DOM QUIXOTE

Mário Watanabe, jornalista e cultor de generalidades, oficial da Ordem do Cavaleiro da Triste Figura, corintiano desde criancinha



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Notícia-bomba

Durante a homenagem prestada ao caseiro Francenildo dos Santos Costa pela Ordem dos Advogados do Brasil, OAB, ontem, em São Paulo, o deputado Fernando Gabeira, do PV do Rio de Janeiro, fez uma denúncia de grande gravidade, que se for comprovada pode levar a um processo de impeachment do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo Gabeira, uma notícia do próprio dia de ontem (não disse de que órgão de imprensa) dava conta de que os demitidos ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, tramaram a violação do sigilo bancário de Francenildo em encontro ocorrido dentro do Palácio do Planalto.

Caso a notícia citada pelo deputado seja verdadeira – o que não é difícil de checar, por meio do registro de entrada de pessoas no Palácio -, está aí uma verdadeira bomba. O detalhe do encontro no Planalto, e não em outro lugar qualquer, como o gabinete do ex-ministro no prédio do Ministério da Fazenda, faz toda a diferença. Ele aproxima o escândalo, perigosamente, do presidente da República.

O vídeo do pronunciamento de Gabeira pode ser visto no UOL, clicando-se neste link, para assinantes.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 07h15
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Palocci quando esteve na CPI dos Bingos, em janeiro, com o secretário executivo Murilo Portugal (foto José Cruz/Abr)

Na hora certa

Antes de o ex-ministro Antonio Palocci submergir no anonimato, duas coisas devem ser ditas a respeito dele, por imperativo de consciência. Ele caiu por estar envolvido nas denúncias de corrupção levantadas contra a sua turma de Ribeirão Preto quando ocupou a Prefeitura da cidade e depois, por mentir a uma CPI e, sobretudo, por ser cúmplice na violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa. Mas:

1. Ao contrário de seus colegas petistas, inclusive do presidente Lula e do novo ministro da Fazenda, Guido Mantega, sempre teve a hombridade de reconhecer que os méritos pela melhora dos fundamentos econômicos do país não são apenas do atual governo, mas também dos anteriores. Até em seu discurso de despedida do cargo, anteontem, voltou a afirmar: "Esse caminho foi construído por muitos, neste e em outros governos, por brasileiros da maior qualidade humana, política e moral".

2. Sem quadros qualificados para propor novas soluções, teve a sensatez de manter a política econômica herdada do governo Fernando Henrique Cardoso, baseada na geração de superávits fiscais primários, no regime de metas de inflação e no câmbio flutuante. Foi com essa política, herdada e não criada por ele e sua equipe, que fez o que fez, a ponto de merecer o respeito da comunidade financeira internacional e ser festejado internamente, no governo, como "o melhor ministro da Fazenda da história do país". Quem se aventurou a dar essa definição, vejam só, não foi nenhum de seus colegas de partido, mesmo porque isso contrariaria a cartilha rezada pelo PT. Afinal, eles sempre condenaram os juros altos e os superávits primários de sua gestão, em parte por se verem privados de ampliar a sinecura petista e os gastos clientelistas com recursos públicos, e em parte pela completa ignorância a respeito do que seja uma política econômica responsável. Quem tomou a iniciativa de qualificar assim o ainda ministro Palocci foi seu colega da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. Até onde se sabia, Bastos era apenas um craque como advogado criminalista, capaz de livrar das agruras da prisão clientes com posses suficientes para pagar seus caros honorários. Fez fortuna com esse talento. Por isso, causou espanto a revelação de seu vasto conhecimento de história econômica, que o levava a nomear sem hesitação o melhor ministro em cinco séculos do país.

Asneiras como essa do ministro Bastos são relevadas por comuns, embora a declaração tenha induzido até o presidente da República a tentar atenuá-la, ao afirmar na saudação de despedida a Palocci que ele, Lula, não saberia dizer quem foi o melhor ministro da Fazenda da história do Brasil. De mais a mais, a intenção foi simpática. Não se pode condenar ninguém por falar bem de um colega.

O problema é quando bobagens desse jaez saem da boca do agora ministro da Fazenda Mantega, como ocorreu na entrevista coletiva dele logo após a posse. O cenário róseo desenhado por ele, ao se referir às condições atuais da economia, pode ser o de algum outro país, nunca do Brasil. Palocci, médico de formação, mostrava melhor conhecimento do assunto do que o economista Mantega. Tanto isso é verdade que sua saída do governo coincide com o surgimento dos primeiros sinais de descontrole na área fiscal.

O superávit primário caiu de 5,38% do PIB, no primeiro bimestre do ano passado, para 2,43% no mesmo período deste, portanto a menos da metade. O déficit nominal (com o pagamento dos juros da dívida pública incluído) cresceu de 2,93% para 7,33%. E enquanto as receitas do Tesouro aumentavam apenas 9,7%, as despesas deram um salto de 17,0%.

Nenhuma surpresa. A farra de gastos foi liberada em fins de 2005 pelo presidente Lula, de olho nas eleições deste ano. Para quem, como Palocci, ficou mais de três anos tentando segurar o excesso de gastos, por saber dos problemas que isso acarreta no futuro, e acabou derrotado pela turma irresponsável capitaneada pela ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, era mesmo a hora de sair. Com ou sem o caso Francenildo.



Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 04h30
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Chico Alencar (à direita) e outros parlamentares com o abaixo-assinado (foto Wilson Dias/Abr)

Pelo voto aberto

Representantes de diversos partidos lançaram na tarde de ontem, no Salão Verde da Câmara dos Deputados, a Frente Parlamentar pelo Fim do Voto Secreto. E o fizeram com estardalhaço, estendendo seis lençóis brancos pintados com uma bandeira brasileira estilizada e com um total de cerca de 15.000 assinaturas de eleitores favoráveis à medida. Segundo o deputado Chico Alencar, do PSOL do Rio de Janeiro, um dos líderes da coleta do abaixo-assinado, a solenidade de ontem marca o início de um trabalho em âmbito nacional para mobilizar a sociedade e pressionar o Congresso pela adoção do voto aberto nas decisões em plenário. "É hora de tirar os lençóis que cobrem as votações secretas", disse. "Os lençóis do povo são para descobrir os votos do Parlamento."

Matéria controversa, o fim do voto secreto não é uma unanimidade dentro dos partidos, da oposição ou da situação. O senador Jefferson Peres, do PDT do Amazonas, por exemplo, é totalmente favorável à medida. "O voto secreto é o voto da covardia", afirmou ontem. Já o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio, também do Amazonas, defende a adoção parcial da medida, como nos julgamentos de processos de cassação de parlamentares. Mais conservador ainda é o líder do PFL, partido aliado ao PSDB, senador José Agripino Maia, do Rio Grande do Norte. Este diz que se trata de uma questão que precisa ser "profundamente debatida" antes de uma decisão. Já o primeiro vice-presidente do Senado, Tião Viana, do PT do Acre, justamente o tipo de político de quem não se poderia esperar uma iniciativa nesse sentido, dois anos atrás apresentou uma proposta de emenda constitucional para acabar com o voto secreto no Congresso. "Na época, quase fui massacrado em plenário por causa dessa proposta", comentou ele ontem, de acordo com relato da Agência Brasil, do governo. Viana é aquele mesmo parlamentar que obteve do Supremo Tribunal Federal a ordem para impedir o caseiro Francenildo dos Santos Costa de depor perante a CPI dos Bingos, há cerca de duas semanas.

Controversa ou não, está mais do que na hora, como disse Alencar, do PSOL, de o Congresso fazer algo a respeito, pelo menos para diminuir a quantidade de escândalos propiciados pelo anonimato ao plenário da Câmara. O exemplo maior é a sucessiva absolvição de deputados que são réus confessos de receber dinheiro do valerioduto, ocorrida nos últimos meses.

Ganham os eleitores e a democracia se a atuação dos parlamentares puder ser vigiada mais de perto, e perdem os políticos pusilânimes e venais. Com seu poder de fiscalização aumentado, a população que sustenta 513 deputados e 81 senadores poderá até tolerar manifestações impudicas como a da deputada Angela Guadagnin, de São Paulo, que saiu dançando no plenário para comemorar a absolvição do colega petista João Magno, de Minas Gerais. Chamada às falas pela direção do Conselho de Ética, do qual faz parte, disse que apenas manifestava sua alegria, sem querer escarnecer da opinião pública. Em dado momento, queixou-se das pressões da imprensa dizendo que se tornara um alvo de críticas por ser gorda, não tingir os cabelos e pertencer ao PT. Esqueceu-se de que ali se discutia o respeito ao decoro parlamentar, ou seja, a manutenção da respeitabilidade pública. Não falava para jurados de um concurso de beleza.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 10h32
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Resposta à Folha

O jornalista Reinaldo Azevedo refuta no site da revista Primeira Leitura, seguramente um dos mais combativos da internet em língua portuguesa, a notícia dada no domingo pelo jornal Folha de S. Paulo de que o periódico que ele dirige teria sido um dos órgãos de imprensa favorecidos pela propaganda da Nossa Caixa, por atender a interesses do governo paulista do PSDB. Ontem, por sinal, o PT tentou criar, sem sucesso, uma CPI na Assembléia Legislativa estadual para a investigação do assunto, como já o fez em mais de 60 outras ocasiões no governo tucano. Na oposição o partido continua aguerrido como antes, como se nada tivesse mudado com o escândalo do Mensalão.

Segundo Azevedo, o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, fundador e colaborador do site, desligou-se deste antes do período no qual a revista teria sido favorecida pelo banco estatal paulista. O jornalista diz também que pessoalmente defendia a indicação de José Serra como candidato do PSDB à Presidência da República, em lugar do governador Geraldo Alckmin, ao contrário do que acabou acontecendo. Não haveria, portanto, razão para o governador privilegiar a sua revista. Acrescenta que não conhece nenhum dos deputados da Assembléia Legislativa, o que inclui aqueles citados pelo jornal como supostos indicadores das publicações a serem beneficiadas na destinação das verbas de propaganda do banco. Eis um trecho do que ele escreveu, junto com o colega de redação Rui Nogueira, em nota postada no próprio dia 26 em que saiu a reportagem da Folha:

"O leitor precisa saber: nestas horas, um ou outro anunciante podem ficar temerosos: “Não é aquela revista do Alckmin? E se o Lula ganhar?” O Departamento Comercial de Primeira Leitura já tinha pronta uma nova proposta para ser enviada à Nossa Caixa. É o que fazem todas as publicações do mundo: procuram anunciantes. Melhor rasgar. Afinal, uma revista de “política, economia e pensamento”, com 25 mil exemplares, tida até por seus inimigos como das mais bem escritas do país, e um site diário, com uma média mensal de 1,5 milhão de page views, só podem contar com o anúncio de um banco estadual se estiverem metidos em alguma safadeza.

Com ou sem revista, com ou sem site diário, no formato que tem hoje ou em outro qualquer, Primeira Leitura não vai morrer. Não vai deixar de dizer o que diz. Há cinco anos estamos por aí, combatendo aquele mesmo espírito totalitário identificado no editorial da própria Folha neste domingo. Por todas as razões que lá estão expostas e também porque entendíamos que o país precisa de um outro rumo — político, econômico e até institucional —, consideramos que José Serra era a melhor opção para a Presidência da República.

Outro foi o caminho escolhido pelo PSDB. O governador Geraldo Alckmin não precisa pagar as nossas contas para que digamos, agora, com a mais absoluta clareza: que vença a disputa pela Presidência da República! Os eventos recentes envolvendo Francenildo Costa não deixam espaço para reticências ou hesitações."

Clique neste link para ir ao site Primeira Leitura.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 07h42
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Mentiras sobre mentiras

Quanto mais a direção e assessores da Caixa Econômica Federal tentam defender a instituição acusada de violar o sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa, numa manifestação de corporativismo que só fez crescer depois do aparelhamento promovido pelo PT, mais a tentativa de acobertamento dos mandantes do crime se desnuda.

Ontem, no dia seguinte à demissão inglória do economista Jorge Mattoso da presidência, por estar diretamente envolvido no crime perpetrado contra o caseiro, uma rede de TV noticiou que para a Caixa não haveria nada demais no fato de comunicar as movimentações financeiras de Francenildo ao Coaf, Conselho de Controle de Atividades Financeiras, um órgão incumbido de investigar suspeitas de lavagem de dinheiro, porque desde o começo do ano somam 55 as iniciativas com o mesmo sentido tomadas pela instituição. Trata-se de uma justificativa que, se pode ser verdadeira quanto ao número, é mentirosa na ilação que dele se tenta retirar.

Tal convicção se forma pelo cotejo das informações. A Caixa tem, segundo revela em seu site, 23 milhões de contas de poupança. Não detalha se são também 23 milhões os titulares, ou se esse número se refere apenas às contas abertas por data-base. Como se sabe, no sistema das cadernetas de poupança cada depósito feito num mês, em dia diferente do mês anterior, é registrado como nova conta, porque os rendimentos são creditados de forma separada e não pelo saldo total dos depósitos. De qualquer forma, a conta de Francenildo, com dois ou três depósitos realizados, é uma gota no oceano ou um grão de areia no deserto, conforme se preferir, diante do volume de correntistas da Caixa.

Todas as instituições financeiras são, por lei, obrigadas a comunicar ao Coaf movimentações atípicas, para coibir o crime de lavagem de dinheiro. Ocorre que, como apenas os depósitos feitos em caderneta ao longo de um ano chegam a bilhões no conjunto do sistema bancário, e como se supõe que bandido nenhum se dará ao trabalho de lavar quantias irrisórias, estabeleceu-se um piso a partir do qual o Coaf deve ser informado. Esse piso é de 100.000 reais, muito acima, portanto, dos depósitos parcelados feitos por Francenildo ou seu pai biológico, o doador do dinheiro. Logo, não era o caso de a Caixa, por meio de seu ex-presidente, aboletar-se a mandar o extrato do caseiro nem para o órgão fiscalizador nem, muito menos, para o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Digamos que, por amor ao zelo, a exemplar instituição Caixa Econômica Federal, sob o comando do exemplar presidente Mattoso, quisesse ser mais realista do que o rei e baixasse por conta própria o piso para 10.000 reais. Nesse caso, Francenildo estaria dentro. Mas não seriam apenas 55 os comunicados ao Coaf desde o começo do ano. Seriam dezenas ou centenas de milhares.

