diário na rádio CBN, em São Paulo, começou outro dia a fazer seu blog. Por ocupar-se principalmente do assunto investimentos pessoais, em sua área de especialização jornalística, Mara sentiu a necessidade de abrir um canal de comunicação direta com seus leitores, muitos dos quais lhe encaminham e-mails e cartas de consulta.
Seu blog, contudo, vem assumindo rapidamente uma feição mais ampla, multifacetada, como não poderia deixar de ocorrer em face das inquietações intelectuais da autora. A página já reúne características que a tornam um espaço diferenciado da blogosfera, pela inteligência na seleção de notícias.
Alguém, por exemplo, já pensou que o simples fato de freqüentar uma igreja com assiduidade poderia aumentar sua renda em cerca de 10%? Pois Mara diz que há um estudo acadêmico, feito por um professor do MIT americano a comprovar essa tese surpreendente.
Outra: quem sabia que o ex-presidente Juscelino Kubitschek, o Presidente Bossa Nova, o Nonô das músicas de Juca Chaves, que lhe satirizava o gosto por viagens de avião, o responsável pela instalação da indústria automobilística no Brasil e por anos de crescimento e otimismo com o futuro no país fosse também, além de médico, escritor e estadista, um profundo conhecedor do mercado de capitais? Melhor ainda: quem poderia imaginar-se ouvindo uma palestra dada por JK sobre esse assunto, bem no dia de hoje?
Pois isso é possível. Clique aqui para ir até o blog da Mara Luquet. Uma vez lá, procure a nota postada com a foto acima (um lobby das companhias de aviação da época) e acione o link indicado. E ouça uma aula histórica de mercado de capitais, dada por JK em 1971 para uma platéia formada por executivos do Banco Denasa, uma das instituições que deram origem ao Unibanco.
Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 21h08
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Matéria jornalística =
nada
A CPI dos Bingos, rebatizada de 'CPI do Fim do Mundo' por membros do governo e
apaniguados que a criticam por querer investigar tudo e a todos, foi impedida
ontem pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, STF, Nelson Jobim, de quebrar
os sigilos bancário, fiscal e telefônico de Paulo Okamotto, presidente do Sebrae
e amigo pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Okamotto é aquela
figura simpática, tão simpática, que declarou ter quitado com dinheiro do
próprio bolso uma dívida do presidente com o seu partido, o PT, só para poupar o
amigo do pequeno aborrecimento – de cerca de 30.000 reais, diga-se de passagem.
Até aí, poderia não haver nada demais. O problema é que ele diz não se lembrar
de quem, no PT, aceitou essa oferta e resolveu apagar o registro da dívida na
contabilidade do partido. Também alega não ter comprovante dos pagamentos
feitos.
Ao conceder a liminar pedida pelos advogados de Okamotto, Jobim ressalta em seu
despacho, de acordo com a assessoria de imprensa do STF, que o pedido de acesso
da CPI aos dados do presidente do Sebrae "fundamenta-se em notícias veiculadas
em matérias jornalísticas, sem sequer indicar um fato concreto que delimite o
período de abrangência dessa medida extraordinária". E, para não deixar dúvida,
enfatiza: "Esta corte veda a quebra de sigilos bancário e fiscal com base em
matéria jornalística".
Ah, bom. Quer dizer, ministro Jobim, eminente presidente da mais
alta corte de justiça do país, que informação jornalística e nada são a mesma
coisa? Que apreço o senhor revela, com essa atitude, à defesa da liberdade de
imprensa prescrita na Constituição, a lei maior que ao STF compete zelar acima
de tudo?
Talvez seja, data venia, mais uma daquelas decisões pretensamente
jurídicas baseadas na inexistência de confissão escrita e assinada em cartório
como prova necessária para caracterizar a existência do delito e do delinqüente.
Esperamos, senhor ministro, estar enganados, por culpa de nossa imensa
ignorância como jornalistas, nas dúvidas que porventura cultivemos a respeito de
seu incomensurável saber jurídico e de sua irrepreensível postura ética como
presidente do egrégio tribunal, para o bem do nosso país.
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 23h50
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Os números e os fatos - 1
A notícia dada hoje pelo Banco Central, de que o governo em seus três níveis
(federal, estaduais e municipais) gerou um superávit primário de 4,84% do PIB no
ano passado, superando a meta oficial de 4,25%, deverá ser recebida com uma
enxurrada de críticas. Afinal, para que exagerar na economia orçamentária para
pagar os juros da dívida, se o país está tão carente de investimentos?, pode-se
argumentar. E mais: se os 10,7 bilhões de reais poupados em excesso tivessem
sido aplicados na economia no ano passado, ao invés de estar congelados nos
cofres públicos, o Brasil não teria crescido mais do que os medíocres 2,5%
estimados para o PIB, figurando com isso na rabeira dos países em
desenvolvimento? Não haveria mais produção e empregos, mais renda e consumo?
Para piorar, o BC ainda divulgou que o pagamento dos juros alcançou o recorde de
157,1 bilhões de reais em 2005 e, mesmo assim, a dívida pública líquida chegou
pela primeira vez à casa de 1 trilhão de reais: fechou dezembro em 1,002
trilhão. Dá para imaginar o coro de protestos que essas notícias já devem estar
levantando, tendo como alvo principal os altos juros praticados pela gestão de
Henrique Meirelles, no Banco Central, como complemento à política de geração de
superávits primários conduzida pelo ministro Antonio Palocci, da
Fazenda.
O maior problema dessas críticas está no seu simplismo, quase sempre um atalho
para conclusões equivocadas. É possível que a dupla Palocci-Meirelles tenha
errado a mão na calibragem do juro básico, não reduzindo a taxa Selic de forma
mais acelerada no ano passado. Mas desse tipo de avaliação nem o todo-poderoso
Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve Bureau, Fed, o banco central
americano, escapa. Nesta terça, Greenspan preside sua última reunião do Fomc -
órgão análogo ao Copom brasileiro -, o comitê do Fed encarregado de fixar o juro
básico nos Estados Unidos. A taxa anual está hoje em 4,25%, e a maioria dos
analistas aposta que subirá para 4,50%, porque apesar da desaceleração da
economia os preços dão sinais de alta. Em qualquer país civilizado, o controle
da inflação constitui a principal obrigação de um banco central. Terminada a
reunião, Greenspan vai para casa, aposentado, depois de presidir o Fed por mais
de 18 anos com inteira autonomia. Seu lugar será assumido no dia seguinte por
Ben Bernanke.
Em reação às críticas sobre os juros no Brasil, Meirelles disse ontem em Davos,
Suíça, onde participa do Fórum Econômico Mundial, que o exemplo a ser seguido
pelo país não é a China ou a Índia, como alguns economistas e seu próprio colega
de governo, o ministro Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, insinuaram
durante o encontro, mas sim o Chile. Lá, observou, foram feitas as necessárias
reformas estruturais e nos últimos vinte anos os governantes vêm mantendo uma
política fiscal de extrema austeridade. Os resultados surgem agora: com uma
dívida pública quase zerada, até porque a previdência social foi privatizada, os
chilenos se beneficiam de uma baixíssima taxa de juro em comparação com a
brasileira, e sua economia também cresce muito mais do que a
nossa.
Ou seja, o que Meirelles disse, e não dá para contestar, é que a política monetária
executada por um banco central ajuda a economia só na medida em que, mantendo a
inflação sob controle, permite criar o ambiente de estabilidade necessário à
retomada dos investimentos privados, o grande motor do crescimento.
Não é função do BC brasileiro, nem de qualquer outro, colocar fermento na taxa do
PIB. Quem tem de fazer isso é o restante do governo, coisa que está longe de
acontecer no país. Nenhuma reforma de profundidade foi feita no governo Lula, a
previdência saiu de um superávit de 38 bilhões de reais para um rombo de valor
semelhante no ano passado (considerado o saldo previdenciário, que inclui
receitas e despesas geradas por demanda judicial), não se investiu em
infra-estrutura, não se combateu a burocracia que emperra os negócios,
politizou-se o papel das agências reguladoras, o projeto das parcerias
público-privadas, PPP, não saiu do papel, e por aí afora.
(Continua
na nota abaixo, porque o número de caracteres admitido no blog foi
excedido)
Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 22h02
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Os números e os fatos – 2
Todo o apregoado sucesso do governo Lula na frente econômica se baseia tão-somente na
melhora de alguns fundamentos, como a redução da inflação e a estabilização da
relação entre a dívida líquida e o PIB, propiciada justamente pela política de
juros altos e de geração de superávits primários que tanto se condena. É por
tornar mais remota a possibilidade de um calote na dívida que essa política
produz reflexos imediatos na redução do risco país e na cotação do dólar, como
se tem visto nos últimos meses.
Mas isso é muito pouco, um quase nada, em termos da criação de um ambiente favorável
aos negócios. A prova está no pífio crescimento econômico do país, na baixa taxa
de formação bruta de capital fixo (total dos investimentos na economia como
porcentagem do PIB) e na retração dos investimentos diretos estrangeiros, hoje
reduzidos a pouco mais de um terço da média de ingresso nos últimos anos do
governo Fernando Henrique – em boa parte obtida pelas privatizações, que o PT
quer transformar em crime de lesa-pátria. No triênio 2000-2002, a média líquida
anual foi de 23,1 bilhões de dólares. No mesmo período seguinte, sob a égide do
governo Lula, ela caiu quase 60%, para apenas 9,8 bilhões. Falar de
desenvolvimento sustentável em tal quadro, e com esse tipo de mentalidade, é uma
piada.
Quem critica supostos excessos nos cortes orçamentários feitos para pagar os juros da
dívida precisa saber também que no ano passado não houve sobra nenhuma de
dinheiro no setor público. Pelo contrário, gastou-se tudo e um bocado mais,
porque em termos nominais, ou seja, somados os juros pagos, o orçamento do
Tesouro revelou no ano passado um déficit de 63,6 bilhões de reais. Isso
equivaleu a 3,29% do PIB, bem mais do que os 2,67% registrados em
2004.
Em outras palavras, como a ministra Dilma Rousseff fez crer, não é a avareza do
ministro Palocci que impede o governo de gastar o que quer, mas a falta de
recursos. E estes faltam porque o governo torra dinheiro de forma irresponsável
em despesas de custeio. Mesmo aumentando a arrecadação de impostos para
escandalosos 38% do PIB no ano passado, o resultado final foi esse déficit do
Tesouro porque, entre outras coisas, de acordo com uma estimativa feita com
números acumulados até novembro, os gastos com pessoal e encargos sociais
subiram 13,1%. Nos três anos iniciais do governo Lula, o custo dessa rubrica
aumentou 37%. Assim, se forem somados os crescimentos, nesses três anos, de
despesas essenciais como a transferência constitucional a estados e municípios
(49,3%), os encargos da dívida mobiliária (76,7%) e os benefícios
previdenciários (58,0%), não há mesmo carga tributária que resolva.
É como num orçamento doméstico. Se há uma dívida a ser paga, pelo financiamento da
casa própria, pela compra do automóvel novo ou pelo curso que se paga a um
filho, e o orçamento está estourado, um chefe de família responsável corta as
despesas menos essenciais, porque, caso contrário, seu nome fica sujo na praça.
O governo se coloca acima dos serviços de proteção ao crédito, porque pode
emitir dinheiro e aumentar impostos. Mas moralmente está obrigado a agir como o
chefe de família. Caso contrário, seu nome também fica sujo diante da
população.
Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 21h57
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Seu nome é Assis
Quinta-feira passada, ainda ao sol das 17 horas, o deputado federal Vanderlei Assis (PP-SP) chegava a sua casa em Brasília, para o descanso semanal. "Hoje vou ficar relax em casa com a família e amanhã vou a São Paulo para percorrer os municípios, conversar com os prefeitos. Esse é o trabalho de um deputado", justificou Assis sobre sua rotina às repórteres Juliana Rocha e Mariana Santos, do Jornal do Brasil, que o entrevistaram à porta de sua residência. A casa tem três andares e, segundo vizinhos, além de amplas acomodações, incluindo quatro quartos, é equipada com piscina e salão de jogos.
Assis recebeu 2.134 reais por dia de trabalho neste mês de janeiro, graças ao salário dobrado pela convocação extraordinária, de cerca de 25.600 reais. O cálculo leva em conta o fato de ele só dar as caras no prédio do Congresso três dias por semana, às terças, quartas e quintas-feiras. Mesmo assim, faz questão de não devolver um centavo, seja do salário extra recebido pela convocação no recesso, seja da ajuda de custo de 15.000 reais a que ainda tem direito, para cobrir despesas com combustível e hospedagem, entre outras mordomias. É pródigo em apresentar notas fiscais para garantir o reembolso. Em alguns meses do ano passado, segundo a reportagem, só de combustível juntou comprovantes que somavam 20.000 reais.
Assis foi eleito em 2002 com apenas 275 votos pelo Prona, valendo-se de um absurdo dispositivo da legislação eleitoral brasileira, que redistribui a ocupação de assentos na Câmara dos Deputados de acordo com a soma de votos do partido, e não daqueles dados ao próprio candidato. Ele entrou de carona no 1,5 milhão de votos obtidos pelo presidente do Prona, Enéas Carneiro, aquele político que só emerge do anonimato durante as campanhas e repete um único bordão: "Meu nome é Enéas". Logo no primeiro ano de mandato, Assis, carioca que se mudou para São Paulo durante a campanha passada para atender a suas conveniências eleitorais, abandonou o líder que lhe abriu o caminho para a Câmara. Trocou o Prona pelo PP.
Quem quiser ler um pouco mais sobre esse triste retrato da realidade política brasileira, pode fazê-lo clicando aqui.
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 01h47
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Problemas brasileiros
Norman Gall, fundador e diretor executivo do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, com sede em São Paulo, é um americano apaixonado pelo Brasil a ponto de naturalizar-se brasileiro. Nascido no Brooklyn, Nova York, em 1933, tornou-se jornalista e escolheu a América Latina como foco de seu interesse. Morou alguns anos em Porto Rico e depois na Venezuela, antes de vir para o Brasil, em 1977, e por aqui ficar desde então. Profundo estudioso do país, edita no instituto um jornal bimestral em inglês e português, o Braudel Papers, no qual disseca assuntos que vão de estratégias de governo à violência urbana, sem esquecer das mudanças em curso no cenário latino-americano e mundial em política e economia.
O Instituto Fernand Braudel, por ele criado em 1987, tem esse nome para homenagear o historiador econômico francês que morou no Brasil entre 1935 e 1938 e foi um dos fundadores da Universidade de São Paulo, USP. Patrocinado por um grupo de 40 empresas privadas, além de apoiado por organizações como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, PNUD, e as fundações americanas Ford e Tinker, entre outras atividades o instituto organiza seminários internacionais de grande prestígio, nos quais conta com a presença de ex-chefes de governo como o espanhol Felipe González. Vale, portanto, prestar atenção no que diz Norman Gall, também ex-consultor do Banco Mundial e das Nações Unidas, a respeito de algumas questões brasileiras atuais, em entrevista ao jornalista Roberto Pompeu de Toledo, na revista Veja desta semana:
1. Legislação trabalhista: sua rigidez impede a criação de mais empregos.
2. Previdência: gasta-se mal e em excesso. O Brasil gasta duas vezes mais com a previdência pública do que com a educação. Na Coréia do Sul, as aposentadorias custam apenas um quarto do que se investe em educação. Resultado: a Coréia do Sul, que 40 anos atrás era muito mais pobre que o Brasil, hoje é muito mais rica. No Brasil, 61% dos gastos com aposentadoria vão para os 20% mais ricos da população. Nos Estados Unidos, a parcela destinada aos mais ricos é de apenas 26%. Além disso, 40% dos gastos da previdência, no Brasil, vão para aposentados e pensionistas do setor público, embora estes representam menos de 12% dos beneficiários, 3 milhões num total de 26 milhões.
3. Escolaridade: a média dos brasileiros mais pobres é de 3,4 anos. A dos 20% mais ricos, de 10,3 anos. Ambas são chocantes, afirma Gall, mas mais a segunda. "Uma elite com tão pouca instrução não será capaz de operar uma sociedade complexa."
4. O papel dos agentes privados: nos EUA, militares aposentados e empresários se encarregam de administrar escolas públicas, para suprir as falhas do governo. No Brasil isso não acontece. Aqui, segundo Gall, "as elites falam muito dos problemas, mas não oferecem soluções".
5. Políticos e corrupção: há poder demais nas mãos dos políticos e responsabilidade de menos, favorecendo a impunidade. Para combater esse problema, Gall sugere que ministros nomeados pelo presidente sejam aprovados pelo Senado, o sistema das CPIs passe por uma profunda revisão e se torne obrigatória a todos os candidatos e partidos políticos a prestação de contas pela internet.
A última dessas sugestões já foi adotada parcialmente pelo Tribunal Superior Eleitoral, TSE, ao dispor que os partidos deverão tornar públicas as contas de campanha, a partir das eleições deste ano. Mas isso ainda é muito pouco, diante do tamanho dos problemas brasileiros apontados por Gall.
Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 23h43
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O poder dos blogs
A edição que está nas bancas da revista Exame, da Editora Abril, traz como reportagem de capa um instigante texto sobre os efeitos da blogosfera na vida das empresas. Eis alguns dos números citados na reportagem, assinada por Camila Guimarães, para mostrar o poder adquirido pelos blogs como meio de difusão de idéias, opiniões e informações de modo geral (as fontes mencionadas são o serviço americano de acompanhamento Technorati e, no Brasil, o Ibope/NetRatings):
1. Existem 34 milhões de blogs em todo o mundo.
2. A cada dia, 70.000 novos blogs são criados.
3. A cada minuto, 500 novas mensagens são publicadas.
4. A audiência já passa de 50 milhões de pessoas, ou 11% dos internautas do planeta.
5. No Brasil, 37% dos internautas lêem blogs regularmente.
6. Os brasileiros passam 20% do seu tempo de navegação visitando blogs e comunidades virtuais.
No universo dos blogs, diz a reportagem, "mães falam do bebê recém-nascido, estudantes reclamam dos professores, aspirantes a escritor publicam poesias, prostitutas relatam sua rotina e, por que não?, presidentes de empresas falam de negócios". E cita um exemplo: Jonathan Schwartz, presidente da Sun, fabricante de computadores, que mantém um blog há um ano e meio. "Como o e-mail, o blog não vai ser uma questão de escolha. Todos os líderes serão obrigados a ter um", diz o executivo americano, entrevistado pela revista. "Acredito que em dez anos os presidentes vão se comunicar diretamente com clientes, funcionários e parceiros. Porque, se você não participar da conversa, outros falarão no seu lugar."
Schwartz, a julgar por um outro exemplo citado na reportagem, apenas se rende a uma realidade cada vez mais evidente, a da nova correlação de forças entre empresas e consumidores que começa a ser estabelecida graças aos blogs e comunidades virtuais. "Em seu site pessoal, o blog BuzzMachine", narra a revista, a respeito da iniciativa tomada pelo consumidor americano Jeff Jarvis, depois de reclamar de seu computador Dell e não ser atendido pela empresa fabricante, "ele começou um relato detalhado do seu calvário, sob o sugestivo nome de Dell Hell (inferno da Dell). Outros blogueiros leram, encheram os espaços de comentários com relatos semelhantes e começaram a espalhar a história do Dell Hell pelos quatro cantos da internet. O blog de Jarvis rapidamente se tornou uma parada obrigatória para consumidores insatisfeitos com a empresa, maior fabricante de computadores do mundo. O zunzunzum na blogosfera tornou-se tão intenso que o assunto virou notícia nas páginas de jornais como o New York Times, Washington Post e Wall Street Journal. Hoje, seis meses depois da primeira mensagem de Jarvis, quem procurar Dell Hell no Google vai encontrar mais de 7 milhões de resultados. O que começou como uma reclamação de um único consumidor se transformou em uma discussão nacional sobre a qualidade dos serviços da Dell."
A íntegra da reportagem, intitulada na capa "Blogs – Sua empresa está nua" e nas páginas internas, "Os blogs vão mudar seus negócios", pode ser lida por assinantes do UOL clicando-se aqui.
Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 06h28
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Lapsos de memória
Foi aquela saia justa, pelo menos num primeiro momento. Na cerimônia de inauguração do Memorial do Corinthians, realizada ontem à tarde no Parque São Jorge, em São Paulo, os três principais candidatos à Presidência da República nas próximas eleições, de acordo com as últimas pesquisas, estiveram lado a lado: o prefeito José Serra e o governador Geraldo Alckmin, ambos do PSDB, e o presidente Lula. Além de adversários políticos – definição que cabe também aos dois tucanos, rivais na indicação pelo partido -, os três torcem para clubes diferentes. Lula, convidado de honra da festa de ontem, é corintiano. Serra, palmeirense. E Alckmin, santista. Os dois primeiros são torcedores fervorosos. O presidente não perde ocasião de manifestar sua paixão futebolística. E Serra chegou a trocar impropérios em público com o técnico pentacampeão mundial pelo Brasil, Luiz Felipe Scolari, em 2000, quando este dirigia o seu Palmeiras.
Para atenuar o constrangimento que poderia ser provocado pela proximidade física, o cerimonial da festa tratou de intercalar terceiras pessoas, quando se sentaram à mesa. Entre Lula e Alckmin ficou o presidente do Corinthians, Alberto Dualib. E entre Lula e Serra, o ministro dos Esportes, Agnelo Queiroz. De toda forma, os três já tinham quebrado o gelo quando se encontraram na sala reservada às autoridades. Após os cumprimentos de praxe, segundo contaram outras pessoas presentes na sala, deixaram as diferenças políticas de lado para conversar sobre futebol.
Em seu discurso, o presidente destacou o projeto de criação de mais uma loteria, a Timemania, como um dos feitos do auxiliar Queiroz. Claro: ele sabia estar falando para a platéia certa. Como clube de numerosa torcida e campeão de arrecadações, o Corinthians deverá receber generosa fatia dos recursos gerados pelas apostas, se o projeto vingar. Mas, para não perder o costume, Lula cometeu uma gafe séria para tal ambiente. Referiu-se ao futebol brasileiro como tetracampeão, subtraindo um título mundial da coleção.
Só não foi o pior momento da festa porque o presidente do Corinthians não quis ficar atrás. Na hora de entregar as placas comemorativas aos três políticos, Dualib teve um lapso de memória: não conseguiu lembrar-se do nome de Alckmin.
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 04h31
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O robô Hello Kitty recepcionista
Tempos modernos
O avanço da robótica torna cada vez mais próximo um futuro em que as máquinas, além de facilitar o trabalho humano, compartilharão tarefas que hoje são realizadas apenas por pessoas de carne e osso. No setor produtivo, os robôs já são largamente utilizados, por exemplo, pela indústria automobilística, em cujas linhas de montagem soldam ou colam peças de carroçaria.
Com o desenvolvimento da tecnologia de inteligência artificial, uma nova geração dessas máquinas agora se candidata a, como os humanos, sair do inóspito chão de fábrica para ocupar cargos de colarinho branco. No Japão, segundo notícia divulgada ontem por agências internacionais, uma empresa de recrutamento de mão-de-obra, chamada PeopleStaff, da cidade de Nagoya, está oferecendo o aluguel de um robô tipo Hello Kitty para o cargo de recepcionista.
Acionado por seus sensores, ele identifica a aproximação do visitante, cumprimenta-o e ainda pode manter uma conversação rápida, enfim, praticamente tudo que se espera de humanos nessa atividade. Está longe de ter a boa aparência das jovens mulheres que normalmente são recrutadas para o cargo, mas em compensação seu aluguel sai por apenas 50.000 ienes mensais (cerca de 430 dólares), o que no Japão significa uma fração do salário pago às funcionárias humanas contratadas para a mesma função. Além disso, não falta ao trabalho por problemas pessoais, não muda de humor diante de dificuldades nem pede aumento de salário.
Se a moda pega, alguns milhões de empregos pelo mundo correm sério risco. As recepcionistas brasileiras, contudo, não têm por que se preocupar, pelo menos por enquanto. Seus salários ainda são competitivos em relação ao aluguel que as empresas pagariam por um robô.
Categoria: Outros assuntos
Escrito por Dom Quixote às 01h39
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Cabeça a prêmio
O jornalista Josias de Souza publica hoje em seu blog (link ao lado) o conteúdo, digamos, assaz interessante de uma conversa de cocheira entre o ex-deputado José Dirceu e o presidente Lula, que teria ocorrido há uma semana na Granja do Torto. Segundo a nota, num jantar a sós entre os dois – Dirceu voou de São Paulo a Brasília especialmente para o encontro, convidado por Lula, antes de embarcar para a Venezuela, onde participa do Fórum Social Mundial -, o deputado cassado teria recomendado a demissão do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Isso seria, a seu ver, "uma maneira de deixar claro para a sociedade que o governo promoverá neste ano eleitoral de 2006 um vigoroso crescimento da economia".