Há também a questão das coincidências. Primeira: o extrato foi tirado dos computadores da Caixa por volta das 21 horas do dia 16, uma quinta-feira. Nessa mesma hora e dia, Francenildo estava na Polícia Federal pedindo proteção de vida, e depois relatou que um agente da força se ausentou da sala de audiência com seu cartão bancário e outros pertences por cerca de 20 minutos. Tudo bem que isso não tenha passado de coincidência mesmo, o que isentaria a Polícia Federal de envolvimento na quebra do sigilo. Mas o mesmo não pode ser dito das demais. Segunda: Mattoso sustentou em sua carta de despedida que foi avisado por subalternos das movimentações atípicas. Ora, quando se lida com 23 milhões de contas, se tudo não passou de coincidência, só através do sistema de informática do banco poderia ter soado o primeiro alarme. Na Caixa trabalham mais de 100.000 empregados, mas nem essa multidão seria suficiente para acompanhar tantas contas, diariamente. Terceira: com 23 milhões de contas, que incrível coincidência seria essa de apenas a de Francenildo ser apontada pelo sistema de informática? E justamente no dia em que ele foi à CPI dos Bingos para reafirmar que o ministro Palocci era freqüentador assíduo da tal casa de Brasília, onde ele, Francenildo, trabalhava? E quarta: por que só o extrato do caseiro foi parar na revista Época, para esta divulgá-lo para o público no dia seguinte, servindo de bom grado de instrumento à tentativa de intimidação de uma testemunha de acusação contra o governo, e não os 55 tirados desde o começo do ano, como diz a Caixa, ou os milhares que ela teria comunicado ao Coaf se o piso de valor houvesse sido realmente rebaixado para 10.000 reais?

Não é preciso nenhuma acuidade para perceber a incongruência desses fatos. Donde se conclui que a Caixa continua a querer fazer a opinião pública de boba.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 06h22
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Sobre a imprensa

Jornais, de um lado, e sites e blogs, de outro, ficando as revistas impressas no meio-termo, diferem entre si por um aspecto essencial: o número de pessoas que os escrevem. Não se trata de mera questão quantitativa, porque o número interfere tanto na qualidade quanto na unidade editorial.

Blogs, salvo raras exceções, são feitos por uma só pessoa. Sites também, na maioria das vezes. Essa característica lhes garante a unidade, embora nem sempre a qualidade. Esta depende estritamente da qualificação do próprio autor dos textos ou apresentações gráficas.

Revistas de periodicidade mensal ou acima disso igualmente revelam unidade, porque em redações pequenas todo o material produzido passa por um controle centralizado em uma ou no máximo duas pessoas, antes da publicação. Quase o mesmo se dá com as de periodicidade quinzenal ou até semanal, porque embora empreguem mais profissionais o comando da redação também é rígido. Unidade, porém, não significa qualidade. Como no caso dos blogs e sites, esta depende da qualificação do corpo da redação, sobretudo de sua chefia. Por lidar com a interpretação dos fatos, muitos deles já noticiados previamente pelos jornais impressos e pela mídia eletrônica em geral, uma revista deposita muito de sua credibilidade nas mãos do diretor de redação.

Já nos jornais de grande circulação, com controle descentralizado, ocorre forçosamente uma certa dispersão, tanto na qualidade – que pode ser elevada em média, pelo número de bons profissionais contratados – quanto na unidade editorial.

Com manuais de redação e detalhamentos da orientação editorial a ser seguida, os grandes jornais tentam diminuir esse handicap. Mas é inevitável haver algum divórcio entre a cúpula e as bases, diante do volume de material reunido e da pressa imprimida ao processo de tratamento, todos os dias. O contrabando ideológico imiscui-se sorrateiramente por aí, já que divergências políticas são naturais num grupo grande de pessoas. É reconhecido, nesse aspecto, que pela suposta maior identificação do partido com as causas populares uma parcela ponderável, senão preponderante, das redações de jornal é simpática ao PT.

Alguns jornais procuram resolver esse problema flexibilizando a linha editorial. Usam para tanto da boa desculpa da isenção jornalística e também somam pontos no quesito do respeito à democracia. Os resultados assim obtidos são questionáveis, porque os leitores ficam sem saber direito em quem acreditar. O denuncismo generalizado, à esquerda e à direita, contém um mal de raiz. Passa para a opinião pública a impressão de que tudo na política é uma bandalheira só, e isso não faz bem à cidadania nem, muito menos, à democracia. Em outras palavras, a intenção pode ser boa, mas não se alcança o objetivo visado, o fornecimento de informações isentas para o próprio público formar seu juízo de valor. E isso ocorre porque, mesmo com a flexibilização da linha editorial, o contrabando ideológico continua a existir. Ao lado dele, como irmã siamesa, viceja a preguiça de muitos profissionais em apurar os fatos com o rigor necessário. Em dúvida, veiculam a notícia assim mesmo. Têm receio de ser furados por outros colegas e aplacam a consciência convencendo-se de estar seguindo o manual de isenção, quando na verdade estão apenas advogando em causa própria. Os leitores que se danem.

Não é preciso citar nomes. Quem acompanha com atenção o noticiário, seja o dos grandes jornais, seja o das revistas de elevada tiragem, sabe identificar a ocorrência desses exemplos de mau jornalismo. Em favor dos órgãos de imprensa, deve ser dito que o conjunto da obra vale mais que um passo em falso. Mas a repetição das escorregadelas, sem dúvida, pode lhes comprometer irremediavelmente a imagem.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 04h25
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Derrota sem glória

A queda do ministro Antonio Palocci, da Fazenda, e de seu subordinado, o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, ocorrida ontem, já era esperada. Um crime como o cometido por ambos, a violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa, não poderia mesmo ficar impune. Para que a reparação perante a sociedade se torne completa, falta ainda o governo mandar parar as investigações em curso contra Francenildo, determinadas à Polícia Federal, na área do Ministério da Justiça – alô, ministro Márcio Thomaz Bastos, quanto tempo vai demorar sua ordem? -, e também ao Coaf, Conselho de Controle de Atividades Financeiras, e à Secretaria da Receita Federal, na área da Fazenda. Quanto a Francenildo, ele tem justificativas de sobra para processar a Caixa Econômica Federal, movendo-lhe uma ação por danos morais com direito a indenização financeira. Espera-se que seu advogado o esteja instruindo nesse sentido.

É pena que até na hora de pagar seus pecados tivesse faltado grandeza aos envolvidos. Segundo se noticia, o presidente Lula aceitou a demissão do antes irremovível ministro Palocci porque foi convencido por assessores palacianos do risco eleitoral que representaria a manutenção de seu principal auxiliar no governo depois do escândalo da divulgação do extrato bancário de Francenildo. A queda de Palocci, assim, ocorre exatamente como ocorreu com a de José Dirceu, o ex-chefe da Casa Civil. Enquanto as denúncias não ameaçavam respingar nele próprio, o presidente fazia em público juras de amor e confiança a um e a outro. Quando o lamaçal começou a exigir-lhe que arregaçasse as calças, não pestanejou em pedir aos auxiliares que saíssem do governo. A pergunta a fazer é: pode um presidente da República tomar decisões de Estado movido apenas por interesses eleitorais?

Palocci e Mattoso não lhe ficaram atrás. Embora o presidente da Caixa tenha dedurado o ministro à Polícia Federal, dizendo que entregara pessoalmente o extrato do caseiro a ele, Palocci se despediu do ministério com suas já tradicionais negativas. "Quero esclarecer que não tive nenhuma participação, nem de mando, nem operacional, no que se refere à quebra do sigilo bancário de quem quer que seja", afirma, em carta dirigida ao presidente Lula. "Reafirmo ainda que não divulguei nem autorizei nenhuma divulgação sobre informações sigilosas da Caixa Econômica Federal. Sou consciente das leis e da responsabilidade do meu cargo. Sou consciente das regras da democracia e do Estado de Direito." O grave é que o agora ex-ministro chama de mentiroso um subordinado direto, até ontem presidente da Caixa.

Este conseguiu fazer até pior. Como se a opinião pública fosse formada por idiotas, diz em sua carta ao presidente que teve acesso, "no pleno e legítimo exercício" de suas funções como presidente da Caixa, "a informações sobre movimentação atípica em conta de cliente". Os parágrafos seguintes da missiva seguem na mesma toada de cinismo:

"Cumprindo meus deveres funcionais e sem que isso de forma alguma representasse quebra indevida de sigilo, determinei, a propósito, a adoção das providências previstas na Lei n.º 9613/98, cujas disposições aplicam-se indistintamente a todas as instituições financeiras.

Assim agindo, na forma da lei acima mencionada, procurei fazer com que a informação chegasse regularmente ao COAF, órgão integrante da estrutura do Ministério da Fazenda e que detém competência legal para conhecer e analisar assuntos dessa natureza. Comuniquei, também, o fato à autoridade superior à qual a CAIXA encontra-se vinculada.

Não fui o responsável pelo vazamento da informação e estou convicto de que nenhum empregado da CAIXA deu causa à divulgação indevida, atuando nos estritos limites da legalidade."

Ora, parabéns, sr. Jorge Mattoso. Que fantástico sistema de informática tem a Caixa Econômica Federal! Quer dizer, então, que 25.000 reais, que não são nenhuma fortuna e ainda foram depositados pelo caseiro Francenildo em parcelas, fazem acender a luz amarela no sistema e chamam tanto a atenção da diretoria do banco que precisam ser comunicados ao ministro da Fazenda e ao Coaf? Este órgão, como o senhor deve saber, tem por obrigação investigar movimentações financeiras de 100.000 reais para cima, e quando solicitado pelos poderes competentes, jamais por conta própria. Não bastaria, portanto, apenas encaminhar a constatação. Se o Coaf se pôs a campo é porque alguém pediu que o fizesse. Aliás, mesmo quando solicitado, o órgão é de uma inutilidade a toda prova. Milhões em dinheiro vivo foram sacados de bancos, no escândalo do Mensalão, e ninguém ouviu um pio do Coaf, nem ficou sabendo de algum deputado ou assessor investigado por suspeita de crime de lavagem de dinheiro.

Além disso, sr. Jorge Mattoso, dos mais de 20 milhões de correntistas com caderneta de poupança da Caixa Econômica Federal, com certeza algumas centenas de milhares depositaram quantias semelhantes à de Francenildo, pelo menos uma vez na vida, por terem vendido uma casa, um carro, uma moto ou recebido dinheiro de outras origens. Durante sua gestão, devem ter sido dezenas de milhares. E o senhor, o que fez: mandou todos esses casos para o Coaf e comunicou ao ministro Palocci? Pobres deles, se tivessem de encarar todo esse trabalho. É evidente que o senhor não fez nada disso. Apenas escolheu a dedo o extrato de Francenildo porque se tratava da conta de alguém que depusera contra o ministro, sobre a freqüência dele à alegre casa de mil lambanças do Lago Sul, em Brasília. Portanto, tenha um pouco mais de respeito para com a inteligência alheia, para não escrever uma carta assim, endereçada a ninguém menos que o presidente da República.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 01h13
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Ir ou não ir

Diz a propaganda da Caixa Econômica Federal: "Vem pra Caixa você também". Diante da divulgação para o Brasil inteiro – inicialmente por meio da revista Época, que não se pejou de fazer o jogo sujo do governo – do extrato do caseiro Francenildo dos Santos Costa, talvez seja arriscado confiar num banco que não garante o sigilo da conta. A próxima vítima pode ser você.

Agora, a Caixa deu também de esconder informações antes tornadas públicas. Para quê? Para se proteger do assédio da imprensa? Para furtar-se de dar esclarecimentos, como vem fazendo frente às investigações determinadas à Polícia Federal no caso Francenildo? Leiam, a propósito, o que o jornalista Ricardo Noblat postou em seu blog, no final da tarde de ontem:

"Curioso.

No site da Caixa Econômica Federal havia uma página com os nomes dos funcionários de escalões superiores.

Se você tentar acessá-la, dá erro. Sumiram os nomes.

Havia uma seção onde você podia digitar um nome de funcionário e ele aparecia com a identificação do cargo que ele ocupa.

A seção desapareceu.

A Caixa mergulhou na clandestinidade."



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 01h12
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Quem difundiu o extrato

"Quem difundiu o extrato bancário do caseiro foi o assessor de imprensa de Palocci, Marcelo Netto. Desde a semana passada, todos os jornalistas sabiam disso. Mas nenhum se animou a denunciá-lo. Marcelo Netto é jornalista. E jornalistas não denunciam jornalistas. Exatamente da mesma maneira que deputados não cassam deputados. O escandaloso acobertamento do nome de Marcelo Netto, porém, foi muito mais do que um simples ato de canalhice ou de coleguismo – foi prejudicial ao próprio trabalho da imprensa. Marcelo Netto tem de ser investigado a fundo. Ele pode explicar a origem dos dados sigilosos sobre o caseiro. Ele pode explicar quando Lula foi informado sobre o caso, se antes ou depois de ser veiculado pela imprensa. Ele pode explicar, por fim, o caminho que o extrato bancário tomou a partir do momento em que foi parar em suas mãos. Um dos filhos de Marcelo Netto, Matheus Leitão, é repórter da Época. O chefe da sucursal da revista em Brasília, Gustavo Krieger, mandou-o correr atrás do material sobre o caseiro. Ele correu. E a Época o publicou. O episódio é ilustrativo dos esquemas de aliciamento, apadrinhamento e cumplicidade do petismo. Um protege o outro. Um defende o outro. Um conluia com o outro. Um contrabandeia mercadoria ilícita para o outro. Toda essa história surgiu porque o caseiro Francenildo Costa não sabia quem era seu pai. O jornalista Matheus Leitão sabe perfeitamente quem é o seu. É Marcelo Netto. Repetindo: Marcelo Netto, Marcelo Netto, Marcelo Netto, Marcelo Netto."