Os juros, teria ponderado Dirceu a Lula, transformaram-se numa "espécie de fetiche nacional", com Meirelles representando no imaginário popular "o grande vilão dos juros altos". Daí o conselho de mandá-lo para a guilhotina, aproveitando a reforma ministerial que o presidente deverá fazer no próximo mês. Aos íntimos a quem depois confidenciou a conversa, Dirceu disse que Lula concordou com a necessidade de passar para a população uma imagem mais desenvolvimentista do governo. Mas ele evitou responder – ou o ex-deputado não quis contar o que ouviu – à sugestão de demitir Meirelles.
É aguardar para ver o que acontece. Mesmo que não seja guilhotinado, o presidente do BC há tempos já vem servindo de saco de pancada dentro do governo, para poupar das críticas o chefe supremo, Lula. Afinal, como o Banco Central nunca teve sua autonomia institucionalizada no Brasil, quem manda de fato na política econômica, inclusive nos juros, é o presidente da República.
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 03h40
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Miudeza de varejão
Em outra demonstração de pequenez política, sobrepondo interesses partidários aos do país, a Câmara dos Deputados aprovou na noite passada, em primeiro turno, o fim da regra de verticalização nas coligações eleitorais. Por 343 votos a 143, e uma abstenção, passou a proposta de emenda à Constituição, PEC, originária do Senado, que acaba com a obrigatoriedade dos partidos de repetirem em nível regional as alianças feitas no plano nacional.
Com isso, caso a proposta seja aprovada também em segundo turno, agremiações adversárias nas próximas eleições para presidente da República poderão estar coligadas nas de governadores, e vice-versa. A decisão abre caminho, também, para que os partidos de maior porte acolham os nanicos que quiserem, de acordo com os arranjos feitos em cada estado, só para aumentar seu tempo de exposição na propaganda eleitoral gratuita por rádio e TV. Os nanicos, por sua vez, agradecem, porque como legendas de aluguel acolhidas em campanhas de partidos maiores conseguem resultados melhores e com menos custos do que por conta própria, aspecto que cresce em importância diante das restrições previstas na cláusula de barreira a partir das próximas eleições.
Por tudo isso, há muito de oportunismo rasteiro na decisão tomada até agora, pela maioria de três quintos da Câmara e do Senado, de acabar com a regra moralizadora da verticalização - instituída em fevereiro de 2002, no governo tucano de Fernando Henrique Cardoso, por decisão proferida pelo Tribunal Superior Eleitoral, TSE, em resposta a uma consulta encaminhada ao órgão pelo deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), em agosto do ano anterior. Na decisão da maioria dos deputados e senadores manifesta-se também a mesquinhez corporativista, com a defesa dos interesses imediatos da classe política em detrimento dos resultados de longo prazo que se deveriam almejar para a democracia no país. A alegação de que política se faz no Brasil com nomes, e não com partidos, para justificar o abandono de princípios programáticos, além de oportunista, é cínica e redutora. Se não se busca uma identidade ideológica junto ao eleitorado, a ação partidária desce ao nível da mera troca de interesses no varejo, sem nenhum compromisso mais sério com o futuro do país.
De todos os partidos representados na Câmara, apenas o PT e o PSDB se manifestavam contra o fim da verticalização. Mas diante da carga feita pelo governo, e dos acordos que estão sendo costurados nos estados, mesmo eles decidiram liberar as bancadas para votar ontem como quisessem.
"Era uma regra boa a mais para moralizar a política brasileira", lamentou o deputado Luiz Carlos Hauly, do PDSB do Paraná, que votou contra a PEC, ao saber do resultado final na Câmara. Ele, porém, ainda acredita numa reversão no segundo turno. "Vai depender da reação da sociedade, da imprensa", afirma.
Pode ser. Mas o placar de ontem dá pouca margem a essa esperança.
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 00h47
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Marinho assina o protocolo, sob os olhares de Lula, Dilma e Bernardo (foto Wilson Dias/Abr)
Com o chapéu alheio
Na mesma cerimônia no Palácio do Planalto em que anunciou o aumento do salário mínimo de 300 para 350 reais, a partir de abril, e a correção da tabela do Imposto de Renda na fonte em 8%, a partir de fevereiro, o governo Lula assinou ontem um protocolo de intenções com os representantes das centrais sindicais presentes para viabilizar uma política de valorização do mínimo. Além do presidente, pelo governo o documento foi firmado pelos ministros Luiz Marinho, do Trabalho, Dilma Rousseff, da Casa Civil, e Paulo Bernardo, do Planejamento.
De falta de assinaturas, portanto, é que o protocolo não se ressente. Nem de discursos em seu apoio. "Acho que todos esses acontecimentos marcam, sem sombra de dúvida, a história das relações entre o governo e as classes assalariadas do país", disse por exemplo a ministra Dilma, segundo relato da repórter Ana Paula Ribeiro, da Folha Online. Resta ver se a política pretendida decola.
Fragilizado como está, politicamente, o governo não tem certeza da reeleição de Lula no fim do ano. Se as urnas lhe forem desfavoráveis, este será o último ano de seu mandato. Como, então, pode comprometer-se com uma política para os próximos anos? Se não for presunção em demasia, é caridade praticada com chapéu alheio.
Não obstante, o ministro Marinho, ele próprio um ex-sindicalista, deixou-se levar pela euforia do momento para atropelar desde a lógica até os mandamentos da boa gestão pública, passando pela matemática. Depois de afirmar que o reajuste anunciado ontem para o salário mínimo é o maior, em termos reais, dos últimos dez anos, fiel à cantilena ufanista deste governo que, de tão repetida, ninguém mais agüenta ouvir – e como se o salário mínimo brasileiro fosse uma maravilha quando, na verdade, não corresponde a nem um quinto do sueco -, ele discordou da ótica fiscalista dos que se preocupam com o impacto da medida nos cofres públicos. O aumento do mínimo vai acarretar uma despesa extra de 5,6 bilhões de reais, não prevista no orçamento do governo federal para este ano. Para Marinho, no entanto, os críticos sofrem de miopia, porque uma parte desses gastos volta depois para o próprio governo, por meio dos impostos cobrados sobre a renda e o consumo. "Tudo isso entra numa neura de que só causa impacto fiscal e por isso não dá para fazer", sentenciou.
Ora, ministro, como o senhor deve saber, a parte não é o todo. E como o governo, sobretudo em anos eleitorais, libera as burras (não as fêmeas do jumento, mas sim os cofres públicos), até essa parte que volta é despejada de novo na economia. Com isso, ao invés de enxugar o excesso, como deveria, o governo aumenta ainda mais a liquidez da economia, num processo conhecido como criação de moeda. A liquidez sem controle faz explodir a inflação, cujo maior defeito é o de penalizar sempre os mais pobres, aqueles que ganham um ou dois salários mínimos. Moral da história: o aumento do mínimo, sozinho, não resolve quase nada. Para ajudar de fato o trabalhador ele precisa vir junto com uma política econômica séria, que estimule os investimentos e a criação de empregos. Ou será que o ministro não sabe disso?
Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 01h39
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Na rabeira das nações
A ONU confirma hoje a suspeita de que o Brasil se candidatava às últimas colocações entre os países em desenvolvimento, com seu magro crescimento econômico previsto para 2006. No bloco dos emergentes, ou seja, dos países que se situam a meio caminho entre os desenvolvidos e os subdesenvolvidos, o Brasil será simplesmente o pior. Dos 24 integrantes do bloco, diz a ONU, em estudo publicado hoje e divulgado, entre outros, pela BBC Brasil, 23 crescerão mais que os 3% previstos para o Brasil, neste ano. Na América Latina, por exemplo, o país será superado pela Argentina (6%), Chile e Venezuela (5,5%), Peru (5%), Colômbia (4,5%) e México (3,9%).
O crescimento de 3% do Produto Interno Bruto, PIB, brasileiro será inferior até à média mundial prevista para este ano pelas Nações Unidas, de 3,3%, e bem pior que as médias projetadas para a América Latina e o Caribe, 3,9%, para os países em desenvolvimento como um todo, 5,6%, e para os 50 países mais pobres do planeta, 6,6%.
No ano passado, o Brasil já teve o pior desempenho entre os emergentes, com seu crescimento estimado de apenas 2,5%. Segundo a ONU, na América Latina em geral houve em 2005 aumento de demanda doméstica e de investimentos – menos no Brasil, por conta principalmente de suas elevadas taxas de juro.
Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 22h53
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Os pobres pagam mais
Os trabalhadores, contando somente os com carteira assinada,
pagaram três vezes mais impostos que os bancos no ano passado, no Brasil. É o
que levantou ontem o jornalista Ribamar Oliveira, da sucursal do jornal O Estado
de S. Paulo em Brasília, ouvindo o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da
Receita Federal, Unafisco.
De acordo com a entidade, a carga bruta dos tributos federais
aumentou de 23,6% do PIB, em 2004, para 24,2% no ano passado. Além disso,
penalizou principalmente a população de baixa renda, já que os tributos sobre o
consumo responderam por 52% da receita total.
Os números da carga bruta diferem dos que foram divulgados
recentemente, sobre a participação do governo federal na carga tributária em
2005, porque as contas anteriores se referiam apenas à arrecadação líquida. Nos
cálculos feitos pela Unafisco são acrescentados os valores que a União fatura
com multas, juros e correção monetária. Ou seja, a carga tributária real no
país, jogada nas costas dos cidadãos pelos governos federal, estaduais e
municipais, é ainda maior do que os 38% do PIB estimados hoje, já um número
escandaloso.
Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 01h57
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Contra a mordaça
Pela candente defesa da liberdade de imprensa,
poderia ser um jornalista conhecedor de leis falando da ameaça – mais uma – do
Ministério da Justiça de mandar para a cadeia profissionais da categoria que
derem informações obtidas nos grampos telefônicos que o governo quer patrocinar.
Mas não é. Jansen Fialho de Almeida, o autor do texto reproduzido abaixo, é juiz
de direito titular da Vara Cível de Planaltina e também titular da 6a. Zona
Eleitoral do Tribunal Regional Eleitoral, no Distrito Federal.
Originalmente publicado no Jornal de Brasília, em
20/1, o artigo assinado pelo juiz mereceu uma segunda divulgação, ontem, pelo
site Comunique-se, do qual este blog o copiou. Vale a leitura, porque o assunto
não é de interesse exclusivo de jornalistas, mas sim de todos quantos acompanhem
os rumos da democracia no Brasil.
Não à
mordaça da imprensa
Por Jansen Fialho de Almeida
Noticia-se nos meios de comunicação prenúncio de
eventual proposta do governo em fase de estudo para reformular a legislação de
escuta telefônica e, dentre elas, a possibilidade de punição de jornalistas que
divulgarem o conteúdo dos grampos, ainda que realizados com autorização
judicial.
No entanto, ao se confirmar essa iniciativa, padecerá
no nascedouro de inconstitucionalidade, provando que os meios, ao contrário do
que alguns pensam, comprometem os fins, o que passamos a demonstrar. A Lei
9296/96 já prescreve que a responsabilidade da guarda do segredo de justiça está
afeta ao magistrado; ao ministério público; às autoridades policiais; às partes;
aos servidores que tiverem acesso aos autos; e aos técnicos das operadoras dos
serviços de telefonia, isto é, a todos aqueles que direta ou indiretamente
atuarem ou participarem da investigação. Nada mais lógico e justo.
Assim, se há vazamento do conteúdo dos grampos,
partiu de alguma das pessoas a que a lei restringe os dados obtidos no
procedimento. A partir daí enquadrar por via infraconstitucional o jornalista
como co-autor do crime, seja por saber, divulgar os dados ou omitir a fonte, se
consubstancia em evidente heresia jurídica, data maxima venia.
É imperioso assinalar que a CF/88 relativizou quase
todos os princípios, limitando aqueles antes denominados de "absolutos", no
fundamento da supremacia do interesse público sobre o privado, dentre eles o
sigilo das comunicações telefônicas nas hipóteses de inquérito policial ou
processo penal, sempre com prévia autorização judicial, até porque assegurado ao
acusado a presunção de inocência (art. 5º, XII e LVII).
A par disso, cumpre ter presente que a novel Carta,
no mesmo artigo que excepciona o sigilo, extirpou a censura e assegurou o
silêncio da fonte aos veículos de comunicação e jornalistas (incisos IX e XIV),
reforçando em capítulo específico - "Da Comunicação Social" -, de expressamente
vedar à lei conter qualquer dispositivo que possa constituir embaraço à plena
liberdade de informação jornalística, ratificando no próprio texto as garantias
fundamentais que tanto protegem o acusado quanto a mídia (art. 220 e §1º).
Como se depreende da interpretação sistemática das
referidas normas, a mitigação constitucional da censura e da liberdade de
informação dos meios está na vedação do anonimato, no direito de resposta e
eventual condenação ao pagamento de danos materiais e morais ao ofendido, ou
ainda ação criminal por ofensa à sua honra, se comprovada judicialmente a não
veracidade da notícia (incisos IV, V, X e XIII do art. 5º).
Neste contexto, criminalizar a pessoa do jornalista
pela prática de qualquer ato no exercício do mister não resulta em harmonizar os
princípios constitucionais pertinentes à espécie, mas notoriamente amordaçar
aqueles a quem as normas protegem o direito/dever de informar os fatos à
sociedade e resguardar o sigilo da fonte, prerrogativas inerentes e essenciais à
profissão e princípio basilar à própria manutenção do Estado Democrático de
Direito, de modo que, qualquer aventura jurídica nesta seara, ainda que sem
finalidade instilatória será em vão, porquanto nitidamente inconstitucional. Por
fim, aqui vale rememorar adágio do poeta alemão, Friedrich Hebbel: "Há casos em
que cumprir o dever é
pecar".
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 00h37
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Os bajuladores na política
"Plutarco é a grande fonte da ética do Ocidente. Desde o século XVI ele nutre quase toda a filosofia e ética modernas. Nas Moralia, ele analisa o comportamento humano em diferentes dimensões. Um dos tratados mais importantes é esse, dirigido aos políticos. Mostra que o bajulador é uma espécie de doença do poderoso. Não é aquele que apóia o poderoso – ele quer apenas usá-lo para seus fins. Nunca critica o poderoso face a face, sempre o justifica.
Ele (Plutarco) corrobora Platão, que diz, na Política, que todo ser humano tem o defeito do amor de si mesmo, que nos políticos é elevado ao máximo grau. Este comportamento é potenciado pelo adulador. O poderoso nunca vê, então, seus próprios erros e, com isso, cada vez mais vai se afastando do debate público e da noção dos erros de sua administração. No fim, é transformado num déspota ou num palhaço.
Na hora de responder pelos erros, o sujeito que foi adulado fica sozinho. Os aduladores pulam do barco e passam a adular a bola da vez. A distância entre o aplauso unânime e a solidão posterior é mínima. Assim, você vê o contraste entre as fotos do Pinochet no poder – orgulhoso, virulento – e as do Pinochet alquebrado de hoje.... Onde estão os aduladores?
No poder, você tem quase a ilusão de ser divino e infalível. Por isso, a imprensa tem uma função fundamental na democracia, assim como a oposição. Se ela não cumpre seu papel de imprensa, o sujeito que está no poder vira um grande narciso. Mas o erro do governante quem paga é o governado."
(Roberto Romano, professor titular de Filosofia da Unicamp, de Campinas, São Paulo, em entrevista a Fábio de Castro, da Agência Repórter Social, reproduzida hoje no site Comunique-se. O trecho aproveitado neste blog foi levemente editado. Para saber do contexto no qual se dá a entrevista, clique aqui para ler a íntegra que está no site)
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 22h03
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A má imprensa
Qualquer empresa, entidade de classe ou instituição pode encomendar uma pesquisa ao Ibope, a respeito de praticamente tudo que envolva opinião ou preferência. Basta pagar – e o instituto, que vive disso, agradece. Qualquer empresa, entidade de classe ou instituição poderia divulgar apenas uma parte dos resultados da pesquisa, ou mesmo nada divulgar, caso esta versasse apenas sobre seus produtos ou áreas específicas de interesse. Mas se a pesquisa é sobre intenção de voto nas próximas eleições no Brasil, uma matéria de interesse geral, e se quem a encomenda é uma empresa jornalística, que tem o dever de informar o público da melhor maneira possível, com isenção de espírito e respeito pelos leitores, então a ocultação deliberada de uma parte dos resultados constitui dolo. Está no dicionário Aurélio: dolo é "qualquer ato consciente com que alguém induz, mantém ou confirma outrem em erro; má-fé, logro, fraude, astúcia; maquinação".
Foi o que fez a Editora Três com sua publicação, a revista IstoÉ. Na edição desta semana, a chamada principal de capa do semanário, "Começa o ano eleitoral", remete a uma reportagem sobre a pesquisa encomendada ao Ibope pela editora, ao custo de 126.000 reais. A revista fala apenas dos resultados levantados para o primeiro turno das eleições, com o presidente Lula reassumindo a liderança com 35% das intenções de voto, contra 31% do prefeito de São Paulo, José Serra, do PSDB. Omite que o Ibope ouviu também sobre o segundo turno, no qual Serra venceria Lula por 45% a 42% - ou não, já que esse resultado está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais para cima e para baixo, admitida nas sondagens feitas pelo instituto.
Na mesma pesquisa, a editora fez o Ibope incluir perguntas que mais parecem uma coleta de subsídios para a campanha de um dos pré-candidatos do PMDB, Anthony Garotinho. A certa altura, por exemplo, indagou-se às pessoas ouvidas, segundo o jornal O Estado de S. Paulo de hoje: "Qual seria a principal ação que Garotinho poderia ter e que faria o(a) sr.(a) pensar em votar nele para presidente?" Entre as alternativas de resposta estavam, além de outras, "mostrar que é a favor dos pobres" e "não misturar religião com política". O ex-governador do Rio, como se sabe, é evangélico.
A revista Veja, concorrente da IstoÉ, sustenta na edição colocada hoje nas bancas que "saltam aos olhos" as ligações entre Garotinho e a Editora Três. Pode ser apenas uma ilação infundada da revista. Mas, sem dúvida, é muito estranho uma editora jornalística pedir ao Ibope que faça perguntas favoráveis sobre apenas um dos vários possíveis candidatos à Presidência, nas próximas eleições.
Na atitude tomada pela Editora Três com sua publicação, de todo modo, o mais condenável foi a ocultação deliberada dos resultados do segundo turno colhidos pela pesquisa. Com isso, não só ela induziu a erro todos os veículos que confiaram no briefing distribuído pela IstoÉ, entre eles o Jornal Nacional, da Rede Globo, como também desinformou a opinião pública. É o que se pode chamar de grave desserviço à liberdade de imprensa. É dolo, como está explicado no dicionário.
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 22h33
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Inferno astral
Sabedor de que uma nova pesquisa Ibope, encomendada pela revista IstoÉ, lhe devolve a liderança nas intenções de voto para a Presidência no primeiro turno das eleições, depois de perdê-la para o prefeito de São Paulo, José Serra, do PSDB, o presidente Lula mostrava-se ontem bastante animadinho, em jantar com a bancada do PMDB no Senado. Saboreando carne de sol e um carneiro na casa do senador Ney Suassuna, da Paraíba, Lula teria enfatizado – segundo nota publicada no blog de Josias de Souza (link ao lado) – sua disposição de "colher o que plantou" em seu governo.
"Vou fazer tudo o que tenho direito, porque sou o presidente eleito até o fim do ano", teria dito. E hoje, logo cedo, ele pôde ser visto em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, em atitude de candidato ao lado do prefeito Lindberg Farias, correligionário do PT, no palanque armado para que discursasse após assinar um convênio de retomada das obras do Hospital Geral de Queimados, naquele município.
O mais interessante é que, apesar de seu comportamento mostrar claramente o contrário, o presidente continua a negar que seja candidato. Agora, ele deu de falar que só se definirá sobre esse assunto em junho.
Conversa para boi dormir, lógico. Lula também pode estar soltando fogos precipitadamente com uma pesquisa encomendada às pressas e incompleta, que sequer traça um cenário para o segundo turno das próximas eleições. Um levantamento mais consistente, feito pelo próprio Ibope a cada trimestre para um outro cliente, a CNI, Confederação Nacional da Indústria, mostra que desde o estouro do escândalo do Mensalão o governo Lula se encontra no seu inferno astral, com um índice de desaprovação superior a 50%. O gráfico abaixo mostra como evoluiu a avaliação do governo, desde junho de 2003. Naquele momento inicial de mandato, o índice de aprovação estava nas alturas: 70%. No último mês de dezembro, o índice havia despencado para apenas 42%, contra 52% de desaprovação.

Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 20h08
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O país dos impostos
Está no jornal O Globo de hoje: os brasileiros nunca pagaram tanto imposto quanto em 2005. A carga tributária do país chegou a cerca de 38% do Produto Interno Bruto, PIB, segundo cálculos de especialistas, com base nos impostos e contribuições recolhidos pelo governo federal. Este, de acordo com dados divulgados ontem pela Receita Federal, ficou sozinho com 364,1 bilhões de reais do bolo total, com um aumento real de arrecadação, descontada a inflação do período, de 5,65% em relação a 2004. Quantia semelhante foi recolhida pelos estados e municípios, o que, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, IBPT, eleva a arrecadação total para cerca de 730 bilhões de reais. Como o PIB do ano passado deve ter ficado entre 1,90 e 1,94 trilhão de reais, depois de crescer de 2,5% a 2,7% sobre o ano anterior, chega-se assim ao número aproximado de 38% para o peso da carga tributária.
O crescimento dos impostos ao dobro da velocidade do PIB em 2005 mostra o quanto o fisco é voraz no Brasil. Apesar das promessas em contrário feitas pelo atual governo, a carga aumentou em cerca de 2% do PIB no ano passado. Com isso, o país registra provavelmente um recorde mundial negativo para os últimos oito anos. Em 1997, a carga tributária era de apenas 29%.
Para avaliar o peso dos tributos na vida dos cidadãos, basta pensar que de cada 100 reais de novas riquezas produzidas no ano passado, no país, 38 foram confiscados pelo governo, aí incluídos os da União, estados e municípios. Sobraram portanto apenas 62 reais para o setor privado pagar todas as suas contas, que não são poucas, e continuar produzindo.
Se dos 38 reais recolhidos para os cofres públicos, em cada 100, pelo menos uma boa parte retornasse para a população, na forma de investimentos em educação, saúde, saneamento, transportes e estradas, entre outras áreas deficientes no país, essa alta carga tributária ainda poderia ser aceita. Mas não tem sido assim.
Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 10h45
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A Selic cai para 17,25%
O Comitê de Política Monetária do Banco
Central, Copom, decidiu ontem reduzir em 0,75 ponto percentual a taxa básica de
juro da economia, a Selic, que assim recua de 18% ao ano para 17,25%. Já
esperada pelo mercado financeiro, a medida significa o maior corte da taxa (os
anteriores foram de 0,5 ponto percentual) desde a interrupção do ciclo de alta
da Selic, em setembro do ano passado. Mas não denota uma mudança na política
monetária, já que o intervalo entre as reuniões do Copom foi aumentado de 30
para 45 dias, em média, neste ano.
O dado mais significativo da decisão de
ontem é que a redução da taxa foi feita sem viés. Assim, mesmo com uma mudança
brusca no cenário, no que se refere à inflação, o presidente do Banco Central
fica impedido de aumentar ou reduzir a Selic antes da próxima reunião do Copom.
Trata-se de um risco, espera-se que
calculado. Medida pelo IGP-10, um índice intermediário da Fundação Getúlio
Vargas, a inflação revela uma alta de 0,84% neste mês, a maior desde abril do
ano passado. Em termos anuais, essa taxa mensal resulta em 10,6%, bem acima da
meta fixada para 2006, de 4,5% com base no índice oficial, o IPCA. Além disso,
mesmo este medidor mostrou-se perigosamente rebelde no ano passado. Sua taxa
acumulada de 5,7% ficou 1,2 ponto percentual acima da meta, revelando uma
tendência de aceleração no segundo semestre que só foi contida em novembro.
Não é por se tratar de um ano de eleição
que o Banco Central pode afrouxar seus controles.
Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 00h25
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A pressão popular funciona
Sinal de que a opinião pública tem peso,
embora às vezes não pareça, os deputados federais aprovaram ontem, em seqüência
à extinção do salário extra por convocações extraordinárias, a redução do
período anual de férias (recesso) de 90 para 55 dias. Não é muito, quando se
considera que a massa de trabalhadores comuns só tem direito a 30 dias. Mas já
representa um avanço, principalmente porque agora – se a decisão for aprovada em
segundo turno na Câmara e também em dois turnos no Senado - a interrupção das
férias, diante de uma convocação do Executivo ou das Mesas do Congresso, se fará
sem o pagamento da remuneração adicional.
Entre a proposta original feita pelo
deputado Nícias Ribeiro (PSDB-PA), de 45 dias, e a de 60 dias defendida por um
grupo de parlamentares cioso de suas mordomias, a maioria preferiu cravar um
meio-termo mais próximo da segunda posição. Além disso, para resguardar seu
sagrado descanso, os deputados introduziram no texto da emenda uma cláusula que
dificulta a convocação pelo Executivo. Segundo esse novo dispositivo, a mensagem
encaminhada pelo presidente da República precisará ser aprovada pela maioria de
50% mais 1 das duas casas do Congresso para ter validade.