(Diogo Mainardi, em sua coluna na revista Veja que acaba de chegar às bancas)



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 23h14
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Crime sem remissão

"Permitam que eu faça a comparação. Quero saber quem cuidou mais dos pobres neste país."

O desafio foi lançado ontem pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso na festa pelos 100 anos do porto de Vitória, no Espírito Santo.

Resposta: todos os outros presidentes. Nenhum deles esteve à frente de um governo, como o atual, em que todo o aparato coercitivo do Estado é usado para amedrontar um humilde trabalhador que testemunhou contra um ministro da República. Nem o governo do impichado Fernando Collor, quando o motorista Eriberto França surgiu como testemunha-chave das denúncias de corrupção, ousou ir tão longe quanto o atual. Ao invés de proteger o caseiro Francenildo dos Santos Costa, como seria da obrigação de qualquer governo democrático, o do presidente Lula não só afronta a Constituição e os elementares direitos de cidadania com a violação do sigilo bancário da testemunha como também coloca sobre esta a fiscalização, a um só tempo, da Polícia Federal, do Coaf, Conselho de Controle de Atividades Financeiras, e da Receita Federal.

Nunca houve, na história do país (para repetir o bordão caro ao presidente), um trabalhador com salário de 700 reais a sofrer tamanha perseguição do governo, tirando o período negro da ditadura militar, no qual o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho, entre outros, foram mortos em sessões de tortura. Crimes como esse contra o caseiro Francenildo não têm remissão nas democracias, muito menos com esmolas como as do Bolsa-Família. E o pior é que tanto o governo quanto seu partido se dizem "dos trabalhadores". Portanto, senhor Luiz Inácio Lula da Silva, está respondido o seu desafio.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 22h38
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Não furte migalhas

Na idade dela, muitas meninas da classe média ainda se preparam para entrar na faculdade, sonhando com uma carreira de sucesso e uma vida sentimental realizada. De seus planos fazem parte ainda uma família sólida, como a de seus pais ou tios, e o conforto material necessário para dar do melhor aos futuros filhos. Por isso, deixam para depois o casamento - com véu e grinalda, igreja lotada e festa de arromba – e para bem depois a maternidade. Primeiro, querem ganhar dinheiro e ascender na carreira e na condição social.

Com 18 anos, um filho de 2 para criar, a mãe doente para assistir e ainda por cima desempregada, a dureza da vida há muito encurtou os sonhos e a adolescência de Angélica Aparecida de Souza Teodoro. E nada promete ser diferente para ela, de profissão empregada doméstica, no futuro.

Desde novembro do ano passado, Angélica estava presa no 'cadeião' de Pinheiros, zona oeste da capital paulista. Seu crime: furtar um pote de manteiga, no valor de 3,10 reais, da prateleira de um mercadinho. Surpreendida pelo dono do estabelecimento, Dadiel Araújo, que chamou a polícia, explicou na delegacia que furtara para dar de comer a seu filho. Mesmo assim, e a despeito ainda de ser ré primária, seu furto foi qualificado para roubo porque Araújo afirmou ter sido ameaçado de morte por ela – como se tal ameaça, mesmo existindo, fosse crível -, sofreu um julgamento relâmpago e foi parar na cadeia. Pediu habeas corpus, negado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Ontem, finalmente, seu advogado conseguiu uma liminar do Supremo Tribunal de Justiça, STJ, por voto dado pelo ministro Paulo Gallotti. Até o julgamento do mérito do pedido, pelo menos, Angélica poderá estar junto da mãe e do filho.

Na noite anterior à concessão de sua liminar, em Brasília a Câmara dos Deputados livrou mais dois parlamentares da cassação de mandato por quebra de decoro, Wanderval Santos (PL-SP) e João Magno (PT-MG), embora a punição tivesse sido recomendada pelo Conselho de Ética da casa. Se no caso de Wanderval a absolvição pode ser aceita, porque ele foi, ao que tudo indica, usado pelo verdadeiro autor do crime em julgamento, o ex-deputado Carlos (Bispo) Rodrigues (sem partido, RJ), que renunciou para escapar ao processo de cassação, no de Magno o veredito da Câmara foi escandaloso. Ele é réu confesso de ter recebido 426.000 reais do valerioduto, o esquema ilegal de financiamento montado pelo publicitário Marcos Valério, sob os auspícios de seu partido, o PT.

O dinheiro embolsado por Magno em benefício próprio e no de seus comparsas petistas permitiria comprar 137.419 potes de manteiga como o furtado por Angélica. Mas ele não passará sequer um dia na cadeia por conta disso. Ao contrário. Com o futuro político assegurado pela absolvição por seus pares, seguirá com sua boa vida. Mesmo que perca o mandato nas próximas eleições, continuará ganhando o suficiente para passar muita manteiga no pão da família, como professor e consultor. Daí a sua comemoração ao saber do resultado de seu julgamento, compartilhada pela colega de partido Angela Guadagnin, que saiu dançando no plenário, como se escarnecesse da população estarrecida por mais esse vergonhoso episódio ocorrido na Câmara dos Deputados. Angela, a deputada, é filha de família de classe média, médica formada. Nunca precisou enfrentar um drama como o de Angélica, a moça da periferia.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 01h32
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Ética jornalística

O grande jornalista Milton Coelho da Graça propõe aos colegas de profissão, em sua coluna de ontem no site Comunique-se, uma discussão a respeito da ética a ser obedecida num caso como o da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa. Milton lembra que mesmo nos Estados Unidos, a pátria da liberdade de imprensa, uma repórter do jornal The New York Times foi presa por querer preservar sua fonte de informação, quando esta agira com evidente intuito doloso. "Inclui-se em nosso dever ético de proteção à fonte a proteção de uma violação dos direitos constitucionais da cidadania?", pergunta ele.

A íntegra de seu comentário no site, publicado sob o título Até onde vai o direito da fonte à proteção?, segue abaixo:

"A proteção da fonte deve ser respeitada mesmo quando a informação tiver sido obtida criminosamente e que a fonte queira obter vantagem com a divulgação?

Pergunta interessante que coloco não apenas para o editor de ÉPOCA e os repórteres Gustavo Krieger e Andrei Meirelles, mas para toda a comunidade do Comunique-se.

Recentemente, a repórter Judith Miller, do jornal NY Times, decidiu que a proteção de sua fonte estava acima de qualquer outra consideração. O juiz condenou-a por desacato e ela amargou várias semanas no xadrez até que os advogados do New York Times resolveram entregar suas notas (com a revelação da fonte), concordando com a argumentação do juiz. E o argumento era o de que o informante havia cometido um crime ao revelar a identidade de um agente secreto, com a intenção de se beneficiar com essa revelação. E a repórter não podia ocultar um criminoso.

A coisa aqui é ainda mais séria. O sigilo bancário e fiscal não é apenas um artigo do Código Penal, é garantia constitucional a todos os cidadãos. Inclui-se em nosso dever ético de proteção à fonte a proteção de uma violação dos direitos constitucionais da cidadania?

Acho muito salutar um debate sobre esse tema."



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 11h53
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A primeira pedra

Quando surgiram as primeiras denúncias de que na campanha do tucano Eduardo Azeredo para a reeleição ao governo de Minas Gerais, em 1998, houve uso de caixa 2 com a participação do famigerado publicitário Marcos Valério, o PT se agarrou a elas como a uma tábua de salvação, no ano passado. Formados na peculiar ética do partido, segundo a qual uma sujeira pode ser limpa com outra sujeira, seus parlamentares no Congresso exploraram à farta as notícias. Afinal, desde que o ex-deputado Roberto Jefferson, do PTB do Rio de Janeiro, revelara em maio a existência do Mensalão, a legenda se via no centro da maior tormenta atravessada desde sua fundação, e o caso Azeredo parecia ser uma oportunidade de desviar o foco das investigações para o lado inimigo.

O cálculo se mostrou equivocado, talvez pelo fato de nem os dirigentes do partido conhecerem em toda a sua extensão a quantidade de ilícitos cometidos em nome do projeto de poder do PT. Hoje, dez meses e três CPIs – das quais uma já fechou sem dizer a que veio e outra está para encerrar seus trabalhos, com um relatório de mais de 1.500 páginas – depois da inconfidência de Jefferson, novas evidências de falcatruas envolvendo integrantes do partido continuam a ser reveladas pela imprensa. O repertório de malfeitos praticado pelos petistas com o uso de dinheiro público, nos últimos anos, parece inesgotável.

Durante todo esse período, é preciso lembrar, praticamente nada do que se denunciou contra o PT e o governo Lula foi obra da oposição. A maior parte das acusações surgiu pela imprensa. E uma parte menor, mas de efeitos mais corrosivos, pela confissão dos próprios envolvidos, destacando-se entre eles o publicitário Duda Mendonça, cuja voluntária declaração de ter conta no exterior a mando do PT foi de uma gravidade capaz de pôr em risco não só o registro legal do partido como também o mandato do presidente da República. A oposição falhou fragorosamente na tarefa de fiscalizar o governo.

Assoberbados, de seu lado, pelas denúncias que não paravam de surgir contra o partido, os parlamentares petistas foram postos na defensiva. Tantos eram os flancos desguarnecidos que mal podiam dedicar-se a atacar o inimigo. E quando pretenderam passar à ofensiva o fizeram de forma desastrada, dando tiros no próprio pé. Assim ocorreu com: 1) a falsa lista de beneficiários do caixa 2 de Furnas, uma grosseira montagem logo desmentida; 2) com a tentativa de desmoralizar o caseiro que depôs contra o ministro Antonio Palocci pela revelação de sua conta bancária, cujas movimentações imediatamente foram justificadas pelo titular enquanto ao PT - no caso, por meio da direção da Caixa Econômica Federal e não da Polícia Federal, segundo as últimas apurações - sobrava a pecha de ter cometido um crime constitucional de violação de direitos individuais; e, 3) por fim, com a representação apresentada contra o senador Eduardo Azeredo no Conselho de Ética do Senado por quebra de decoro parlamentar. Na terça-feira, o órgão decidiu arquivar o processo por falta de sustentação legal, porque a denúncia refere-se a uma época em que Azeredo não era parlamentar. Ele assumiu sua cadeira no Senado em 2003, cinco anos depois dos supostos eventos arrolados no processo.

Essa inconsistência na representação movida contra o senador mineiro já era conhecida de todos, inclusive da direção do PT. Assim, a iniciativa só podia resultar em fracasso, mas o partido não quis perder a oportunidade de fazer barulho, em outra de suas marcantes características que é o uso recorrente do marketing demagógico.

Com a absolvição do senador Azeredo, por ora o PT mantém-se quieto. Mas esperem pelo início da campanha eleitoral para ver como o assunto do caixa 2 tucano em Minas Gerais será explorado pelo partido, como se ainda tivesse direito a atirar a primeira pedra.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 11h21
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Mais uma do Tião

Foi quente a sessão da tarde, ontem, no Senado. O senador Tião Viana (PT-AC), aquele mesmo que obteve liminar do Supremo Tribunal Federal para suspender o depoimento do caseiro Francenildo dos Santos Costa na CPI dos Bingos, na semana passada, pediu a quebra do sigilo bancário dele, caseiro, como se tudo já não tivesse sido revelado pela malandragem da Polícia Federal, em conluio com a revista Época.

A oposição deu o troco em seguida. Os senadores Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), José Agripino (PFL-RN) e Arthur Virgílio (PSDB-AM) apresentaram requerimento à mesa pela quebra do sigilo de Paulo Okamotto, também conhecido como Paulo "O", em referência ao tipo sangüíneo dos doadores universais. Amigão de Lula, Okamotto lhe quitou uma dívida pessoal de quase 30.000 reais com o PT, segundo afirma com dinheiro do próprio bolso, e ainda pagou aluguéis atrasados da filha do presidente, Lurian. Já o senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT) foi mais fundo: requereu a quebra de sigilo de Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente. Fábio Luiz, como se sabe, entrou no rol dos investigados pela CPI dos Correios porque recebeu um auxílio financeiro de 10 a 15 milhões de reais da Telemar, que tem negócios com o governo, na sua até então pequena empresa de jogos para computador. Pelo menos 10 milhões do adjutório já foram confirmados: um aporte de capital de 5 milhões e uma verba anual de publicidade de igual valor. Pergunta que não quer calar: se o jovem Fábio Luiz fosse um joão-ninguém, e não o filho do presidente da República, teria recebido a mesma deferência da Telemar?

A reação oposicionista alarmou a colega de bancada de Viana, a senadora Ideli Salvatti (SC). "O requerimento é afrontoso a toda e qualquer regra de convivência nesta Casa", afirmou ela, com a conhecida voz aguda que a faz parecer sempre gritando. A seu lado, o autor do requerimento contra o caseiro tentava se justificar: "Quero saber a verdade". Puro jogo de cena. Detalhes do extrato bancário de Francenildo, com movimentações feitas desde o começo do ano, estão na revista Época. Bastaria a Viana comprar um exemplar nas bancas. Ou então pedir uma cópia do extrato ao ministro Márcio Thomaz Bastos, da Justiça, a quem se subordina a Polícia Federal.

Em meio ao tiroteio provocado na sessão pela iniciativa de Viana, o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) recebeu um telefonema do caseiro Francenildo. Numa atitude de quem nada tem a esconder – até porque sua conta bancária, mesmo com a ajuda do pai, representa uma migalha perto do dinheiro recebido da Telemar pelo filho do presidente Lula -, este colocou seus dados financeiros à disposição dos parlamentares.