Se a emenda for aprovada, o artigo 57 da
Constituição terá nova redação. Em lugar do texto atual - "O Congresso Nacional
reunir-se-á, anualmente, na Capital Federal, de 15 de fevereiro a 30 de junho e
de 1.o de agosto a 15 de dezembro" -, passará a vigorar o que substitui essas
datas para "de 2 de fevereiro a 17 de julho e de 1.o de agosto a 22 de
dezembro". As férias, portanto, encurtam de 31 para 14 dias no meio do ano. E na
passagem de um ano para o outro, de 60 para 41 dias.
A redução do recesso teria sido aprovada
ontem pela unanimidade dos 467 deputados presentes à sessão, não fosse o único
voto contrário, dado pela deputada Suely Campos, do PP de Roraima. Sua
assessoria, no entanto, apressou-se em explicar que ela apertou sem querer o
botão errado, e que vai encaminhar pedido à Mesa para corrigir o voto.
Por ser matéria constitucional, no mínimo
três quintos dos deputados e senadores precisam aprovar a medida em primeiro e
segundo turnos, para que ela entre em vigor. Isso dá 319 votos na Câmara e 49 no
Senado.
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 23h31
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Nem todos os gatos são iguais
Com a vitória da socialista Michelle Bachelet no Chile, somadas às anteriores de Tabaré Vázquez no Uruguai e de Evo Morales na Bolívia, há quem queira pintar de vermelho o subcontinente sul-americano. Nada mais precipitado, ou equivocado. Os três novos mandatários, de fato, por suas posições políticas podem ser colocados na companhia dos mais antigos Hugo Chávez, da Venezuela, Néstor Kirchner, da Argentina, e Lula, do Brasil, e em breve, provavelmente, do coronel Ollanta Humala, do Peru. Mas daí a concluir que todos eles são gatos do mesmo saco esquerdista vai uma enorme distância.
A rigor, mesmo nesta parte mais atrasada da América, poucas são as correntes ditas populares que continuam agarradas aos credos políticos de livre circulação até a queda do muro de Berlim, em novembro de 1989. O melhor exemplo está no Brasil, cuja população de retrógrados provavelmente supera, em número e obtusidade, as dos demais países sul-americanos somados. Apesar do patrulhamento do PT e de seus acólitos, o governo Lula precisou aprofundar a ortodoxia econômica recebida do antecessor, ao qual, em campanha, acusava de neoliberal – seja lá o que isso signifique, como lembra o ex-ministro Mailson da Nóbrega. Os três primeiros anos do mandato do ex-operário metalúrgico servem para ilustrar à perfeição a tese, já defendida pelo comentarista Joelmir Beting, de que 'na prática a teoria é outra'.
O Chile da presidente eleita Michelle Bachelet mostra também que não é preciso reinventar a roda em matéria econômica para se chegar a um modelo distributivista duradouro e capaz de contentar os socialistas. Ao contrário do que as esquerdas retrógradas pensam, e para desgosto delas, o atalho para esse modelo se esconde, justamente, nas práticas por elas cunhadas de neoliberais para associá-las ao reacionarismo.
Com privatizações amplas, perseguindo metas de inflação com extrema austeridade fiscal e um câmbio flutuante, política econômica inaugurada no ocaso da ditadura Pinochet e mantida e aprofundada, após a redemocratização do país em 1990, pelos governantes eleitos pela coalizão Concertación Democrática, o Chile realizou um milagre. No espaço de apenas uma geração, tornou-se o segundo país de melhor Índice de Desenvolvimento Humano, IDH, da ONU, na região (ainda perde para a Argentina, mas por pouco), modernizou a infra e a superestrutura econômicas com os maciços investimentos estrangeiros que recebeu, reduziu para apenas 10% do PIB a dívida pública e, com isso, já ostentando hoje uma renda per capita que é duas vezes e meia a brasileira e uma inflação de padrão suíço, pôde baixar o juro básico anual para apenas 4,5%. É cavalgando essa virtuosa realidade que a presidente eleita promete ampliar os programas sociais. Não há dúvida de que o conseguirá, e sem nenhum trauma econômico para o país.
Enquanto isso, o que se vê por estas plagas? Como se não bastasse a estupidez das esquerdas retrógradas capitaneadas pelo PT - e com ecos no primeiro escalão do governo -, propondo uma farra de gastos de recursos públicos junto com o corte abrupto dos juros, esquecendo-se de que a dívida pública supera ainda 50% do PIB, agora é a oposição que abraça o mesmo discurso demagógico. O prefeito de São Paulo, José Serra, do PSDB, assumindo sua pré-candidatura à Presidência da República, atacou na segunda-feira as políticas monetária e cambial, como se estas não tivessem sido criadas quando seu partido estava no poder.
É certo que há espaço para novos cortes no juro básico, mas isso tem de ser feito com cuidado, e conjugado com a ampliação da austeridade fiscal. Gastar mais e baixar os juros, ao mesmo tempo, não dá. Serra, como economista competente, sabe disso. A menos que tenha um coelho escondido na cartola para resolver essa equação de outro modo, aparentemente – o que não lhe fica bem – cedeu à tentação populista e caiu no discurso fácil, de olho nas pesquisas de intenção de voto.
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 00h54
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Contra o salário extra
Antes tarde do que nunca, a Câmara dos Deputados aprovou hoje, em votação simbólica, o projeto de decreto legislativo que acaba com o pagamento do salário extra a parlamentares pela convocação extraordinária. A decisão, que obviamente só vai valer para uma próxima convocação, e não para a atual, precisa ser aprovada também pelo Senado para entrar em vigor.
O pagamento de salário extra aos parlamentares por dois meses de convocação extraordinária, como está ocorrendo agora, custa aos cofres públicos algo entre 90 e 100 milhões de reais, já que cada um dos 513 deputados embolsa no período 25.694,40 reais, e cada um dos 81 senadores, 25.440,00, além dos mesmos valores como salário normal, e mais ajudas de custo para deslocamentos e moradia, junto com a cobertura integral das despesas administrativas e de pessoal do gabinete.
Se, como se espera, os senadores também fizerem a sua parte, corrigindo essa pouca-vergonha dos usos e costumes da política brasileira, os parlamentares federais ficarão um pouco mais pobres. Mas não tão pobres quanto os deputados americanos, que ganham menos que seus colegas brasileiros – 162.000 dólares por ano, contra 188.000 aqui, segundo publicou o Jornal do Brasil no último dia 9 -, não recebem extra por convocações extraordinárias nem ajuda de custo (sequer passagens de avião), trabalham de segunda a sexta e têm férias de apenas 10 dias por ano. No Brasil, como se sabe, deputados e senadores somem de Brasília na sexta e na segunda, trabalhando apenas três dias por semana, e ainda desfrutam de três meses de férias por ano.
Detalhe: a renda per capita dos americanos corresponde a cerca de 10 vezes a dos brasileiros. Logo, para cada real que por aqui gastamos com os parlamentares, eles poderiam gastar 10. Se não o fazem, é porque devem ter os seus motivos.
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 22h11
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Nacionalismo intempestivo
Como o filme O Jardineiro Fiel, dirigido por Fernando Meirelles, só levou na noite passada um dos três prêmios Globo de Ouro aos quais fora indicado, o de melhor atriz coadjuvante, dado a Rachel Weisz, já se pode prever o coro de lamentações no Brasil com mais essa frustração cinematográfica. De fato, há tempos o país se vê alijado dos mais importantes prêmios da área, apesar de diversas indicações obtidas para o Oscar nos últimos anos. Assim, O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, Palma de Ouro em Cannes no longínquo ano de 1962, segue absoluto no alto do pedestal das glórias tupiniquins conquistadas no cenário internacional.
As lamentações, no entanto, são exageradas, sobretudo no caso de O Jardineiro Fiel. É que o filme nada tem de brasileiro, a não ser seu diretor. Trata-se de uma produção britânica, financiada com libras esterlinas, baseada num romance escrito por um inglês, John le Carré, e com atores e técnicos que se expressam na língua de Shakespeare. Quem mais teria a lamentar a perda do Globo de Ouro seriam, portanto, os ingleses, que botaram seu dinheiro no filme, e não os brasileiros. Também o fato de Meirelles ser preterido como melhor diretor em favor de Ang Lee, que fez o grande premiado da noite, O Segredo de Brokeback Mountain, não diminui em nada o reconhecimento devido ao seu talento, já revelado em Cidade de Deus. Figurar entre os seis melhores da indústria do cinema falado em inglês significa uma alta honraria. Além disso, parte do prêmio dado à atriz Rachel Reisz é mérito de Meirelles.
Ao invés de cultivar esse nacionalismo bobo, fariam melhor os simpatizantes do cinema brasileiro se o encarassem pela ótica do negócio, a exemplo dos americanos. Estes não perdem tempo em proteger nativos da terra, porque com seu poderio financeiro podem contratar os melhores, estejam onde estiverem. Também não dão a mínima para a política de boa vizinhança. Seus interesses comerciais só se ligam aos políticos quando podem transformar o proselitismo em sucesso de bilheteria, ou seja, até nesse caso trata-se apenas de business. Portanto, qualquer esperança que se possa nutrir fora desse cânone, em matéria de premiações no circuito internacional, é infundada.
A lista dos seis cineastas indicados ao Globo de Ouro deste ano pelos correspondentes estrangeiros de Los Angeles é o melhor exemplo do supranacionalismo que vigora na grande indústria do cinema. Dos seis, apenas três são americanos de nascimento: Woody Allen, George Clooney e Steven Spielberg. Dos outros três, além do brasileiro Meirelles, um é neozelandês, Peter Jackson, e o outro, Ang Lee, chinês de Taiwan.
O premiado Lee representa, por sua vez, uma síntese do processo de aculturação. Seu filme não apenas é um western, tradicional gênero americano, como ainda um western com personagens gays. Nada a estranhar. Na filmografia dele figuram diversas outras demonstrações de seu ecletismo supranacional. Seu O Tigre e o Dragão, de 2000, é visceralmente chinês na caracterização dos personagens e na coreografia dos combates. Razão e Sensibilidade, de 1995, é tão recatadamente inglês quanto um filme de James Ivory. E sua recriação do monstro esverdeado e raivoso, Hulk, de 2003, é marcadamente americana, mesmo com a inesperada densidade psicológica dada ao personagem.
No manejo da linguagem universal do cinema, Lee apenas segue uma tradição inaugurada já na segunda década do século passado pelo imortal Carlitos, inglês importado por Hollywood. Seduzidos pelos recursos oferecidos, dezenas de cineastas do maior calibre instalaram-se naquele pedaço californiano, através dos tempos, para transformá-lo na meca do cinema mundial. Só para citar alguns deles, além de Charles Chaplin, ingleses eram também Alfred Hitchcock, Carol Reed, David Lean e Alexander McKendrick. Por sua vez, Ernst Lubitsch, Billy Wilder e Otto Preminger eram austríacos, Fritz Lang e Josef von Sternberg, alemães. Frank Capra, o poeta do New Deal americano, era italiano, assim como Elia Kazan era turco e Rouben Mamoulian, russo.
Esses exemplos todos mostram que o que conta mesmo, e fica para a história, é o talento do artista, qualquer que seja o seu campo de criação. O lugar onde ele nasceu não tem a menor importância.
Categoria: Outros assuntos
Escrito por Dom Quixote às 03h53
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O Sol por Testemunha
Num tempo em que o cinema vive de superproduções
americanas, nas quais o conceito de entretenimento é elevado ao paroxismo, em
detrimento da arte, pode ser educativo - para os que ainda não o viram -
assistir ao filme O Sol por Testemunha (Plein Soleil), finalmente lançado
no Brasil em DVD, pela distribuidora Versátil.
Obra-prima de René Clement, um diretor detratado pela
patrulha da nouvelle vague francesa, o filme de 1960 resiste ao tempo como a
mais brilhante adaptação do livro de Patricia Highsmith, O Talentoso Mr. Ripley.
A versão, que traz Alain Delon no papel-título, em caracterização jamais
igualada por seus seguidores, dá de 10 nas recentes refilmagens, dirigidas por
Anthony Minghella e Liliana Cavani.
Fazem parte da história do cinema cenas como a da
contraposição dos closes no olhar de Delon e Marie Laforêt - a Marge Duval de
olhos de mel -, a do esfaqueamento no barco de Philippe Greenleaf (Maurice
Ronet), a da descoberta do crime pelo acaso da âncora enganchada no casco do
navio e a do antológico final, com Ripley sendo chamado para atender a uma
ligação telefônica. Nunca o clima noir de Patricia Highsmith foi tão valorizado
na tela, e provavelmente nunca mais o será.
Até porque seria uma covardia esperar que o cinemão
de hoje pudesse reunir tantos talentos num só filme para atuarem ao natural, sem
a praga dos efeitos especiais: Clément, Delon, Ronet, Laforêt, e ainda Nino
Rota, o insuperável compositor italiano do cinema, e o mago da iluminação
francesa Henri Decae, diretor de fotografia.
Categoria: Outros assuntos
Escrito por Dom Quixote às 00h32
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Bachelet é eleita no Chile
A vitória da candidata socialista Michelle Bachelet, da coalizão governista Concertación Democrática, foi proclamada por seu comando de campanha, depois de o adversário Sebastián Piñera admitir publicamente a derrota nas eleições deste domingo no Chile. Isso ocorreu após o Ministério do Interior chileno ter divulgado, no início da noite, que apuradas 67,3% das urnas a candidata da situação tinha 53,2% dos votos válidos, sem contar brancos e nulos, contra os 46,8% dados ao oposicionista Piñera. Nessa apuração parcial, Bachelet já reunia 2,455 milhões de votos, e Piñera, 2,157 milhões.
"Bachelet presidente – por Chile, por la gente". Foi debaixo deste slogan que os chilenos elegeram a primeira mulher presidente de sua história.
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 21h43
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Michelle em campanha: as pesquisas dizem que ela ganha
O Chile vai às urnas
A socialista Michelle Bachelet poderá tornar-se, neste domingo, a primeira mulher eleita por sufrágio universal e direto para a Presidência da República na América do Sul. Candidata da situação no Chile, às vésperas do pleito continuava a liderar com relativa folga as pesquisas eleitorais. A última delas, divulgada quinta-feira passada pela empresa de consultoria Mori, dava-lhe 53% dos votos, sem contar brancos e nulos, contra 47% do candidato conservador Sebastián Piñera, da oposição.
O segundo turno das eleições chilenas, que se define hoje, transformou-se numa espécie de plebiscito, embora pela primeira vez tenha sido quase nula a participação das forças políticas leais ao ex-ditador Augusto Pinochet, sobre quem se aperta o cerco da Justiça pelos crimes cometidos durante os anos de chumbo que se seguiram ao golpe militar desfechado contra o ex-presidente Salvador Allende, em 1973. É que, na opção por Bachelet ou Piñera, os chilenos estão sendo chamados, claramente, a fazer um ajuste de contas com o passado, mais do que a decidir sobre seus próximos passos na democracia restaurada em 1990.
Por essa ótica, é sintomática a simpatia demonstrada pela maioria da população, católica e de tendências conservadoras, por uma candidata que nada tem a ver com a imagem tradicional da mulher chilena. Mãe de três filhos, separada, socialista militante desde a adolescência e declaradamente atéia, Michelle Bachelet Jeria, 54 anos, nunca quis usar o sobrenome de seus ex-maridos, um, pai de Sebastián, 26 anos, e Francisca, 21, e outro, da menina Sofia, de 12. Manteve o Jeria de sua mãe, Ángela, antropóloga, e o Bachelet de seu pai, Alberto, general da Força Aérea chilena leal a Allende e que logo após o golpe foi preso e torturado até a morte, em 1974. A própria Michelle e a mãe também foram presas pelos gorilas de Pinochet. Libertadas, viveram anos no exílio, primeiro na Austrália e depois na Alemanha ex-Oriental. A essa experiência a candidata deve parte de sua fluência atual em várias línguas: inglês, alemão, francês e português, além do espanhol.
Formada, depois de várias interrupções no estudo forçadas pelas circunstâncias em que viveu, em Medicina pela Universidade do Chile, com especialização em Pediatria, ela se pós-graduou em Ciências Militares. Explica-se portanto que tenha sido, primeiro, ministra da Saúde, e depois da Defesa, no governo Ricardo Lagos.
Já seu opositor Sebastián Piñera, de 56 anos, candidato do Partido da Renovação Nacional - Michelle é da coalizão Concertación Democrática, formada por seu Partido Socialista e pela Democracia Cristã -, é um empresário que se tornou milionário na ditadura, explorando um serviço de cartões de crédito que lhe foi franqueado quando seu irmão, José, era ministro de Pinochet. Economista formado no Chile com pós-graduação em Harvard, nos EUA, Piñera enfatizou à exaustão o contraste entre ele, que se diz um católico praticante seguidor do humanismo cristão, e a atéia Michelle. No passado, em 1992, quando se preparava para lançar-se candidato à Presidência por seu partido, depois de, nas eleições anteriores, ter sido o chefe de campanha de Hernán Buchi, cria política de Pinochet, foi obrigado a renunciar, diante da descoberta de que ordenara manobras escusas para difamar os opositores.
O povo chileno dirá hoje qual deles, Michelle ou Piñera, é merecedor da maioria de seus votos para assumir a cadeira presidencial.
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 01h34
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A nova relíquia bárbara?
Pouco
antes do término da Segunda Guerra Mundial, diante da necessidade de somar
esforços para a estabilização monetária e a reconstrução de economias destruídas
no conflito, os países aliados criaram, na Conferência de Bretton Woods, em
julho de 1944, o Fundo Monetário Internacional, FMI, e o Banco Mundial, Bird. Na
mesma época, valendo-se de seu poderio industrial e financeiro, reforçado pela
vitória na guerra, os Estados Unidos passaram a exercer o papel de locomotiva do
crescimento mundial, abrindo seu vasto mercado a outros países e para eles
vendendo suas mercadorias, ideologia e influências econômicas, culturais e
políticas.
Em lugar
do antigo padrão-ouro, casado no século 19 com a libra inglesa, a moeda de troca
do comércio internacional passou a ser o dólar, cuja garantia era dada pela
conversibilidade ao ouro por uma paridade fixa de 35 unidades monetárias por
onça-troy (28,349 gramas). Com o tempo, como o volume de comércio se tornou
muito maior do que as disponibilidades do metal precioso – chamado por Keynes de
'relíquia bárbara' -, os americanos resolveram mandar a conversibilidade para o
espaço. Em agosto de 1971, o presidente Richard Nixon determinou,
unilateralmente, o fim da paridade fixa instituída em Bretton
Woods.
Assim, a
própria economia americana passou a representar a garantia dada pelo dólar,
criando-se uma situação esdrúxula, na qual os Estados Unidos, por ter a condição
de emissores da moeda de reserva internacional, podiam impunemente ostentar
vultosos déficits fiscais e de comércio. Ou seja, os EUA situaram-se acima do
bem e do mal, livres das regras de austeridade que os demais países do planeta
se obrigam a seguir.
Tal é,
ainda hoje, o figurino do sistema monetário internacional. Mas como, já lembra o
velho ditado, não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe, também isso
pode mudar. Os países europeus, afora a Inglaterra saudosa da velha libra,
criaram uma moeda conjunta, o euro, que vem se valorizando em relação ao dólar.
Aos poucos, o euro substitui a moeda americana nas reservas internacionais,
e não apenas na Europa. O Japão e a China, dois países com grande volume de
dinheiro guardado, também tomam a mesma providência.
Os
déficits americanos já raiam o absurdo. O do orçamento federal para 2006 é
estimado em 400 bilhões de dólares. E o do comércio deve ter atingido 700
bilhões em 2005.
Os países que geram superávits no comércio com os EUA transformam esse lucro em
títulos do Tesouro americano, considerados, por conta do figurino atual do
sistema monetário internacional, ainda os mais seguros do mundo. Na soma, há
trilhões de dólares investidos assim, em mãos chinesas, japonesas e européias,
sem contar o Terceiro Mundo.
A pergunta que se faz hoje é: e se esses títulos começarem a ser vendidos no
mercado, em massa, pelos atuais detentores? Se isso um dia acontecer, será o fim
do dólar como padrão monetário mundial. Disso, não há a menor
dúvida.
Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 01h06
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Jefferson, o 'Mala do Ano'
O ex-deputado Roberto Jefferson, agraciado com o título de 'Mala do Ano' de 2005 pelo Clube dos Malas, uma associação sem fins lucrativos da cidade de Rio Novo, em Minas Gerais, deu um jeito de escapulir dos representantes da entidade que na madrugada desta quinta para sexta-feira bateram à porta de sua casa, em Petrópolis, no Rio de Janeiro, para lhe entregar a honraria, junto com um prato de comida. "Tentamos acordá-lo de madrugada para oferecer um prato 'língua de boi ao molho jefferson', mas ele fugiu da gente", disse à agência Reuters um dos fundadores do Clube dos Malas, Alan Borges. "O genro dele, que estava na casa, sofreu conosco.
Os sócios do clube, contudo, não se dão por vencidos, e insistem para que o ex-deputado vá a Rio Novo, cidade de 10.000 habitantes, receber seu merecido galardão. "Ele foi um mala que funcionou bem. Deu com a língua nos dentes. Acho que todos os políticos com o rabo preso igual a ele deveriam soltar o rabo para o bem do país", justifica Borges.
Enquanto esperam por Jefferson, os sócios, que já elegeram no passado o prefeito do Rio, César Maia, e o apresentador de TV Gugu Liberato para receber a distinção, mobilizam-se para renovar a direção da entidade neste sábado. Há mais de 300 inscritos para concorrer à presidência.
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 23h29
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Morales e Lula, no Planalto (Roosevelt Pinheiro/Abr)
Morales tranqüiliza
Evo Morales, o presidente eleito da Bolívia que tomará posse do cargo no próximo dia 22, garantiu hoje ao visitar o Itamaraty, depois de reunir-se por duas horas no Palácio do Planalto com o presidente Lula, que não estatizará os investimentos estrangeiros privados em seu país. A preocupação maior, no caso do Brasil, era que Morales simplesmente encampasse as duas refinarias da Petrobrás, como chegou a prometer durante sua campanha, e quisesse obter mais vantagens pelo fornecimento de gás natural através do gasoduto que liga Santa Cruz de la Sierra a cidades do Sudeste brasileiro.
Com sua afirmação de hoje, o presidente boliviano afasta o risco imediato de a Petrobrás sofrer um grande prejuízo – a estatal já investiu 1,5 bilhão de dólares na Bolívia -, mas tudo indica que ele quer restringir as atividades da empresa no país, subordinando-a à estatal Yacimientos Petroliferos Fiscales de Bolivia, YPFB, extinta nos anos 80 e que será recriada em seu governo. A operação boliviana da Petrobrás não está isenta, portanto, de riscos futuros, dependendo de como será feita a reestruturação da indústria do gás naquele país.
Mesmo assim, pelo menos enquanto não entrarem em operação os primeiros campos gasíferos da Bacia de Santos, o que está previsto para o segundo semestre de 2008, o fornecimento boliviano é insubstituível para o Brasil, por atender hoje a cerca de 50% da demanda nacional. Da mesma forma, se o projeto em estudos for viabilizado, será importante para o suprimento do mercado brasileiro o gás venezuelano de Puerto Ordaz, cujas reservas são o triplo das bolivianas e que permitiriam abastecer todos os países do Cone Sul. Pode-se prever, portanto, que o governo Lula continuará com seu jogo duplo diplomático, à esquerda fazendo concessões ao eixo Havana-Caracas-La Paz e à direita mantendo relações amistosas com Washington. Qualquer outro, em seu lugar, teria de fazer o mesmo, porque nesse caso a interdependência econômica fala mais alto que a identidade ideológica.
Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 22h46
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Fogo amigo contra o PT
A deputada Luiza Erundina (PSB-SP), a quem o PT deve o primeiro resultado eleitoral de impacto no cenário nacional, quando ela se tornou prefeita de São Paulo, em 1988, continua abraçando as causas do partido - que ajudou a fundar, em 1980 -, mas condena suas práticas. Se evita falar do escândalo de corrupção protagonizado por alguns dirigentes petistas, não poupa o aparelhamento do Estado feito pelos ex-companheiros de partido, sua adesão a uma política econômica que antes prometiam mudar e o desmazelo a que relegaram programas populares em sentido amplo, deixando de investir nas áreas de saúde, educação, habitação, saneamento básico e infra-estrutura urbana.
Com a independência que sempre a caracterizou, como quando aceitou ser ministra da Administração Federal no governo Itamar Franco, em 1993, mesmo militando no PT, e quando, já fora do partido, não quis declarar apoio a Marta Suplicy no segundo turno das eleições para a Prefeitura paulistana, em 2004, Erundina afirma que já durante sua gestão como prefeita membros do partido tentaram apossar-se da máquina pública, sendo rechaçados por ela. “Nenhum partido pode aparelhar governo. Eu acho que existe esse aparelhamento no governo federal. Tentou-se fazer isso na minha época, mas, pelo menos na minha prefeitura, nós não permitimos. É preciso ter o apoio partidário, mas tem que haver uma separação clara entre governo e partido”, diz ela, em entrevista ao site Congresso em Foco.