Quando a indignação suplanta a boa educação, certas palavras teimam em saltar da boca. Elas seriam apropriadas para o senador Tião Viana, mas em respeito aos leitores não as diremos.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 23h44
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Mãe brasileira

Aos 17 ela teve Francenildo, da ligação com um homem que se recusou a assumir a paternidade. Sozinha carregou o filho no ventre, pariu e o criou, sabe Deus como, empregando-se aqui e ali como babá ou lavadeira. Relacionou-se com outros homens, por amor ou necessidade, e teve mais três filhos.

Em busca de melhor sorte fora da pobre Nazária, no Piauí, seu Francenildo foi-se embora mal se viu com penugem de barba. Foi para Brasília, onde ultimamente trabalhou como caseiro numa moradia de 700 metros quadrados de área construída no Lago Sul, zona mais chique da cidade. Ela continuou na mesma casinha sem reboco em Nazária, com a mãe, os outros filhos e a saudade de Francenildo.

Há milhões de mulheres no país em situação parecida com a dela, Benta Maria dos Santos Costa, hoje com 41 anos, mãe solteira, desempregada, vivendo de meia pensão de ex-companheiro e 50 reais do Bolsa Cidadão, pagos mensalmente pelo governo. Mas muito poucas com a mesma aflição dela. Benta teme pela vida do filho que mora longe.

Depois que Francenildo depôs contra um ministro do governo, para mitigar o medo ela passa os dias a rezar. Chora também. E se revolta por ter visto o presidente Lula na TV referindo-se a seu filho como 'um simples caseiro'. Ao repórter Expedito Filho, do jornal O Estado de S. Paulo, que a foi ouvir em Nazária, questionou (edição de hoje): "O que ele quer dizer com isso? Ele estava ofendendo o meu filho. Ele saiu de onde? Lula não nasceu em berço de ouro. Meu filho é um simples caseiro, sim, mas criei ele sozinha para ser um homem honesto e falar toda a verdade. O que é que adianta ser filho de papai e mamãe e não falar a verdade?"

Benta sabe que por agora, com a cobertura dada ao caso pela imprensa, Francenildo está seguro. Seu medo é com o que pode acontecer a ele depois de se apagarem os holofotes.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 05h49
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Xadrez e política

A tática do sacrifício é recorrente no xadrez, embora nem todos os grandes mestres ousem empregá-la. Praticado com engenho e arte, o sacrifício de peças importantes em nome de um objetivo maior pode, quando bem-sucedido, inscrever a partida em que ocorre nos anais desse esporte.

O americano Paul Morphy (1837-1884, ao lado em foto de 1867, feita em Paris), talvez o maior gênio do xadrez em todas as épocas, entregou de bandeja ao adversário nada menos que a rainha só para deslocar de posição um cavalo, na histórica partida disputada com um nobre europeu, o Duque de Braunschweig & Court Isouard, em 1858. Já inferiorizado em peças, parecia um gesto tresloucado. Mas no lance seguinte, sem o cavalo a atrapalhar seu plano, entrou com uma torre na oitava casa da rainha, protegida por um bispo. E deu xeque-mate.

A política se assemelha ao xadrez na questão da estratégia. Bons jogadores obrigam-se a enxergar vários lances adiante. Só os medíocres visualizam apenas o curto prazo. Claro, nem tudo pode correr conforme o planejado, porque a vida oferece eventos fortuitos. É mais complexa que um jogo de tabuleiro. Mas não se faz boa política sem pensar no futuro.

O dilema atual do prefeito de São Paulo, José Serra, é precisamente esse. Ficar onde já está, com aceitação popular em alta, ou sacrificar o certo pelo incerto, disputando o governo estadual? De acordo com as pesquisas, ele seria o único nome do PSDB capaz hoje de vencer a candidata do PT, a ex-prefeita Marta Suplicy. Por isso, recebe pressões do comando do partido para concorrer ao cargo. E também do PFL, aliado de longa data, que não vê a hora de passar a comandar a Prefeitura da maior cidade do país pelos mais de dois anos restantes, com o atual vice de Serra, Gilberto Kassab.

Outros fatores conspiram a favor dessa hipótese. Eleito, Serra encontraria as finanças estaduais em excelente situação e um grande conjunto de obras em andamento, deixados pelo antecessor Geraldo Alckmin, ao contrário da terra arrasada que herdou de Marta na capital paulista. Teria, portanto, tudo para consolidar seu prestígio como administrador público. E como o mandato terminaria junto com o do próximo presidente da República, e não dois anos antes, como será se continuar prefeito, seu cacife aumentaria enormemente para a sucessão presidencial em 2010. Alckmin já disse ser contrário à reeleição, no caso de sair vitorioso neste ano.

O prazo para a desincompatibilização se aproxima. A platéia tucana espera ansiosa pelo próximo lance de Serra.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 02h31
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"Política não se faz com ódio, pois não é função hepática. É filha da consciência, irmã do caráter, hóspede do coração. Eventualmente, pode até ser açoitada pela mesma cólera com que Jesus Cristo, o político da Paz e da Justiça, expulsou os vendilhões do Templo. Nunca com a raiva dos invejosos, maledicentes, frustrados ou ressentidos. Sejamos fiéis ao evangelho de Santo Agostinho: ódio ao pecado, amor ao pecador. Quem não se interessa pela política, não se interessa pela vida."  Ulysses Guimarães

 

O desprendimento de Ulysses

De enorme importância histórica é um episódio de vinte anos atrás, narrado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em seu livro de memórias A Arte da Política: A História que Vivi, que chega às livrarias do país nesta terça-feira, dia 21. Trata-se, salvo engano, de uma informação inédita. O ex-presidente conta, num dos trechos do livro publicados na nova edição da revista Veja, que Ulysses Guimarães esteve na bica de assumir interinamente o cargo de presidente da República em março de 1985, quando o presidente eleito Tancredo Neves foi internado às pressas no Hospital de Base de Brasília, na véspera da posse, dia 14.

A Constituição de 1967 não deixava margem à dúvida de que, na vacância do cargo, quem deveria assumir era o vice-presidente. Ocorre que José Sarney, eleito junto com Tancredo na chapa consagrada pelo Colégio Eleitoral, ainda não tomara posse. Portanto, não era ainda, formalmente, o vice-presidente, o que criava uma situação não prevista na Constituição.

Em reunião realizada de madrugada, segundo Fernando Henrique, presentes entre outros Sarney, Ulysses, o chefe da Casa Civil do governo Figueiredo, Leitão de Abreu, o general Leônidas Pires Gonçalves, futuro ministro do Exército, e ele, discutiram-se soluções opostas. Uma, a de Afonso Arinos, renomado constitucionalista, pela posse do vice eleito. E outra, a de Leitão de Abreu, também jurista respeitado, pela posse do presidente da Câmara, no caso, Ulysses Guimarães.

Foi o próprio Ulysses, conta Fernando Henrique, quem tomou a iniciativa de defender a posse de Sarney, e o fez com tanta eloqüência que convenceu Leitão de Abreu do acerto de seus argumentos. Anticandidato presidencial da resistência civil contra a ditadura militar, nos idos de 1973 (leia Em Memória de Ulysses, clicando no link para posts selecionados do blog), Ulysses Guimarães demonstrou assim, em mais esse episódio, sua inexcedível grandeza como homem público. Que falta fazem ao Brasil de hoje políticos como ele.

Na mesma reunião, ainda de acordo com Fernando Henrique, discutiu-se também a questão da transmissão da faixa. "Presidente só transmite faixa a outro Presidente", teria decretado Leitão de Abreu, não por posicionamento político, mas sim pela correção protocolar. Esse é outro esclarecimento da maior relevância, visto que a versão corrente é a de que Figueiredo não quis participar do ato de transmissão por pessoalmente detestar Sarney.

Leia, na nota abaixo, a íntegra do trecho publicado na revista Veja.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 00h21
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A história da faixa

"Jantávamos na embaixada de Portugal, com o Presidente Mário Soares, Ulysses Guimarães, penso que o deputado Pimenta da Veiga (PMDB-MG) e outros políticos, quando chegou a má notícia: Tancredo tivera que ser internado em caráter de urgência no Hospital de Base de Brasília. Para lá rumamos todos.

(...) Em uma roda, conversavam, entre outros, Sarney, Ulysses, Fragelli e o general Leônidas. Sarney dizia que não pretendia assumir, que tinha dúvidas sobre quem deveria suceder Tancredo durante o impedimento, que todos imaginavam temporário. Àquela altura, Afonso Arinos, constitucionalista de peso, havia declarado pelos meios de comunicação seu entendimento de que correspondia ao Vice-Presidente, e não ao presidente da Câmara, isto é, a Ulysses, assumir a interinidade.

Em certo momento, creio que foi Ulysses quem disse:

– Vamos conversar com o professor Leitão de Abreu para tomar uma decisão.

(...) Passava da meia-noite, e aparentemente o dr. Leitão de Abreu se recolhera. Esperamos bom tempo até que viesse ter conosco, mas ele surgiu na sala trajando paletó, gravata e colete. Colocada a questão, continuavam as dúvidas. Recordei-me do livro de Afonso Arinos, Rodrigues Alves: Apogeu e Declínio do Parlamentarismo, no qual há referências a situação semelhante, quando o Presidente Rodrigues Alves, que governara de 1902 a 1906, não pôde tomar posse do segundo mandato, em 1918, abatido pela gripe espanhola. O vice Delfim Moreira assumiu e tornou-se Presidente efetivo dois meses depois, com a morte de Rodrigues Alves. A biblioteca do professor Leitão, porém, já estava encaixotada, não poderíamos consultar o livro. Havia disponível apenas um exemplar da Constituição. Foi lido com cuidado por todos nós. O general Leônidas disse que não era jurista e acataria qualquer decisão. Leitão de Abreu parecia pender para a interpretação que favorecia o presidente da Câmara como sucessor constitucional, posto que ainda não ocorrera a posse do vice. Ulysses Guimarães, no entanto, secundado pelo presidente do Senado, alinhou-se com a tese de Arinos e convenceu o professor Leitão da validade de sua exegese. O ministro do Exército e eu ficamos a ouvi-los, sem credenciais para discutir o mérito. A certa altura alguém perguntou:

– E a faixa, o Presidente Figueiredo vai transmiti-la?

O chefe da Casa Civil redargüiu com firmeza:

– Presidente só transmite faixa a outro Presidente.

Assunto encerrado.

Está aí a verdadeira razão que levou o Presidente Figueiredo a não transmitir o cargo – e a faixa – a Sarney. Diferentemente do que diz a lenda, segundo a qual Figueiredo 'saiu pelos fundos do palácio' para não passar a faixa porque não suportava Sarney, houve uma discussão prévia a respeito do assunto com o chefe da Casa Civil e renomado jurista Leitão de Abreu, em que se levantou uma questão constitucional que incluía outra, de protocolo. Figueiredo podia, efetivamente, não tolerar Sarney, a quem não perdoava a deserção do PDS, mas a realidade dos fatos é a que agora descrevo."

(Trecho do livro A Arte da Política: A História que Vivi, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, publicado na revista Veja que chegou ontem às bancas)



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 23h27
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Salve, Ricardo Noblat

A notícia dada no final da tarde de ontem, no blog oficial da revista Época, de que o caseiro Francenildo dos Santos Costa teria recebido neste ano depósitos no montante de 38.860 reais em sua conta de poupança na Caixa Econômica Federal, numa agência do Lago Sul, em Brasília, teve grande repercussão, como é natural. A primeira reação que tal notícia desperta é a sensação de estranheza pela coincidência de, na véspera, o caseiro ter reafirmado na CPI dos Bingos que o ministro Antonio Palocci, da Fazenda, era freqüentador assíduo da mansão alugada na capital federal por seus amigos e auxiliares do tempo em que era prefeito de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. A casa servia de ponto de apoio a negociatas com o governo, distribuição de dinheiro obtido por meios corruptos e festas de arromba com garotas de programa.

Enquanto todos os blogs ligados à grande imprensa comentavam o assunto, no Planalto e cercanias petistas a notícia foi recebida com rojões de contentamento. Afinal, estaria aí uma prova material de que o caseiro Francenildo recebera dinheiro para prestar falso testemunho contra o ministro da Fazenda. Nada mais equivocado, para infelicidade do governo.

O dinheiro na conta de Francenildo, que no começo do ano revelava o modesto saldo de 24,76 reais – o caseiro mora também num simples quarto de aluguel, numa das cidades-satélites de Brasília -, foi depositado por seu pai natural, o empresário Eurípedes Soares da Silva, dono de uma companhia de ônibus em Teresina, no Piauí. E não foram todos os 38.860 reais, mas sim 24.990, parte de um acordo de 30.000 que Francenildo fez com ele, no início de janeiro, para desistir da ação de reconhecimento de paternidade que queria mover contra o empresário. A diferença se explica porque o próprio caseiro voltou a depositar, por duas vezes, dinheiro que havia sacado da conta para a compra de uma casa.

Procurado, o empresário Silva confirmou os depósitos e o fato de ter gerado Francenildo, "com uma rapariga". Também admitiu que propôs o acordo para evitar problemas com sua família.

Os detalhes do desmentido cabal à tentativa de desmoralização do caseiro, feita pelo site da revista Época, estão no blog do jornalista Ricardo Noblat (link ao lado). Ele foi o único, nesse episódio todo, a agir como um verdadeiro profissional de imprensa, indo ouvir as fontes para não dizer besteiras como seus outros colegas patrocinados por jornais e revistas.

Noblat se distingue por fazer um blog independente, mesmo estando abrigado no portal do Estadão. Ao contrário dos outros colegas nessa condição, não se esconde atrás do falso pretexto da isenção jornalística para tentar agradar a gregos e troianos. Com sua incessante busca da verdade, merece a credibilidade que tem.

Quanto à notícia original dos depósitos, verdadeira quanto ao fato mas tendenciosa na edição – a confirmação do empresário Silva, que esclareceria tudo, está lá no finalzinho, quase escondida no texto bombástico sobre a suposta boa vida financeira do caseiro Francenildo -, a revista Época cometeu um crime ao desrespeitar, sem ordem legal, o sigilo bancário de uma pessoa. Pior ainda fez a Polícia Federal, que passou as informações para a revista, no evidente intuito de desmoralizar uma testemunha de acusação contra o governo. Segundo Francenildo, durante seu depoimento um dos agentes da força, ao saber que ele tinha uma conta bancária, exigiu-lhe o cartão magnético, ausentou-se da sala e só voltou para devolvê-lo cerca de 20 minutos depois. Nesse tempo, provavelmente imprimiu o extrato da conta. "Por que não pegam o cartão do chefe e tiram o extrato?", indignou-se. "Essa sacanagem só fazem comigo."

O "chefe", como ele o continua chamando, na sua singeleza, é o ministro Antonio Palocci.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 03h06
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Efeito bumerangue

"Depois de se tornar, no governo, vítima dos próprios métodos empregados quando era oposição, o PT imprime um padrão de enfrentamento das questões que pode vir a também voltar-se contra ele quando estiver de novo na condição de combatente do poder.

Em três anos, tornou aceitável a prática da cooptação partidária para a construção de maiorias parlamentares, sacramentou o fisiologismo nas relações entre Legislativo e Executivo, avalizou o uso do caixa 2 como forma de financiamento de campanhas, convalidou o uso dos instrumentos de Estado para barrar investigações, afiançou o silêncio como regra de conduta naturalmente aceita para investigados em processos políticos e conferiu naturalidade ao uso dos piores costumes que passou a vida a condenar.

Amanhã ou depois, se voltar a ser oposição, o PT ver-se-á outra vez às voltas com as próprias contradições de forma e conteúdo e já terá perdido a capacidade e a prerrogativa de reclamar."

(Dora Kramer, em sua coluna política de ontem no jornal O Estado de S. Paulo)



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 00h37
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Francenildo dos Santos Costa (foto Abr)

Francenildo, um herói

Um homem simples que fala diante de parlamentares em Brasília com a coragem dos inocentes. Um senador da República que usa de malandragem rasteira para impedir esse homem de falar. Um ministro do Supremo Tribunal Federal que exorbita, imiscuindo-se em assunto interno de outro poder, para proteger o governo pelo qual foi nomeado. E um presidente de partido que não tem pejo de fazer um discurso legalista para esconder debaixo do tapete as sujeiras cometidas por seus correligionários. Houve de tudo isso, ontem, neste pobre país chamado Brasil, cujos filhos assistem, impotentes, ao seu rebaixamento à condição de republiqueta de bananas por parte dos poderosos.

Os fatos:

1. Francenildo dos Santos Costa, piauiense de 24 anos, sete dos quais trabalhando como caseiro numa mansão do Lago Sul, em Brasília, alugada por amigos e ex-auxiliares do ministro Antonio Palocci, reafirmou ontem na CPI dos Bingos tudo o que dissera à repórter Vera Rosa, do jornal O Estado de S. Paulo, em reportagem publicada na terça passada. "Confirmo até morrer", disse, em resposta à senadora Heloísa Helena (PSOL-AL), que o inquiria sobre a veracidade de sua declaração sobre a freqüência assídua do ministro à casa, usada como ponto de apoio em negociatas com o governo. Diante de slides projetados para ele reconhecer pessoas, Francenildo apontou, entre outros freqüentadores da mansão, Juscelino Dourado, ex-chefe de gabinete de Palocci. E ao ver a foto do ministro não teve dúvida: "Esse era o chefe", afirmou, não por conhecer a fundo as maracutaias ali cometidas, mas por ser essa a referência a ele passada. Confirmou ainda ter presenciado partilhas de dinheiro comandadas por Vladimir Poleto, o mesmo ex-assessor de Palocci responsável pelo transporte de caixas de bebida com dólares provenientes de Cuba para a campanha presidencial de Lula, conforme denúncia da revista Veja. E que, numa ocasião, ele e o motorista Francisco das Chagas Costa, outro que desmentiu o ministro sobre sua freqüência à casa, na semana passada, levaram um pacote de dinheiro para Ademirson Ariosvaldo da Silva, secretário particular de Palocci, no Ministério da Fazenda.

2. Em meio ao depoimento de Francenildo, chegou à CPI a liminar do Supremo que mandava suspender a sessão, dada pelo ministro Cezar Peluso. Segundo o despacho do ministro, a medida era concedida por não haver conexão entre o objeto de investigação da CPI, as denúncias de irregularidades acerca da liberação de casas de jogos, e o depoimento do caseiro sobre a participação do ministro Palocci nas reuniões da mansão do Lago Sul. Como reforço, Peluso – que foi nomeado para o cargo pelo presidente Lula – citou um artigo da Constituição que garante a privacidade das pessoas.

3. A liminar foi pedida pelo senador Tião Viana (PT-AC), usando os mesmos argumentos acolhidos pelo ministro do STF.

4. Para justificar a atitude de Viana, o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini, declarou à jornalista Lilian Witte Fibe que o partido nada mais fazia do que defender a legalidade nos trabalhos da comissão.

O que precisa ser dito, a respeito desses fatos:

a. Sabedor de que o STF é um escravo da Constituição, Tião Viana recorreu ardilosamente ao dispositivo do respeito à privacidade individual para obter a liminar. Mas o direito por ele invocado não teve a menor motivação ética. O objetivo foi tão-somente o de impedir a revelação de verdades incômodas para o governo do qual ele e seu partido fazem parte. A privacidade defendida também é passível de contestação, não só pelas suspeitas que pesam sobre os negócios feitos dentro da mansão, ou a partir dela, como também pela constatação de que ali se realizavam, regadas com dinheiro público, orgias com garotas de programa contratadas pela cafetina Jeany Mary Corner.

b. Não compete ao STF, ou a qualquer um de seus ministros, delimitar o leito de atuação de uma comissão parlamentar de inquérito, porque o Legislativo, no que concerne às atribuições, não lhe é um poder subordinado. Além de enfiar o nariz onde não devia, Cezar Peluso escorregou na casca de banana deixada na petição do senador Tião Viana. O depoimento de Francenildo tem, sim, tudo a ver com o objeto da CPI dos Bingos, uma vez que um dos principais negócios tratados pelos inquilinos da mansão do Lago Sul se referia à liberação de jogos em máquinas caça-níqueis de origem angolana. Na pressa de atender a seus amigos petistas, o ministro deu um despacho indigno de seu currículo como jurista.

c. A justificativa do presidente do PT deprecia o partido. Para uma legenda antes monopolista da ética e da moralidade na política, agarrar-se hoje a míseras filigranas da lei é uma queda e tanto. Além disso, não há recurso judicial capaz de esconder a força da verdade contida nas palavras singelas de um Francenildo. Só na cabeça de um burocrata da política como Berzoini pode passar a idéia, tão arrogante quanto medíocre, de que basta remeter as questões à Justiça para se livrar de dar satisfações à opinião pública. A continuar nesse passo, o deputado vai é fazer gol contra, ao invés de ajudar seu partido nos ingentes esforços para isolar das denúncias de corrupção o presidente Lula.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 00h47
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Corrêa (foto Valter Campanato/Abr) e Henry (foto Wilson Dias/Abr)

Cassaram o Corrêa

Arre! Depois de absolver, em seqüência, quatro deputados envolvidos no escândalo do Mensalão, ontem o plenário da Câmara resolveu pelo menos dar uma no cravo e outra na ferradura: 1) cassou o mandato de Pedro Corrêa, presidente do PP, de Pernambuco, por 261 votos a favor, 166 contrários, 19 abstenções e 5 em branco; e 2) inocentou Pedro Henry, do mesmo partido, de Mato Grosso, por 255 votos favoráveis, 176 contrários, 20 abstenções e 2 em branco. Um fato pitoresco foi que, em sua defesa, Henry se comparou ao personagem de A Metamorfose, do escritor checo Franz Kafka (1883-1924), que dorme humano e acorda inseto, uma espécie de barata. Menos, deputado, menos.

Com o resultado de ontem, o balanço dos julgamentos de parlamentares pelo conjunto da casa, desde o ano passado, está assim: a) três cassados: Roberto Jefferson (PTB-RJ), José Dirceu (PT-SP) e Pedro Corrêa; e b) cinco absolvidos: Romeu Queiroz (PTB-MG), Sandro Mabel (PL-GO), Roberto Brant (PFL-MG), Professor Luizinho (PT-SP) e Pedro Henry. Há ainda sete deputados na fila. E quatro renunciaram ao mandato para escapar da cassação: Valdemar Costa Neto (PL-SP), Carlos Rodrigues (PL-RJ), Paulo Rocha (PT-PA) e José Borba (PMDB-PR).

Mesmo com a surpresa positiva de ontem – no caso de Henry, sua absolvição já havia sido recomendada pelo relator do processo, Carlos Sampaio (PSDB-SP) - , não se espera por um placar final em que prevaleça o número de punidos pelo escândalo. Diante disso, aumenta a importância da discussão sobre a necessidade de tornar o julgamento mais transparente, extinguindo-se o voto secreto pelo plenário e fazendo-o aberto, como no Conselho de Ética. Há poucos dias, noticiou-se que os deputados Júlio Delgado (PSB-MG) e Júlio Redecker (PSDB-RS) articulavam apoio para apresentar uma proposta de emenda constitucional com esse objetivo. A iniciativa fortaleceu-se com o posicionamento favorável ao voto aberto, tomado pelo presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP).

Na verdade, nem é preciso que Delgado e Redecker se dêem a esse trabalho. Uma proposta praticamente de igual teor, um pouco mais ampla, de autoria do deputado Luiz Antonio Fleuy Filho (PTB-SP), tramita desde 2001 na Câmara. Quer dizer, como o projeto já passou por todas as comissões da casa, bastaria colocá-lo na ordem do dia para votação. Isso poderia ter sido feito até mesmo antes de se iniciar a atual série de julgamentos pelo plenário. Mas não se ouviu um pio do próprio dono da proposta, o deputado Fleury, em defesa dela, talvez pelo fato de correligionários seus estarem no rol dos acusados. Também nesse caso, aparentemente, falou mais alto o corporativismo do que a decência.

 Franz Kafka



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 03h21
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Números para analista (de cabeças)

A nova pesquisa CNI/Ibope tem validade limitada porque foi feita antes da escolha do candidato do PSDB à sucessão presidencial, entre os dias 8 e 11 deste mês. Na próxima sondagem, a ser divulgada daqui a um trimestre, com certeza o governador paulista Geraldo Alckmin aparecerá mais encorpado, depois de herdar as intenções de voto antes destinadas a seu companheiro de partido, o prefeito José Serra, também de São Paulo. Outros fatores que podem contribuir para um melhor equilíbrio de forças entre o principal candidato da oposição e o presidente Lula estão na regra da verticalização, que poderá ou não ser consagrada pelo Supremo Tribunal Federal, e na definição pelo PMDB do nome de seu postulante à sucessão no Planalto. Os governistas do partido que queriam mandar para as calendas as prévias marcadas para esse fim, no próximo final de semana, viram-se frustrados em seu intento por serem minoria, e tudo caminha para a indicação do ex-governador Anthony Garotinho, do Rio de Janeiro. Portanto, faz bem o PT em comemorar discretamente em público, apesar da indisfarçável euforia interna, os 43% de intenções de voto em Lula revelados pela nova pesquisa CNT/Ibope, contra os apenas 19% que hoje seriam dados a Alckmin. Nada está definido, por enquanto.

Alguns números levantados pela sondagem, entretanto, são tão espantosos que talvez nem o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de sólida reputação internacional como sociólogo, consiga interpretá-los de modo convincente. Mesmo a decantada falta de memória do povo brasileiro não serve para explicar o motivo de, em apenas três meses de certo refluxo no noticiário sobre a corrupção no governo, a curva de intenções de voto revelar tamanha inflexão. Na lista em que Lula é comparado a Alckmin, Garotinho e Heloísa Helena, senadora do PSOL, ele subiu nada menos de 11 pontos percentuais em relação a dezembro. Da mesma forma, na avaliação de seu governo, o índice de aprovação cresceu 13 pontos, de 42% para 55%, enquanto o de desaprovação caía na mesma proporção, de 52% para 39% (veja o gráfico abaixo). Como não houve, nesse período, nada de tão extraordinário que justificasse tal inversão de tendências, trata-se, sem dúvida, de um fato merecedor de acurada análise. Mais do que da mesa de um sociólogo, talvez a explicação possa ser dada a partir do divã de um psiquiatra.

Para justificar essa suposição, veja-se este outro número colhido na mesma pesquisa. Quando perguntados sobre as características mais importantes do próximo presidente da República, podendo escolher duas opções, os eleitores ouvidos cravaram em primeiro lugar, com 60% de indicações, a de "ser honesto". Ora, entre as qualidades do cidadão Luiz Inácio Lula da Silva, diante de tudo o que já se denunciou de seu governo e de seu partido, o PT, a honestidade não é a que mais se destaca.

Como qualquer outro ele merece o benefício da dúvida. Mas quando seu braço direito, o ex-deputado José Dirceu, já precisou sair do governo, envolvido nas denúncias do Mensalão, e quando se torna insustentável a situação vivida por seu braço esquerdo, o ministro Antonio Palocci, da Fazenda, desmentido agora, quanto à sua freqüência, pelo motorista e pelo caseiro da mansão onde seus amigos da chamada 'república de Ribeirão Preto' traficavam influência no governo, distribuíam dinheiro ilícito e promoviam festas com o auxílio da cafetina Jeany Mary Corner, o presidente se vê acuado a ponto de suas alegações de inocência a cada dia perderem consistência. Se ele não sabia mesmo do que auxiliares tão próximos faziam, sob suas barbas, então pode ser honesto, mas não passa de um bobalhão. De qualquer forma, diante de tais fatos, ninguém em sã consciência poderia pôr a mão no fogo por ele.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 00h28
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Habemus candidato                 

A escolha do governador paulista Geraldo Alckmin como candidato do PSDB à sucessão presidencial dá ao principal partido da oposição, finalmente, um rosto para servir de contraponto ao atual ocupante do Palácio do Planalto, que há meses se empenha numa descarada autopropaganda pela reeleição. Ao contrário do que vinham sustentando os críticos da demora tucana em ungir seu candidato, todavia, a decisão anunciada ontem pelo partido em São Paulo, embora possa ser importante para sua economia doméstica – o que inclui a parceria com o PFL -, pouco contribui para mudar o atual cenário político no país. Para ter um efeito maior, ela depende de dois fatores. A primeira é a definição que o Supremo Tribunal Federal dará, em votação aguardada para os próximos dias, à questão da verticalização em nível nacional para as coligações partidárias. E a segunda, o desdobramento dessa definição na atitude a ser adotada pelo PMDB e pelas agremiações de porte médio, como PDT, PTB, PP, PSB e PPS, frente às eleições de outubro.