Além de criticar as práticas do partido no poder, a deputada lamenta que não tenha surgido, pelo menos até agora, uma liderança capaz de romper a polarização entre PT e PSDB nas próximas eleições presidenciais. "Essa falta de alternativas deixa uma perplexidade na sociedade", afirma.
Como a palavra de Erundina é respeitada nas hostes petistas, as quais, mesmo sentindo ganas de responder-lhe com a malcriação peculiar, procuram manter-se em obsequioso silêncio, pelo passado da deputada, pode valer a pena ler a íntegra da entrevista. Para tanto, clique aqui.
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 22h26
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Sabia, mas ficou calado
O Ministério da Justiça, que não carrega esse nome por acaso, existe para garantir a justiça e a segurança públicas, tendo como uma de suas áreas de competência explícitas, de acordo com o Decreto 4.991, de fevereiro de 2004, a prevenção e repressão do crime de lavagem de dinheiro, mediante inclusive uma cooperação jurídica internacional.
O Coaf, Conselho de Controle de Atividades Financeiras, criado pela Lei 9.613, de março de 1998, no âmbito do Ministério da Fazenda, é um órgão auxiliar de fiscalização que tem por função principal a coibição do mesmo crime de lavagem de dinheiro, atuando em estreita colaboração, entre outros, com o Banco Central, a Comissão de Valores Mobiliários, a Superintendência de Seguros Privados, a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União.
Agora, os fatos:
1. No último sábado, 7 de janeiro, começou a circular a revista Veja desta semana, que revelou a existência de uma segunda conta no exterior do publicitário Duda Mendonça, marqueteiro da campanha presidencial de 2002 e até recentemente detentor do monopólio, como consultor e executor, das ações de propaganda do Planalto.
2. Como sempre faz, na véspera, dia 6, a revista divulgou em seu site o conteúdo das principais reportagens da edição, entre elas a da outra conta de Duda.
3. Foi só então, conforme ele mesmo declarou em depoimento prestado ontem, à CPI dos Correios, que o presidente do Coaf, Antônio Gustavo Rodrigues, tomou conhecimento da notícia. Antes, em agosto de 2005, atendendo a um requerimento da CPI, o órgão pedira informações sobre a primeira conta de Duda – revelada pelo próprio publicitário -, constituída na forma de uma empresa offshore (do exterior) denominada Dusseldorf, com sede nas Bahamas e dinheiro depositado em Miami. Até hoje não recebeu resposta das autoridades americanas a quem se dirigiu, as quais mantêm acordo de troca de informações com o Ministério da Justiça brasileiro.
4. Surpreendido pela notícia da segunda conta de Duda, Rodrigues cobrou explicações do Ministério da Justiça. Este confirmou a existência da conta na segunda-feira, dia 9.
5. Mas desde novembro do ano passado, ou seja, há dois meses, de acordo com Rodrigues, o ministério já sabia dela, informado pelo Financial Crimes Enforcement Network, Fincen, subordinado ao Departamento do Tesouro americano e equivalente ao Coaf.
Perguntas ao ministro Márcio Thomaz Bastos: se sabia, por que não informou o Coaf antes que a revista Veja publicasse a denúncia? O Ministério da Justiça, que deveria ser o paladino da legalidade no país, faz vista grossa diante do crime de lavagem de dinheiro que está implícito nas contas secretas mantidas no exterior pelo publicitário Duda Mendonça? Em nome de que interesses a informação ficou engavetada?
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 20h44
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Mais uma mentira
A criação de empregos é um dos pretensos êxitos do atual governo mais trombeteados pelo presidente Lula, em seus freqüentes auto-elogios. Embora o número atingido nos três primeiros anos de sua gestão – segundo o anúncio oficial, algo em torno de 3,7 milhões – esteja longe dos 10 milhões prometidos na campanha para todo o mandato, o fato de ele ser bastante maior que o dos oito anos do governo tucano serve de motivo de festa.
Num de seus arroubos característicos, Lula já disse que a média mensal da criação de empregos, em seu governo, corresponde a 13 vezes à do período em que o antecessor, Fernando Henrique Cardoso, esteve no poder. Dá-se de barato, por não interessar ao marketing oficial, que a conjuntura internacional na época não era a mesma de hoje, com crises financeiras intermitentes, e que foi pela consolidação da estabilidade econômica então lograda que o governo Lula pôde colher esse e outros resultados positivos. Fala mais alto a compulsão em contar vantagens sobre o passado, numa atitude de quem prefere manter-se no palanque a administrar, interessado desde o primeiro dia em garantir um segundo mandato.
Pois agora fica-se sabendo que o número apregoado é falso. No cálculo dos 3,7 milhões de empregos, e até mais, o governo enfiou de tudo, da efetiva criação de postos de trabalho a meras regularizações da carteira profissional. Segundo o professor José Pastore, da USP, tido por muitos como o maior especialista do país na área, "cerca de 45% dos empregos que tiveram carteira assinada são empregos já existentes, que receberam registro nos últimos três anos".
O esclarecimento da questão, ou a denúncia da mentira governamental, se se preferir, está na coluna de Janio de Freitas, do jornal Folha de S. Paulo de hoje. Clique aqui para ler a íntegra do texto, caso seja assinante do jornal ou do portal UOL.
Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 17h26
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Pizza a granel
O deputado
Ricardo Izar (PTB-SP), presidente do Conselho de Ética da Câmara, manifesta-se
inconformado, assim como seu colega Osmar Serraglio (PMDB-PR), relator da CPI
dos Correios, com o aparente acordão feito por muitos de seus pares para
alimentar com generosas fatias de pizza os onze acusados restantes do escândalo
do Mensalão. Diante da atitude do plenário da casa, que absolveu um réu confesso
de ter recebido dinheiro do valerioduto como o deputado Romeu Queiroz (PTB-MG),
apesar da cassação recomendada pelo Conselho, Izar diz que passará a conversar
com as lideranças de partidos para reforçar as decisões tomadas pelo órgão que
preside.
É difícil
acreditar, contudo, que esse seu declarado esforço pessoal leve a algum
resultado prático. A inominável absolvição de Queiroz, pela desfaçatez com que a
maioria dos deputados agiu, valendo-se do anonimato propiciado pelo voto
secreto, revela de modo indesmentível a força dos pizzaiolos na Câmara. Nesse
ambiente impregnado pelo cheiro da mozzarèlla, já se dá como certo que o petista
Professor Luizinho e outros deputados cujos processos de cassação estão em fase
de conclusão no Conselho de Ética serão os próximos a se livrar da guilhotina.
No caso de Luizinho, apresenta-se como maior argumento em sua defesa o fato de
ele ter embolsado módicos 20.000 reais do valerioduto, quando até Queiroz, que
levou uma bolada de 452.000, foi considerado inocente pela maioria do plenário
da casa.
Crime é crime,
sem importar o valor pecuniário envolvido. Mas qualquer argumento vale, quando
se trata de mascarar a falta de vergonha.
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 00h22
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Escolha complicada
Embora se dê a
candidatura do presidente Lula à reeleição como favas contadas e o PT já se
movimente para preparar uma proposta de programa de governo para o segundo
mandato, muita água deverá rolar por debaixo da ponte até que candidato e
partido acertem seus ponteiros para a largada na campanha. De um lado, como se
pode ler em reportagem publicada hoje no jornal O Estado de S. Paulo, Lula anda
agastado com críticas recebidas de dirigentes do partido, em especial do
secretário-geral Raul Pont, representante das alas mais à esquerda que ganharam
musculatura no Diretório Nacional, nas últimas eleições internas. De outro,
essas mesmas correntes petistas condicionam o apoio a ser dado ao candidato ao
abandono da atual política econômica ortodoxa e ao afastamento dos partidos
conservadores que ainda integram a base de apoio do governo.
Não se trata de
questão simples de resolver. O escândalo do Mensalão, além de afundar o partido
em dívidas, esfacelou o esquema de sustentação política do governo, tornando
improvável a repetição das mesmas alianças não só para a campanha como também
para um novo mandato de Lula. É irônico, diante dessa circunstância, que por uma
questão programática o PT tenha de defender a verticalização partidária nas
próximas eleições. Se essa regra não for derrubada no Congresso, as coligações
do partido poderão reduzir-se a um mínimo franciscano, com agremiações de
representação nanica ou bastante limitada, como o PCdoB e o PSB, já que para o
PP, o PL e mesmo o PTB, com estruturas maiores, é mais interessante a esta
altura procurar companhia menos visada e eleitoralmente mais produtiva do que o
PT pós-Mensalão.
Mesmo que a
oposição lhe faça o favor de acabar com a verticalização, o PT continuará no
mato sem cachorro, porque seu trabalho de reconstrução de imagem passa,
necessariamente, pelo resgate pleno da bandeira socialista que antes empunhava,
ou seja, pela recuperação da identidade perdida. Nesse sentido, é fora de dúvida
que Raul Pont encarna, quilômetros à frente do presidente do partido, o deputado
Ricardo Berzoini, o guia que poderá conduzir o PT no caminho da reconstrução.
Mas se assim é,
o grande desafio passa a ser a compatibilização do discurso com o apoio ao
candidato Lula. Este não pode renegar a política econômica que praticou, durante
pelo menos três anos de seu primeiro mandato, nem rasgar a 'Carta ao Povo
Brasileiro' que assinou em 2002 para afastar desconfianças de eleitores e
investidores para chegar ao poder. Presume-se, portanto, que ficará onde já
está, imóvel como a montanha de Maomé. Nesse caso, o que fará o PT: procurará
outro candidato ou caminhará até a montanha, imitando o profeta? A primeira
alternativa lhe permitirá resgatar uma parte da imagem perdida, mas ao preço de
uma derrota certa nas urnas. A segunda lhe aumenta as chances eleitorais, mas ao
preço de uma perda talvez irrecuperável de credibilidade. Está aí um dilema
cruel.
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 21h01
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Escudo humano
A falta de educação é a nova norma
seguida por integrantes do governo, não se sabe por ordem de quem, para
responder a críticas e cobranças da oposição. Ainda ontem, diante da reclamação
do governador paulista, Geraldo Alckmin, contra a falta de estadualização e de
investimentos federais na BR-153, rodovia que liga São Paulo a Minas Gerais e ao
Paraná, quem respondeu não foi o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento,
como seria de esperar, mas sim sua assessoria de Imprensa. Hoje, quem procurou
desqualificar uma denúncia contra a direção da Caixa Econômica Federal não foi o
presidente da entidade, Jorge Mattoso, como seria natural, mas sim seu
vice-presidente financeiro, Fernando Nogueira.
Este, em entrevista coletiva, talvez para agradar ao chefe exorbitou na missão recebida:
acusou o senador Álvaro Dias, do PSDB do Paraná, de quebra de decoro parlamentar
pelo vazamento de informações do relatório preliminar em que o Tribunal de
Contas da União, TCU, afirma que a direção da Caixa favoreceu o banco mineiro
BMG numa operação de compra de sua carteira de crédito consignado. O senador
rebateu. "Quem mostrou o relatório antes de concluído foi a imprensa, e não eu",
disse.
A pergunta que
se pode fazer é a seguinte: quem é esse senhor Fernando Nogueira, salvo engano
um ilustre barnabé desconhecido, para acusar um senador da República de quebra
de decoro? Pior ainda agiu o presidente da Caixa, Mattoso, que ao invés de
assumir o comando, como a situação exigia, escondeu-se atrás de um subalterno
para não ter de dar explicações aos jornalistas.
Quanto ao outro
caso de omissão, o do ministro Nascimento – que nem a atual operação tapa-buraco
anunciou, tendo sido substituído na ocasião pela ministra da Casa Civil, Dilma
Rousseff -, os auxiliares escalados para responder ao governador Alckmin também
escorregaram no sabonete. Nogueira, da Caixa, além de exorbitar de suas funções
lançou uma acusação sem prova contra o senador Dias. Já os
jornalistas-assessores do ministro Nascimento, desinformados, afirmaram o
seguinte em sua nota oficial: "3. O processo de estadualização de rodovias, do qual reclama o governador por não ter
atendido pleito de São Paulo, com amparo da Medida Provisória nº 82/2002, foi
realizado no final do ano de 2002, portanto no mandato do Presidente Fernando
Henrique Cardoso."