No caso de o Supremo decidir pela constitucionalidade do abandono da regra da verticalização ainda para este ano, conforme promulgou o Congresso Nacional, tudo permanecerá mais ou menos como já estava antes da escolha do candidato tucano. Isso porque, como os partidos de porte médio terão maior liberdade para fazer seus acordos regionais, mesmo apresentando candidatos próprios à cadeira do Planalto – não para ganhá-la, mas para aumentar sua visibilidade nacional, de olho na cláusula de barreira que passa a vigorar a partir destas eleições -, dificilmente o PSDB poderá pensar em ampliar coligações para o primeiro turno, o mesmo valendo para o PT. Já se o Supremo decidir o contrário, o quadro muda de forma substancial. Aumenta a necessidade ou a conveniência de os partidos intermediários se comporem com os maiores, da oposição ou do governo, o que pode levá-los a abrir mão da candidatura própria à Presidência. Dependendo dos respectivos apetites pelo poder, os acordos poderão ser costurados bem antes do primeiro turno das eleições. Mas também é arriscado prever, como fazem alguns analistas, que esse cenário conduzirá a uma definição do pleito em turno único. Continua a existir o fantasma da cláusula de barreira e todos os partidos, mesmo os menores, sonham em tornar-se grandes um dia.

Na hipótese de a regra da verticalização ser mantida, com o Supremo arrostando o Congresso, crescerá a importância do PMDB como fiel da balança. Pela força do partido no país, não apenas seu candidato será talvez o único capaz de isoladamente determinar a realização de um segundo turno no pleito presidencial, com os votos recebidos, como também poderá servir de catalisador para que outras legendas apresentem candidaturas alternativas. Pode-se apostar, assim, numa convergência do partido em torno do ex-governador Anthony Garotinho, do Rio de Janeiro, uma vez que ele leva sobre seu rival, o governador Germano Rigotto, do Rio Grande do Sul, uma vantagem a esta altura praticamente insuperável, tanto por ser mais conhecido do eleitorado quanto por ter começado bem mais cedo sua campanha pela postulação.

O desejo várias vezes declarado do presidente Lula de ter em sua chapa o PMDB torna-se assim cada vez mais irrealizável. A menos que a balança da preferência popular penda tão fortemente em seu favor, a ponto de não restar dúvida quanto ao resultado das eleições, ele terá pouco cacife para atrair o partido. Entre fazer valer seu papel de tertius na disputa entre governo e oposição, habilitando-se com isso a obter uma gorda recompensa do lado vencedor pela adesão, e embarcar precipitadamente numa canoa que depois possa mostrar-se furada, o PMDB, que de bobo não tem nada, vai ficar com a primeira opção.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 07h06
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Diário de um marido solteiro - 1

Era um marido impaciente com as queixas da mulher sobre a dureza da faina doméstica. Um dia ela foi viajar, e ele teve a oportunidade de provar que falta às mulheres um pouco de organização para tornar a vida mais fácil. Eis o seu diário da semana em que ficou em casa só com o cachorro, sem a mulher:

DOMINGO

Sozinho em casa. Vamos passar uma semana tranqüila, sem problemas e reclamações. Acho que teremos uma semana inesquecível, o cachorro e eu.

Tracei um plano e programei meu tempo. Sei exatamente quando acordar, quanto tempo ficar no banheiro e quanto tempo levar preparando o café. Tudo planejado. Também somei o número de horas necessário para lavar, arrumar, levar o cachorro para passear, fazer compras e cozinhar. Estou agradavelmente surpreso em ver que ainda me sobra muito tempo livre. Não sei por que as mulheres fazem o serviço de casa parecer tão complicado, quando toma tão pouco tempo. Basta se organizar.

O cachorro e eu jantamos um filé mignon cada um. Coloquei sobre a mesa a toalha de festa, uma vela, além de rosas - para criar atmosfera agradável. Ele (o cachorro) come patê de entrada, depois o prato principal, com fina guarnição de legumes, e ainda biscoitos de sobremesa. Bebo vinho e fumo charuto. Há muito não me sentia tão bem.

SEGUNDA-FEIRA

Preciso dar outra olhada na programação. Parece que requer pequenas mudanças. Expliquei para o cachorro que nem todo dia é feriado, por isso ele não deveria esperar por banquetes em todas as refeições, nem por três tigelas, que ainda tenho de lavar.

No café da manhã, notei que suco de laranja caseiro tem uma desvantagem: o espremedor de frutas tem de ser limpo a cada vez. Uma possibilidade: fazer o suficiente para dois ou três dias, para não ficar lavando a peça todo dia. Grande descoberta: você pode aquecer salsichas na sopa, para ter menos uma panela para lavar. Certamente não pretendo passar o aspirador na casa todos os dias, como minha mulher queria. Dia sim, dia não é mais do que suficiente. O segredo é andar de chinelos e limpar as patas do cachorro. Pronto. Sinto-me ótimo.

TERÇA-FEIRA

Tenho a sensação de que o serviço de casa toma mais tempo do que eu imaginava. Devo repensar minha estratégia. Primeiro passo: comprarei comida pronta. Não preciso gastar tanto tempo cozinhando. Não se deve levar mais tempo cozinhando do que comendo.

Fazer a cama é um problema: sair de baixo das cobertas, depois arejar o lugar e então fazer a cama. É tudo tão complexo! Não acho necessário arrumá-la todos os dias, especialmente sabendo que voltarei a dormir naquela mesma noite. Parece tarefa sem importância.

Não estou mais preparando refeições complicadas para o cachorro. Comprei comida pronta para cães. Ele fez uma cara! Mas o que fazer? Se posso comer refeições semiprontas, ele também pode.

(Continua abaixo)



Categoria: Outros assuntos
Escrito por Dom Quixote às 03h02
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Diário de um marido solteiro - 2

QUARTA-FEIRA

Chega de suco de laranja! Como pode uma fruta de aspecto tão inocente criar tal confusão? É inacreditável. Comprarei suco de laranja em garrafa, pronto para beber. Descoberta: consegui sair da cama quase sem desarrumar as cobertas. Tudo que tive de fazer foi alisar um pouco o cobertor. Claro, é preciso prática e não se pode rolar muito durante o sono. Minhas costas doem um pouco, mas nada que um banho quente não resolva. Parei de me barbear todos os dias. É realmente perda de tempo. Ganho preciosos minutos que minha mulher nunca perde porque não faz barba. Descoberta: não há necessidade de se comer num prato novo a cada vez. Lavar louça com tanta freqüência começa a me irritar. O cachorro também pode comer numa única tigela. Afinal, é só um cão.

Nota: cheguei à conclusão de que se pode passar o aspirador no máximo uma vez por semana.

QUINTA-FEIRA

Basta de suco de frutas! As sacolas com frutas são pesadas demais. Descobri o seguinte: salsichas são ótimas pela manhã. No almoço, nem tanto. E, no jantar, nem pensar. Se um homem come salsicha por mais de dois dias, pode ter náuseas. Dei ração ao cachorro. É nutritiva e não suja a tigela. Descobri que sopa pode ser ingerida diretamente da lata. Tem o mesmo gosto. Sem vasilha, sem concha! Não me sinto mais um lava-louças automático. Parei de esfregar o chão da cozinha. Aquilo me irritava tanto quanto fazer a cama. Parece trabalho de presidiário. Cheguei a concordar que minha mulher, apesar de tudo, às vezes tem razão.

SEXTA-FEIRA

Por que tirar a roupa à noite se vou vesti-la de novo pela manhã? Prefiro passar mesmo o tempo deitado, descansando. Também não há necessidade de usar cobertas, assim a cama já fica feita. O cachorro sujou o chão. Dei-lhe uma bronca. Não sou seu criado! Estranho. Minha mulher me diz isso de vez em quando.

Hoje é dia de fazer a barba, mas não sinto vontade. A paciência está no limite. O café da manhã será algo que eu não precise desembrulhar, abrir, fatiar, espalhar, cozinhar ou mexer. Tudo isso me irrita. Plano: almoçar diretamente na sacola, em cima do fogão. Sem talheres, pratos, toalhas ou qualquer outro absurdo. As gengivas estão meio inflamadas. Talvez seja a falta de frutas, tão pesadas de carregar.

Minha mulher ligou à tarde e perguntou se lavei as janelas e as roupas. Caí numa risada histérica. Gritei que NÃO TIVE TEMPO, prá todo o quarteirão ouvir.

Há também problemas no banheiro. Está com um cheiro diferente, e a banheira está entupida com espaguete. Não me incomoda muito, mesmo porque parei de tomar banho. Nota: o cachorro e eu comemos juntos, diretamente da geladeira. Tem de ser rápido, para a porta não ficar muito tempo aberta. Reparei que o cachorro parou de abanar o rabo quando chego em casa.

SÁBADO

O cachorro e eu ficamos o dia todo na cama, vendo TV. Na hora da novela, vimos uma italianada comer todo tipo de comida e guloseimas. Ficamos com água na boca. Cáspita!, estamos ambos fracos e de mau humor. Comi de manhã algo na tigela do cachorro. É vero! Nenhum de nós gostou. Devia tomar banho, fazer a barba, pentear-me, dar comida ao cachorro, levá-lo para passear, lavar a roupa, arrumar, fazer supermercado, entre outras coisas - mas não tenho forças. Sinto que estou perdendo o equilíbrio e minha visão está sumindo. Peguei ainda o cachorro olhando para a foto de minha mulher. Parecia que chorava. Cão ingrato.

Num último acesso de autopreservação, rastejamos até um restaurante. Comemos vários pratos de boa comida durante mais de uma hora. Depois fomos a um hotel. O quarto era limpo, arrumado e aconchegante. Achei que finalmente havia encontrado a solução ideal para os serviços de casa.

PARECE INCRÍVEL, TANTOS ANOS DE CASADO COM MINHA MULHER E ELA NUNCA PENSOU NISSO!

(Diário de um Marido Sozinho em Casa – texto de autor desconhecido, editado por Dom Quixote)



Categoria: Outros assuntos
Escrito por Dom Quixote às 02h35
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Festa para os olhos

Estas esplêndidas imagens tratadas em computador são da artista gráfica portuguesa Isabel Filipe, nascida na ex-colônia de Moçambique, na África, e residente em Lisboa. Isabel mantém um blog de muito bom gosto, no qual vem publicando essas e outras criações, de temática voltada principalmente para o público feminino.

Se quiser conhecer mais acerca do trabalho dela, clique aqui. A visita vale também pelos links do blog, que levam a outras páginas portuguesas de qualidade na internet.



Categoria: Outros assuntos
Escrito por Dom Quixote às 04h36
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Jóias da MPB

Por que queimar minha fogueira
E destruir a companheira?
Por que sangrar o meu amor assim?
Não penses ter a vida inteira
Para esconder teu coração.
Mais breve que o tempo passa
Vem de galope o meu perdão.
Por que temer a minha fêmea
Se a possuis como ninguém?
A cada bem, do mal, do amor em mim,
Não penses ter a vida inteira
Para roubar meu coração.
Cada vez é a primeira,
Do teu também serás ladrão.
Deixa eu cantar
Aquela velha história, amor.
Deixa eu penar,
A liberdade está na dor.
Eu vivo a vida, a vida inteira,
A descobrir o que é o amor:
Leve pulsar do sol a me queimar.
Não penso ter a vida inteira
Para guiar meu coração.
Sei que a vida é passageira,
Mas o amor que eu tenho, não.
Quero ofertar
A minha outra face à dor.
Deixa eu sonhar
Com a tua outra face, amor.
Não penso ter a vida inteira
Para guiar meu coração.
Sei que a vida é passageira,
Mas o amor que eu tenho, não.
Quero ofertar
A minha outra face à dor.
Deixa eu sonhar
Com a tua outra face, amor.

Esta obra-prima, Fogueira, composta por Ângela Rô Rô, nascida Ângela Maria Diniz Gonçalves, no Rio de Janeiro (5/12/49), com sua lancinante letra e também tocante melodia, merece ser ouvida sempre, sobretudo nas vozes de Maria Bethânia e da própria compositora.

Em homenagem domingueira aos seus poucos mas muito qualificados leitores, este blog oferece um link para um precioso álbum de música popular brasileira, chamado Grandes Intérpretes da MPB, lançado pelo selo Mercury, em 1999. Clique aqui para ter acesso por inteiro ao disco, cuja reprodução por extenso e não apenas de trechos é propiciada pela Rádio Terra, hospedada no portal Terra.

Nele se podem ouvir não só Ângela Rô Rô interpretando sua grande criação como também Zizi Possi, sua companheira de tempos idos, em outra maravilha, composta por José Miguel Wisnick, Mais Simples. Isso, para não falar de Romaria, de Renato Teixeira, com a maior cantora brasileira, Elis Regina. E ainda de Amigo é pra Essas Coisas, de Aldir Blanc e Sílvio da Silva Jr., com o MPB4; Disparada, de Geraldo Vandré e Theo de Barros, com Jair Rodrigues; As Rosas Não Falam, de Cartola, com Emílio Santiago; Mas que Nada, de Jorge Ben, cantada pelo próprio; O Trenzinho Caipira, extraído das Bachianas de Villa-Lobos, com Edu Lobo; Pérola Negra, de Luiz Melodia, com ele próprio; Acalanto, um diamante dedicado por Dorival Caymmi à filha Nana, então recém-nascida, e que talvez seja tão importante na história da música quanto a clássica Canção de Ninar, de Brahms; e Este seu Olhar, de Antônio Carlos Jobim, com a eterna musa da bossa-nova, Nara Leão. Enfim, um regalo.



Categoria: Outros assuntos
Escrito por Dom Quixote às 12h28
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Blogs lucrativos

Blogueiros, animem-se. O hobby de hoje pode tornar-se o ganha-pão de amanhã. Isso já está acontecendo nos Estados Unidos, como se pode ler por reportagem publicada hoje em O Globo, assinada por Helena Celestino, correspondente do jornal em Nova York. Um dos segredos do sucesso nessa área, conta ela, está em formar uma rede de colaboradores, embora também haja milionários que se fizeram sozinhos. Eis a íntegra da reportagem:

"Como milhares de universitários, Jen Chung, 29 anos, mandava e-mails para seu grupo de colegas no curso de Economia da Columbia University, com histórias interessantes de Nova York, fazendo críticas de restaurantes, listas dos melhores shows de rock, descobrindo bares novos, contando o dia-a-dia da cidade. Já formada e entediada com seu trabalho numa agência de publicidade, criou um blog com seu ex-colega de faculdade, Jacke Dobkin, também de 29 anos. Com a contribuição de milhares de “olheiros” pela cidade, acabaram fazendo um completíssimo serviço de Nova York: “Gothamist” virou uma referência e hoje ocupa o 90.o lugar no ranking de 27 milhões de blogs que povoam a internet e chegam a faturar US$ 1,5 milhão por ano.

Jen e Jacke são hoje blogueiros profissionais, ainda uma raridade nesta congestionada nova mídia. Eles têm um escritório no Upper West Side, estão montando uma rede de blogs cobrindo 15 cidades e vêm investindo pesadamente em infra-estrutura e manutenção. “Gothamist” está ligado a centenas de outros blogs, é visitado por 65 mil pessoas por dia, recebe de 1.500 a duas mil contribuições diárias e tem entre seus anunciantes até o poderoso “The New York Times”.

— Vasculhamos as várias mídias e postamos o que achamos interessante. Nos últimos seis meses, nosso público cresceu 20% ao mês — conta Jen, evitando detalhar quanto cobra pela publicidade de restaurantes, hotéis e do mercado imobiliário estampada no seu site.

Eles fazem parte do blog boom , um fenômeno mundial. Tecnologia, sexo, política, fofoca e serviço são as grandes atrações nesse planeta que primeiro popularizou-se como espaço para adolescentes expressarem emoções mas já virou um negócio capaz de fazer novos milionários e mexer com a mídia tradicional. A grande maioria dos blogs é irrelevante, mas no meio de muita bobagem, há um poderoso grupo de blogs Classe A com valor comercial e repercussão na vida nacional, especialmente nos Estados Unidos.

Claro que os números ainda são modestos se comparados a outros ramos da economia, mas o maior negócio já fechado por um blog chegou a US$ 25 milhões, não exatamente uma soma desprezível: foi a compra pela AOL da Weblogs, uma companhia guarda-chuva para vários blogs , cujo carro-chefe é o Engadget, segundo no ranking da blogosfera, editado pelo skatista punk Peter Rojas, um obsessivo decifrador dos gadgets de nova tecnologia. Ele não conta quanto ganhou nessa transação mas reconhece que tecnicamente não precisa mais trabalhar, embora continue passando 80 horas por semana postando sem parar informações no computador.

— Qualquer um pode começar um blog e fazê-lo crescer, mas é um trabalho infernal. Começo antes do dia nascer e não paro até a hora do jantar — disse à revista “New York”.

Os blogs mais importantes têm audiência equivalente à de revistas e jornais de cidades de médio porte. Conseguem impor aos anunciantes uma tabela de preços que varia muito, mas a maioria tem como base o número de leitores."



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Escrito por Dom Quixote às 09h14
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O PT e a imprensa

Desde antes do Carnaval está no site do PT um artigo assinado por uma pessoa que se diz jornalista, chamada Rosana Ramos, e que expressa bem o desapreço desse partido, ou pelo menos de uma boa parcela dele, para com a democracia. Fosse outra a realidade atual do país, alguém capaz de formular idéias tão absurdas e tendenciosas de manipulação da imprensa, e por meio dela da opinião pública, não mereceria a menor atenção. Passaria por louco ou débil mental. Infelizmente, porém, a realidade é essa que estamos vendo. E como se trata de um artigo acolhido no site do principal partido do governo, estando assim chancelado com certo caráter oficial, o delírio totalitário de dona Rosana merece o desprazer de ser comentado.

Sob o título Uma propaganda de classe, cuja dubiedade seria reprovada até em redação escolar – isso, para não falar dos grosseiros erros gramaticais do corpo do texto -, depois de investir contra as revistas Veja e Primeira Leitura, exemplos do que ela vê como instrumentos de ataque da direita contra a esquerda, na área de comunicações, a autora sugere ao PT discutir, no próximo Encontro Nacional, a elaboração de um programa estratégico para implementar mudanças na área. E quais seriam essas mudanças? As seguintes, de acordo com suas palavras:

1. "O PT precisa investir na constituição de uma rede de comunicação própria que contemple a informação à militância, formação política e, fundamentalmente, uma comunicação de massa, com a criação de instrumentos capazes de fazer a disputa ideológica junto à sociedade." O objetivo principal, portanto, não estaria no fornecimento de informações isentas e honestas, mas na lavagem cerebral dos leitores para transformá-los em ovelhas do rebanho petista.

2. "No âmbito do governo, a comunicação tem que ser assumida como política pública. Assim como a saúde, a educação e a cultura, a comunicação é um direito. E a população tem que ter acesso à informação, ao conhecimento e aos meios de produção e propagação de idéias. Um governo de esquerda deve fomentar o desenvolvimento de veículos alternativos como rádios comunitárias e canais de televisão ligados ao governo e aos movimentos sociais." Aqui, há uma confusão danada entre direitos da coletividade, serviços a serem prestados pelo governo e apoio a manifestações de minorias sectárias como o MST. E ainda, bem pior, como raciocínio a justificar tais medidas, algo monstruoso, gestado pela noção de que o próprio Estado deve servir de instrumento partidário para o proselitismo político. Foi exatamente por pensar assim que o PT fez o que fez nos últimos anos, tomando de assalto o aparelho e os cofres públicos para, com os recursos arrecadados, comprar apoio parlamentar a seu projeto de poder.

3. "A tentativa de estabelecer 'boas relações' com o monopólio da mídia, ao invés de combatê-lo com a criação de novos canais alternativos, foi um dos principais equívocos do governo Lula. Entres dias 28 e 30 de abril, data em que será realizado o 13º Encontro Nacional do PT, a política de comunicação do partido terá que constar no debate sobre diretrizes do programa de governo. Sob pena de repetirmos o desastre nesta área." A frustrada tentativa de criação do Conselho Federal de Jornalismo, para amordaçar a imprensa, e as denúncias de que veículos de comunicação favoráveis ao governo foram aquinhoados com um enorme aumento de verba publicitária, em detrimento dos outros, desmentem que se tenha praticado política de boa vizinhança. Se equívocos houve, eles foram cometidos justamente na direção contrária à pretendida pela autora do artigo.

O texto termina assim: "Não é possível implementar um projeto de transformação social com informações mediadas pelas grandes empresas de comunicação. A direita sabe disso, mas parece que a esquerda não". Conclusão infantilóide, além de equivocada. A esquerda está careca de saber do poder da comunicação, tanto que sua parcela mais progressista e esclarecida é dona de importantes periódicos mundo afora. Quem não consegue acesso ao grande mercado, inclusive no Brasil, é a esquerda retrógrada e sectária, por sua pregação assustar os investidores e, dada a reduzida aceitação pelo público, não interessar aos anunciantes.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 02h32
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Boa intenção

Da maior importância, para a moralização dos usos e costumes no Congresso, é a iniciativa que está sendo tomada pelos deputados xarás Júlio Delgado (PSB-MG) e Júlio Redecker (PSDB-RS). Depois de mais duas absolvições, pelo plenário da Câmara, de parlamentares cujas cassações de mandato haviam sido recomendadas pelo Conselho de Ética, Delgado e Redecker buscam apoio para apresentar uma proposta de emenda constitucional que acaba com o voto secreto no julgamento de casos de quebra de decoro.

Segundo notícia publicada ontem no jornal O Estado de S. Paulo, Delgado, que foi o relator do processo pelo qual o ex-deputado José Dirceu perdeu o mandato, assegura já ter o número de assinaturas necessário para a apresentação da emenda. Redecker comemora. Para ele, não é justo expor apenas os integrantes do Conselho de Ética perante a opinião pública, por darem seus votos em aberto a favor ou contra a cassação. Também no plenário, afirma, a opinião do parlamentar tem de ficar clara.

Nota 10 para os dois deputados. Pena que sua proposta vá depender depois da aprovação de três quintos do mesmo plenário que vem absolvendo sistematicamente os mensaleiros. E, de novo, por voto secreto.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 00h11
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Mais do mesmo

Em pílulas, já que não vale a pena discutir muitos detalhes diante de um cenário político tão deteriorado como o atual:

Absolvições – Nenhuma surpresa com as decisões do plenário da Câmara dos Deputados, que ontem absolveu Roberto Brant (PFL-MG) e Professor Luizinho (PT-SP). Depois da demonstração anterior de corporativismo da casa, ao livrar da degola o deputado Romeu Queiroz (PTB-MG), não se poderia esperar outro resultado. Alguns parlamentares, como Orlando Fantazzini (PSOL-SP), relator do processo contra Luizinho no Conselho de Ética, e Júlio Delgado (PSB-MG), falam da suspeita de um acordão entre partidos da oposição e do governo, mas a questão parece ser mesmo é de falta de vergonha na cara. Outros lamentam o descaso do plenário com os pareceres aprovados no Conselho de Ética. Também é mais que isso. A maioria dos deputados está é se lixando para a opinião pública – aliás, chamada ontem de 'monstro' por Roberto Brant. Este blog renova a sugestão feita há algum tempo: absolvam todos os mensaleiros de uma vez só. Parem com essa palhaçada.

Verticalização – A promulgação, pelo Senado, da emenda que institui o vale-tudo nas coligações partidárias, sem respeitar o princípio constitucional da anualidade, não mostra apenas o quanto nossos políticos são capazes de atropelar a ética quando legislam em causa própria. Revela também o quanto eles são incompetentes. Bastaria aprovar, antes, uma outra emenda contra a anualidade em matéria de legislação eleitoral para que a farra do fim da verticalização fosse instituída sem problemas. Como os congressistas deixaram de fazer essa lição de casa, por descuido ou ignorância, agora têm de esperar pela palavra final do Supremo Tribunal Federal, mesmo aflitos em finalizar os acordos que lhes permitirão montar palanques eleitorais a seu bel-prazer em cada estado.

CPIs – A dos Bingos será prorrogada e a dos Correios, não, embora esta tenha avançado mais na apuração de denúncias de corrupção. Noticia-se que o presidente da comissão, senador Delcídio Amaral (PT-MS), costurou um acordo (mais um) com representantes de outros partidos para finalizar os trabalhos até o dia 10 de abril, como previsto, sob a duvidosa alegação de que a proximidade das eleições prejudicará as investigações. Um dos sub-relatores da CPI, Maurício Rands (PT-PE), comemora e contabiliza resultados. Diz que a comissão permitiu caracterizar a existência, além do valerioduto, do dimasduto, em referência ao ex-diretor de Furnas, Dimas Toledo, que a exemplo do publicitário Marcos Valério em relação ao PT teria montado um esquema financeiro ilegal para favorecer partidos da oposição. Mentira. Nada foi comprovado por enquanto no que se refere a esse suposto segundo duto, até por falta de tempo. Mas o PT joga a lama nos outros como se, com isso, limpasse a sua. Em meio a essas manifestações nada edificantes, pelo menos uma destoou de forma positiva: a do relator da CPI dos Correios, Osmar Serraglio (PMDB-PR), que queria prorrogar o prazo dos trabalhos para investigar a denúncia da revista Veja de que há mais de 50 mensaleiros impunes em seu partido.

E assim, salvando-se quase todos os envolvidos no maior escândalo de corrupção da história da República, segue em frente o Brasil, rumo às novas eleições.



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 01h19
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O boxe no cinema

A exibição por um canal de TV paga, neste mês, do maravilhoso Menina de Ouro (Million Dollar Baby, 2004), de Clint Eastwood, reaviva nos cinéfilos a lembrança dos grandes filmes sobre boxe produzidos ao longo do tempo. Tendo por tema esse esporte por vezes mortal ou contando uma história relacionada indiretamente a ele, o cinema se deixou povoar por personagens ricos em densidade humana, construídos o mais das vezes no submundo do jogo e da contravenção, e na condição de derrotados pela vida quando vitoriosos no ringue. E o fez por tantas vezes que esses filmes moldaram quase um gênero americano por excelência, como são os westerns, com a diferença essencial de ter anti-heróis como personagens principais.

Além de Menina de Ouro, fazem parte dessa vertente filmes que vão do clássico Punhos de Campeão (The Set-Up, 1949), de Robert Wise, à obra-prima Cidade das Ilusões (Fat City, 1972), de John Huston, passando por outros grandes títulos como Trágica Farsa (The Harder They Fall, 1956), de Mark Robson, Réquiem por um Lutador (Requiem for a Heavyweight, 1962), de Ralph Nelson, A Grande Esperança Branca (The Great White Hope, 1970), de Martin Ritt, e Touro Indomado (Raging Bull, 1980), de Martin Scorsese.