Acontece que o projeto de lei de conversão da MP foi integralmente vetado pelo presidente
Lula em maio de 2003, sob alegação de contrariar o interesse público. A MP,
portanto, não está em vigor. Por isso, a assessoria quebrou a cara ao querer
chamar o governador Alckmin de ignorante.
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 20h04
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Charge racista
Este blogueiro encaminhou hoje a seguinte carta à seção Fórum dos Leitores, do jornal O Estado de S. Paulo, a propósito de charge de Loredano sobre o ministro Gilberto Gil, publicada na página 2:
Sr. editor,
Lamentável, revoltante e injustificável a charge publicada hoje na página 2, de autoria de Loredano. Não se admite que um jornal da seriedade e da responsabilidade do Estadão dê azo a uma rasteira manifestação de intolerância racial como essa, e ainda por cima em página nobre.
A injúria cometida não atinge apenas a figura pública do ministro Gilberto Gil - de resto, digna do maior respeito, por tudo o que ele já fez pela cultura brasileira como artista e intelectual-, mas, ainda mais grave, o ser humano Gilberto Gil e toda a comunidade da raça negra, à qual o Brasil deve um incomensurável tributo pelo muito com que contribuiu para a formação da nacionalidade e pelo menosprezo que historicamente recebeu em troca.
Medidos pelas respectivas importâncias no cenário artístico e cultural nacional, o chargista Loredano, que põe a nu sua asquerosa ética nazista, não passa de um anão perto do cantor e compositor Gilberto Gil. Deveria, portanto, estar recolhido à sua própria insignificância, e não sair por aí, usando o poder da imprensa para achincalhar pessoas que lhe são, no mínimo, eticamente superiores.
Mas o que realmente me desaponta é que um jornal como o Estadão, do qual sou leitor e admirador há muitos anos, sirva de veículo e dê guarida a tamanha manifestação de indigência intelectual e moral.
Categoria: Outros assuntos
Escrito por Dom Quixote às 12h35
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Caetano contra Gil
Está na coluna de Mônica Bergamo, na Folha Ilustrada de hoje: Caetano Veloso investe contra o Ministério da Cultura, dirigido por seu conterrâneo e companheiro Gilberto Gil. Caetano tomou as dores do poeta Ferreira Gullar, chamado de stalinista por Sérgio Sá Leitão, assessor de Gil como secretário de Políticas Públicas, por ter criticado a gestão do MinC.
Sérgio Sá Leitão escreveu: "Por fim, deixo uma pergunta: por que a crítica de Gullar é um gesto democrático, e a crítica a Gullar, um ato de autoritarismo?". Eu respondo: porque a crítica a Gullar partiu do poder público. O Ministério da Cultura é governo, ministérios são braços do executivo, suas aprovações ou desaprovações são oficiais. Um poeta não pode expurgar um governo. Governos totalitários são viciados em expurgar poetas. Se um ministério demonstra não aceitar críticas - pior: exige adesão total a suas decisões -, estamos sim a um passo do totalitarismo; se um poeta expõe de público discordância - ou simples desconfiança - dos rumos de um ministério, temos democracia", diz Caetano, em sua carta aberta. Ele se refere ainda à "retórica demagógica dos tempos da Ancinav" e afirma que "essa gente do governo anda para trás".
A corajosa atitude do poeta, cantor e compositor baiano, ao se insurgir contra a gestão pública de um companheiro que, para ele, é como um irmão, por ter compartilhado não só o movimento da Tropicália como também o exílio em Londres durante a ditadura, contrasta vivamente com a omissão de outro luminar da música brasileira, Chico Buarque de Hollanda. Este, ao contrário de Caetano, só por ter abraçado a bandeira do PT mantém-se até hoje em "obsequioso silêncio", tal como pregado pela filósofa Marilena Chauí, muito embora se possa presumir que esteja indignado, tanto quanto outros intelectuais honestos, com o mar de lama lançado por seu partido sobre o país. Também nunca se ouviu um "a" dito por ele contra o malfadado projeto da Ancinav, tão atentatório à democracia quanto o outro, o do Conselho Federal de Jornalismo, com o qual o governo Lula tentou cercear a liberdade de imprensa.
Clique aqui para ler a íntegra da carta aberta de Caetano Veloso.
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 10h59
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TCU acusa Mattoso, da CEF
O laudo de uma auditoria realizada pelo Tribunal de Contas da União, TCU, revela que o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, junto com seus diretores, praticou ato de improbidade administrativa ao decidir comprar, a toque de caixa, por 1,09 bilhão de reais, a carteira de crédito consignado do Banco de Minas Gerais, BMG, que ao lado do Banco Rural supriu o valerioduto montado pelo PT para financiar partidos e políticos da base aliada do governo. A operação rendeu, segundo o laudo, um lucro imediato de pelo menos 119 milhões de reais ao BMG.
"A celeridade na tramitação do processo do BMG e de suas demandas, aliada às condições de negociação e aos ótimos resultados atingidos pelo BMG, em detrimento da Caixa, denota claro favorecimento à instituição financeira, (...) o que, por si só, macula todo o processo de aquisição de créditos consignados pela empresa [Caixa] desde a sua origem", diz um trecho. O laudo, depois de analisado pelo plenário de ministros do TCU, deverá ser remetido à CPI dos Correios e também ao Ministério Público Federal, segundo informa o repórter Rubens Valente, da sucursal de Brasília do jornal Folha de S. Paulo. A auditoria foi provocada por um requerimento apresentado à presidência da CPI pelo senador Álvaro Dias, do PSDB do Paraná.
Caso a denúncia seja comprovada, a operação configurará mais uma via, além das várias já identificadas, de uso do dinheiro público para fins escusos, em todo esse escândalo de corrupção que vem sendo revelado desde maio do ano passado. Clique aqui para ler a íntegra da notícia.
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 06h27
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Eixos e interesses
Festivamente recebido pelo colega Hugo
Chávez, em Caracas, assim como já o fora pelo ditador Fidel Castro, em Havana, o
presidente boliviano eleito Evo Morales disse ontem o que pretende fazer à
frente do novo governo. "Vamos mudar a Bolívia", afirmou, depois de descer do
Airbus cubano que Fidel colocou à sua disposição.
Minutos antes, Chávez havia dito que ele, Morales e o ditador
cubano formam o "eixo do bem", em oposição ao "do mal", constituído pelo governo
americano e aliados. Foi, mesmo tardia, uma resposta indireta ao presidente
George W. Bush, que para justificar a invasão do Iraque arrolara Saddam Hussein
e o déspota norte-coreano Kim Jong II como formadores de uma por ele suposta
frente desse tipo. Por sinal, Chávez se mostra vivamente interessado num acordo
de cooperação técnica com a Coréia do Norte, que já domina as etapas de
fabricação da bomba atômica. Para completar, o presidente venezuelano afirmou
que ajudará Morales, no que for possível, a cumprir o programa de dez pontos de
seu partido, o MAS, Movimento para o Socialismo, "pelo resgate da dignidade da
Bolívia".
Discursos grandiloqüentes, o modo de comunicação por excelência do
populismo, costumam não ser levados muito a sério, mas no quadro político atual
do subcontinente americano eles podem produzir conseqüências. No que se refere
ao Brasil, por exemplo, é preocupante a disposição manifestada por Morales de
imitar Chávez, nacionalizando a indústria de gás e petróleo em seu país.
Se na Venezuela os interesses econômicos brasileiros são quase
inexistentes, na Bolívia a Petrobrás já aplicou perto de 2 bilhões de dólares na
compra de duas refinarias e na construção do gasoduto que sai de Santa Cruz de
la Sierra e chega até o Rio de Janeiro e São Paulo. O Brasil é, junto com a
Espanha, o principal investidor estrangeiro nesse segmento essencial para o
crescimento boliviano.
A questão, portanto, está em saber como Morales pretende levar a
cabo seu projeto. Se for pela encampação pura e simples da indústria pelo
Estado, o prejuízo financeiro pode ser grande para a Petrobrás e, por extensão,
para o Brasil. E há razões concretas para se temer por esse desfecho, porque boa
parte dos bolivianos nutre um secular ressentimento contra o "imperialismo
brasileiro", sobretudo em regiões limítrofes como Santa Cruz, vizinha da cidade
de Corumbá, no Mato Grosso, onde há muitos anos se convive com uma invasão de
produtos fabricados no país.
Diante do risco iminente para os interesses nacionais, convém
acompanhar atentamente o que fará o governo Lula. Continuará nessa troca de
beijos e abraços, querendo fazer parte do eixo de esquerda no subcontinente, ou
convidará Morales a conversar sobre negócios?
Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 05h33
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Alforria para quê?
A quitação antecipada da dívida
argentina com o Fundo Monetário Internacional, FMI, confirmada ontem, foi
apresentada ao país como uma grande realização do governo Néstor Kirchner. "Este
pagamento permite iniciar uma nova etapa, na qual os argentinos poderão decidir
sem muitos questionamentos as políticas que levarão adiante", comemorou a
ministra da Economia, Felisa Miceli, em entrevista coletiva convocada para
anunciar o feito. "Portanto, hoje é um dia de grande satisfação."
Ao desembolsar 9,5 bilhões de
dólares em DES, Direitos Especiais de Saque, a unidade monetária utilizada pelo
Fundo, para zerar a conta com o organismo reduzindo as reservas do país em mais de um terço,
de 28,1 para 18,6 bilhões de dólares, Kirchner segue portanto o exemplo de Lula.
Este também decidiu liquidar antes do tempo a dívida contraída pelo Brasil com o
imaginado, pelas esquerdas retrógradas, leviatã das finanças internacionais. Mas
como, por aqui, a notícia não causou a comoção popular esperada, a alforria,
pela qual o país pagou 15 bilhões de dólares em dezembro – quando poderia usar
melhor essa dinheirama, por exemplo, reconstruindo estradas em petição de
miséria, em vez de fazer uma mera operação tapa-buraco como a que o governo
agora anuncia -, é trombeteada a todo momento por dirigentes e militantes
petistas.
Um dos mais notórios, o ex-presidente do
partido Tarso Genro, escreveu na Folha de S. Paulo do dia 29 passado o seguinte: "Na
medida em que passarmos a indicar de forma clara (após nossa
liberação da tutela do FMI) as políticas de "transição" para um modelo de altas
taxas de crescimento, mais justo e distributivo, a disputa política não ficará
mais entre os que se "iludiram" com o PT e os donos da ética nacional. Nos
debates eleitorais não aparecerão nossos erros em todas as primeiras páginas e
nossas virtudes em notas de pé de página".
No texto de Genro e na fala da ministra argentina pode ser
identificada a mesma irresponsabilidade da idéia-matriz, qual seja, a de que sem
o FMI a vigiar as contas públicas os governos de esquerda estão livres para
gastar o que quiserem em suas políticas pretensamente sociais. Com tal
raciocínio, suprema ironia, os defensores da tese acabam por coonestar o papel
desempenhado pelo organismo, que logicamente cuida em primeiro lugar dos
interesses de quem o sustenta, ou seja, dos países ricos, com seus banqueiros
podres de ricos.
O FMI, que de bobo não tem nada, só empresta dinheiro pela metade
do preço dos bancos privados para poder, em troca, meter o bedelho nos assuntos
internos dos países pobres. E se cuida de sanear-lhes as finanças é porque
objetiva, com isso, que eles voltem a ser bons pagadores da banca internacional,
ao invés de ficar ameaçando com calotes a cada novo governo populista elevado ao
poder.
Os bancos, por seu turno, têm no FMI uma espécie de guia
espiritual. Quando o organismo atua, firmando acordos com os países devedores,
exultam, porque vêem nisso a garantia de que terão seu dinheiro de volta depois
de algum tempo. Quando ele não atua, põem as barbas de molho, e passam a seguir
com muito mais atenção a política econômica do país, em particular no que se
refere aos controles fiscal e monetário e ao desempenho das contas externas.
Os governos Kirchner e Lula podem, portanto, cantar vitória neste
momento. Mas se pensam que a libertação do jugo do FMI é definitiva estão muito
enganados. Cedo ou tarde, a política populista e irresponsável fará com que o
país volte ao organismo, de pires na mão.
E quanto ao advogado Genro, aproveite-se o ensejo para perguntar:
que refundação é essa que ele defendia, se o PT limitou-se a expulsar apenas seu
ex-tesoureiro nacional? Basta livrar-se de um, entre centenas de milhares de
dirigentes e militantes no país, e a despeito dos bilhões de reais desviados do
Estado, para o partido recuperar a pureza perdida?
Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 03h53
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Conserto de lâmpada
Que todos os caminhos deste novo ano estejam iluminados (Arranging the Lamp, por Alejandro Milan).
Categoria: Outros assuntos
Escrito por Dom Quixote às 04h26
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