Já o boxe como tema de referência lateral está presente em pelo menos dois dos maiores filmes da história do cinema, Depois do Vendaval (The Quiet Man, 1952), de John Ford, e Sindicato de Ladrões (On the Waterfront, 1954), de Elia Kazan. Ambos se assemelham na história de ex-pugilistas que se redimem usando os punhos, constituindo nesse aspecto uma vertente, digamos, mais positiva que a dos clássicos baseados no boxe como tema central, mas fora disso nada mais têm em comum. O Marlon Brando de Sindicato é o personagem dark pelo qual Kazan procura justificar sua atitude de ter denunciado colegas do Partido Comunista ao macartismo na década de 50, enquanto o John Wayne de Vendaval é o mesmo caubói dos westerns que estrelou para Ford, transposto para a luminosa Irlanda das memórias de infância do grande diretor.

Esperemos que a saga dos extraordinários filmes sobre boxe ou com referências ao esporte - considerado por muitos uma nobre arte por conta de um Cassius Clay, um Sugar Ray Robinson ou um Éder Jofre, apesar de sua selvageria latente – não termine com alguma dupla de gays sobre o ringue, como ousaram no western. Ao mudar o sexo de seu personagem, de homem no conto original para mulher, em Menina de Ouro, o grande Clint talvez estivesse pensando em renovar o gênero para assegurar sua continuidade, ele, que a certa altura da vida precisou ir para a Itália em busca dos papéis de caubói que Hollywood se recusava a levar para as telas do cinema.



Categoria: Outros assuntos
Escrito por Dom Quixote às 02h44
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Chamem os 3 Patetas

O bordão "nunca antes na história", empregado pelo presidente Lula, cabe como luva neste episódio de comédia pastelão protagonizado por integrantes do primeiro time do Executivo. A julgar por ele, nunca houve, de fato, um governo tão trapalhão.

Ontem, apenas um dia depois de a secretária de Políticas para Mulheres, Nilcéia Freire, anunciar a medida provisória que permite, a partir da declaração do Imposto de Renda no próximo ano, o desconto pelos empregadores da contribuição de 12% recolhida ao INSS sobre a remuneração paga (de até um salário mínimo) ao empregado ou empregada doméstica, o secretário da Receita Federal, Jorge Rachid, veio a público para desmentir quase tudo o que sua colega de governo havia dito.

Segundo Rachid, para começo de conversa a MP só vale até 2012, ano em que poderá ser mudada ou simplesmente extinta, e não tem efeito retroativo, como fez crer Nilcéia. Assim, o benefício fiscal estará limitado, no próximo ano, a apenas 378 reais, contra os 522 reais calculados na véspera por Nilcéia (que na verdade seriam 528, se ela tivesse feito a conta certa – veja nota abaixo). É que, explicou ele, como a MP produzirá efeito a partir de 1.o de abril, quando também entra em vigor o novo salário mínimo, de 350 reais, e como o 13.o salário pago ao empregado ou empregada não pode ser computado, o empregador pessoa física somente terá direito a deduzir nove meses de contribuição ao INSS, e não treze, como anunciara Nilcéia, com seu cálculo retroativo.

O secretário da Receita também deu a má notícia de que o contribuinte terá de optar pelo modelo completo de declaração de renda para receber o benefício. Em geral, nesse modelo o desconto permitido de despesas em educação e saúde e com dependentes é inferior ao do formulário simplificado, principalmente para contribuintes situados na faixa intermediária de renda.

Tudo computado, depois de corrigir os erros de informação da secretária Nilcéia, adicionar a má notícia dada por Rachid e fazer os cálculos com a tabela progressiva do imposto, pode-se concluir que o contribuinte que tenha empregada doméstica com carteira assinada não receberá mais do que 50 reais como devolução do leão do fisco, na faixa de rendimento salarial de 2.500 reais mensais. É risível que o secretário Rachid ache isso suficiente para promover a inclusão no mercado formal de mais de 1 milhão de empregadas domésticas no país. E é inacreditável que o governo anuncie de forma tão desastrada, como o fez por meio da secretária Nilcéia Freire, uma medida que interessa a milhões de famílias brasileiras.



Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 00h27
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Traque de São João

O alardeado pacote de benefícios fiscais para o trabalho doméstico não passou, afinal, de um traque, aquela bombinha inofensiva de antigamente, feita para a diversão de crianças nas festas juninas. Programado para ser o principal evento do Dia Internacional da Mulher, na próxima quarta-feira, o anúncio do pretenso pacote foi antecipado para hoje, sem pompa nem circunstância, depois do esvaziamento sofrido pelos incentivos em estudo. O presidente Lula assinou às pressas uma medida provisória a respeito antes de viajar para Londres, em mais uma de suas visitas oficiais a países estrangeiros feitas sem nenhum resultado prático, e o anúncio da decisão coube à secretária de Políticas para Mulheres, Nilcéia Freire.

Foi o chamado anticlímax, diante do barulho feito pela claque do governo sobre as duas reuniões em grand comité, com o presidente e meia dúzia de ministros e secretárias especiais, entre elas Nilcéia, realizadas para discutir o assunto no Palácio do Planalto, antes do Carnaval. Um traque, enfim, assim como o conteúdo revelado do agora pacotinho: apenas o direito de o empregador deduzir de seu Imposto de Renda, a partir de 2007, os 12% de contribuição recolhidos ao INSS sobre o salário pago ao empregado ou empregada doméstica.

Quanto mais a pobre da secretária de Políticas para Mulheres explicava os detalhes da decisão aos jornalistas, hoje em Brasília, mais o pacote diminuía de tamanho. Ela disse, por exemplo, que só os empregadores pessoas físicas terão direito ao abatimento do imposto no próximo ano e que o benefício está limitado a valores calculados sobre um salário mínimo. Além disso, errou nas contas, ao situar em 522 reais o teto desse benefício. Se o novo mínimo de 350 reais, como promete o governo, passar a valer mesmo a partir de 1.o de abril, a soma de 300x12%x3 e 350x12%x10, com o 13.o salário incluído, resulta em 528 reais.

Esse valor corresponde a menos da metade da mensalidade escolar cobrada hoje no ensino médio ou superior pago de bom nível nas principais cidades do país. Ou seja, é quase uma miséria, do ponto de vista das famílias com filhos em escola paga e empregada doméstica. Para piorar, na declaração de renda ele se reduz ainda mais, porque o abatimento do imposto é diluído pela tabela progressiva.

Para entender melhor, tome-se como exemplo o caso de um assalariado classe média que ganhe por mês 2.500 reais, brutos, e sua renda seja a única da família. Pela atual tabela progressiva do Imposto de Renda, seu rendimento tributável será de 24.000 reais no ano, com o desconto-padrão do modelo simplificado, e seu imposto devido, de 1.337 reais. Como a retenção na fonte terá sido, de acordo com a tabela, de 2.237 reais, ele receberá uma restituição de 900 reais da Receita Federal.

Agora, suponha-se que ele pague um salário mínimo ou mais a uma empregada doméstica e por isso faça jus ao abatimento integral dos 528 reais no IR. Seu rendimento tributável cairá então para 23.577 reais no ano, e seu imposto devido, para 1.273 reais. Com uma retenção na fonte, de acordo com a tabela, de 2.237 reais, sua restituição será de 964 reais. Ou seja, o pacotinho de ajuda do governo vai representar para ele, no fim das contas, um ganho de apenas 64 reais no ano.

É com essa merreca que se pretende estimular as famílias a regularizar a situação funcional das cerca de 1,1 milhão de empregadas domésticas no país que hoje trabalham sem carteira assinada? Chegou-se a esse pífio benefício, segundo se noticia, porque nem a Receita Federal nem muito menos o INSS dos rombos bilionários concordaram com uma medida mais ampla de renúncia fiscal. Mas entre dar um estímulo que mais parece uma esmola e não fazer nada, era até melhor que o governo tivesse ficado com a segunda solução.



Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 20h23
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Que país é este?

Que país é este, em que o prefeito de uma cidade importante e figura de primeira linha de um grande partido político é seqüestrado, torturado e morto com oito tiros e as autoridades policiais encerram as investigações apenas dois meses depois, concluindo ter-se tratado de crime comum, apesar dos indícios de ser, ao contrário, um crime encomendado e com interesses políticos?

Que país é este, em que os próprios irmãos do prefeito assassinado, Celso Daniel, denunciam ter havido em sua Prefeitura, em Santo André, no ABC paulista, um esquema de corrupção para arrecadar fundos para o partido do qual ele fazia parte, o PT, e mesmo assim, mais de quatro anos após o crime, quase nada ainda se apurou a respeito?

Que país é este, em que sete testemunhas do crime, entre elas o próprio médico-legista que examinou o cadáver do prefeito, morreram depois em circunstâncias misteriosas, e mesmo assim a polícia não consegue enxergar nenhuma conexão com a morte inicial?

Que país é este, em que uma empresária do setor de ônibus da cidade, Rosângela Gabrilli, confirmou em depoimento à CPI dos Bingos estar sendo extorquida desde 1997 pelo esquema de corrupção apontado pelos irmãos do prefeito assassinado, e mesmo assim também nada ainda se apurou sobre essa grave denúncia ou sobre as ameaças que ela e sua irmã, Mara, dizem ter sofrido?

Que país é este, em que os irmãos do prefeito assassinado, João Francisco e Bruno, com as respectivas famílias, tenham agora de sair do país também por motivo de segurança, diante das ameaças por carta e e-mail que vinham recebendo desde o depoimento dado por eles à CPI dos Bingos, em outubro do ano passado?

Estamos sob o domínio da Máfia, de gângsteres, com assassinatos impunes e pessoas inocentes sendo ameaçadas de morte apenas por dizer a verdade ou defender a memória de um irmão? Onde está o Estado, que deveria proteger essas pessoas, esclarecer os crimes, prender os autores das ameaças, pôr a limpo toda essa história do suposto esquema de corrupção em Santo André? Ou existe um imenso conluio de interesses por trás da impunidade?

Que país é este, em que a indignação pública é tratada pelo Estado com tamanho desdém?



Categoria: Política
Escrito por Dom Quixote às 04h19
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Os bancos e o poder

Bancos lucram muito no Brasil porque trabalham com os juros mais elevados do mundo, cobram por serviços que deveriam prestar de graça, praticam um spread (diferença entre taxas de captação e de aplicação de recursos) escandaloso, aplicam suas sobras de caixa em operações interbancárias de um dia para o outro e em títulos públicos com alta remuneração, atuam como repassadores de créditos do governo com gordas comissões e ainda pagam miseravelmente a maioria de seus empregados. Tudo isso é feito em nome da segurança da instituição financeira, uma alegação defensável: afinal, dá para imaginar o estrago que seria causado na vida de milhões de correntistas e investidores se um grande banco quebrasse. No capitalismo, ademais, quem fixa o preço de um produto ou serviço não é o detentor do bem, mas o consumidor. Os juros do cartão de crédito, do cheque especial, dos empréstimos pessoais ou dos financiamentos de capital de giro podem ser escorchantes, mas são cobrados de quem os procura e aceita, depois de comparar as condições exigidas com as da concorrência. Portanto, desse ponto de vista os bancos não estão cometendo nenhuma ilegalidade, nem sequer uma irregularidade.

Entre a incolumidade necessária da rede bancária e o nível aceitável de seus lucros há, no entanto, um espaço controverso. Na questão do altíssimo spread, justificado pelos bancos com argumentos que vão da cunha fiscal existente em suas operações ao dos riscos de alta na inflação e da inadimplência (o país também é um dos campeões mundiais do calote), é passível de discussão, por exemplo, o fato de a autoridade reguladora, no caso o Banco Central, não impor nenhuma restrição às taxas cobradas nos empréstimos com recursos de livre captação, ou seja, obtidos no mercado e não derivados de repasses do governo. Para evitar abusos, já que as instituições financeiras de modo geral – bancos, financeiras, corretoras e outras – funcionam por concessão do poder público, talvez esteja na hora de adotar algum controle sobre a margem de ganho por tipo de empréstimo. No passado tentativas do gênero deram errado por basear-se na solução simplista de tabelar os juros sem levar em conta a inflação acelerada. Hoje, com a estabilidade monetária e a conseqüente diminuição das receitas do chamado floating inflacionário, é possível estudar medidas mais técnicas, porque o cálculo dos custos de captação dos bancos e também de seus ganhos foi facilitado. Mesmo assim, as autoridades monetárias limitam-se a exigir o recolhimento compulsório de parte dos depósitos bancários, um instrumento que, além de ser inócuo para colocar um freio nos lucros excessivos do sistema, só contribui para aumentar ainda mais o preço do dinheiro na economia.

Para os bancos, quanto menos mudanças houver na atual situação, melhor, porque é graças a ela que vêm colecionando ganhos recordes nos últimos anos. Por conta desse interesse, esmeram-se em agradar o poder. Ao contrário do que reza o ditado espanhol do "hay gobierno, soy contra", são a favor, não importando o governo. Principais financiadores do PSDB no passado, bandearam-se de mala e cuia para os lados do PT. Entre 2002 e 2004, mostra reportagem de Rubens Valente e Marta Salomon, publicada no jornal Folha de S. Paulo, aumentaram em cerca de 1.000% suas doações ao caixa do partido, em nível nacional e no estado de São Paulo. De 520.000 reais saltaram para 5,7 milhões. As contribuições dadas à campanha eleitoral do PT no país, em 2004, foram as maiores entre todos os partidos, chegando a 7,9 milhões de reais, praticamente o dobro dos 4,1 milhões doados à campanha do PSDB, a legenda favorita até o fim do mandato presidencial de Fernando Henrique Cardoso. Clique aqui para ler a íntegra da reportagem, para assinantes do UOL.

Ao doar dinheiro à luz do dia para partidos políticos, declarando-o no Imposto de Renda, os bancos não cometem nenhuma ilegalidade, sequer uma irregularidade. Mas o destino que dão a esse dinheiro, em linha com a mudança dos ocupantes do centro do poder, trai suas não declaradas segundas intenções.



Categoria: Economia
Escrito por Dom Quixote às 02h26
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