DOM QUIXOTE

Mário Watanabe, jornalista e cultor de generalidades, oficial da Ordem do Cavaleiro da Triste Figura, corintiano desde criancinha



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Economia



O grau de investimento

Funcionários da administração do Tesouro brasileiro e de um banco americano em Wall Street abriram champanhe. Não era para menos. O Brasil conseguiu, pela primeira vez, atingir o grau de investimento, na avaliação da Standard & Poor’s, S&P, a maior agência de rating do mundo. Candidata-se, assim, a receber um rio de dólares, já que enormes fundos de pensão americanos, bancos internacionais e outros aplicadores conservadores tiveram removido um empecilho legal para investir aqui. O Ibovespa, índice da Bolsa de Valores de São Paulo, subiu 6,3% no primeiro pregão após a notícia, hoje chegou a passar dos 70 000 pontos e pode valorizar-se muito mais ainda. Já o dólar fechou hoje a 1,65 real, a menor cotação desde 10 de maio de 1999.

Lula comemorou à sua maneira, ou seja, diante de um microfone. Disse que se tratava de uma conquista do povo brasileiro. Foi até modesto, ao contrário de seu ministro da Fazenda, que acha que o grau de investimento veio só porque a economia brasileira – da qual supostamente é o dono da quitanda - está crescendo. Mantega se julga um economista tão competente que não hesita em calcular o impacto exato, em centésimos de porcentagem, de uma alta do óleo diesel na inflação. Para que perder tempo pensando em como um frete mais caro pode influir nos preços de uma infinidade de produtos agrícolas e industriais transportados nos caminhões? Decisões de reajuste, como o ministro e o mundo sabem, variam de empresa para empresa. Mesmo numa prova de curso de graduação Mantega seria reprovado com tal resposta.

Muito mais responsável do que o ministro pelo grau de investimento obtido é o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, porque as agências de rating apenas quantificam o risco no qual incorrem os investidores externos. Isso tem a ver muito mais com as condições de solvência do país e de suas empresas que tomam crédito no exterior, ou seja, a capacidade de honrar os compromissos assumidos com os credores, do que com o crescimento momentâneo da economia. Ao seguir ao pé da letra o regime de metas de inflação durante já quase um mandato e meio de governo, Meirelles tornou a economia brasileira muito mais previsível do que no passado, estimulando assim o setor privado a investir. Tudo o mais – crescimento da produção, da renda e do crédito, acúmulo de reservas, mesmo uma redução prolongada de juros – vem por conseqüência. Lula, é forçoso assinalar, teve um grande mérito ao manter Meirelles no cargo contra todas as pressões palacianas, com o vice Alencar e a ministra Dilma à frente, e dos ideólogos e economistas de meia-tigela do PT. Fez mais: embora graças ao aumento da arrecadação e não do corte de despesas, não abriu mão de gerar superávits primários na execução fiscal, e não deixou mexer no câmbio flutuante. Ou seja, seguiu direitinho a cartilha deixada pelo antecessor, Fernando Henrique Cardoso, mas até por isso merece aplausos, porque se adotasse o receituário petista nem dá para imaginar como estaria o Brasil a esta altura. Em melhor situação do que a atual não, com certeza.

De toda forma, a classificação dada pela S&P representa apenas uma conquista parcial. Para ser de fato um país grau de investimento, o Brasil ainda precisa de confirmação por parte de duas outras agências, a Fitch e a Moody’s. A primeira deverá fazê-lo em breve, uma vez que uma sua equipe esteve em Brasília para falar com técnicos do governo nesta semana. Já a Moody’s tem sido a mais crítica das três grandes agências, por entender que há uma fragilidade na área fiscal, com o aumento das despesas correntes do governo, e uma outra no perfil da dívida mobiliária federal, com uma alta concentração de vencimentos de curto prazo. A elevação da nota por ela não é, portanto, favas contadas. Além disso, por detrás das borbulhas de champanhe se pode ver que mesmo na escala de classificação da S&P o Brasil alcançou apenas o primeiro dos dez degraus de países tidos como confiáveis para investimento. Liderados pelos EUA, um conjunto de nove países, sendo seis europeus, mais a Austrália e o Canadá, está no topo da lista, com a nota AAA. Na América Latina, estão na frente do Brasil o México e o Chile, este, cinco degraus acima. Também não existe cadeira cativa nesse clube dos países confiáveis, como mostra a Colômbia, rebaixada para o grau especulativo pela S&P.

É bom, portanto, não exagerar nas comemorações, porque além das fragilidades apontadas pela Moody’s existem mais algumas, sendo a mais grave o estado lastimável da infra-estrutura, que põe a perder parte das safras de grãos nas estradas intransitáveis. Junto com as precárias vias de acesso, a absurda carga tributária, em primeiro lugar, e os altos juros, em segundo, compõem o que se conhece como custo Brasil, um handicap na exportação. E por falar nisso convém não esquecer que, no momento, a luz amarela pisca num fator conjuntural. De superavitárias as contas externas se tornaram deficitárias, com o desmesurado aumento das importações e das remessas de lucros para o exterior, causado pelo real valorizado. Em apenas três meses, de janeiro a março, foram 10,3 bilhões de dólares no vermelho. Há um colchão de segurança no nível das reservas, 195 bilhões de dólares, mas esse déficit conjuntural precisa ser corrigido antes que se transforme numa bomba-relógio. Por último, mas não menos importante, como diriam os ingleses, não se pode esquecer do desaquecimento da economia americana, em decorrência da crise de crédito imobiliário. Os efeitos já se espalham por outras economias, e o Brasil, pelas fragilidades apontadas, não está imune a uma perda cambial de grandes proporções.

Esperemos que o pior não aconteça. Mas, como prevenir é melhor que remediar, quanto antes se começar a consertar a infra-estrutura e promover as reformas que ainda faltam nas áreas previdenciária, tributária e sindical, sobretudo, melhor. Em outras palavras, Lula tem de descer do palanque e começar de fato a governar.



Escrito por Dom Quixote às 20h48
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Um dilema fiscal

A manchete deste domingo do jornal O Estado de S. Paulo, de que a sonegação de impostos no Brasil atinge o equivalente a 30% do PIB, é de deixar qualquer um embasbacado. Ou seja, de acordo com uma estimativa do professor de finanças André Franco Montoro Filho, como a carga tributária chega a 35% do PIB, se todos pagassem direito seus impostos o montante que o governo arrecadaria por ano seria de 65%. Que empresa poderia continuar produzindo e empregando se fosse obrigada a recolher quase 70% de seu faturamento para o fisco? Não é à-toa que haja tanta sonegação. Mais do que um ato ilegal e de má cidadania, é questão de sobrevivência.

A informalidade, no Brasil um quase sinônimo de sonegação de tributos, só tende a crescer quando o governo gasta mais do que deveria e, com isso, sufoca o setor privado. Mas o problema não se restringe aos camelôs. Aumenta também o número de microempresários, muitas vezes sem vocação nem talento, mas forçados a tentar um negócio próprio pela demissão e o desemprego. Sobrevivendo a duras penas, eles pouco diferem dos camelôs no que se refere às perspectivas de receita e crescimento. Segundo um dado recente, surgem por ano cerca de 450 000 novas empresas no país, sendo a grande maioria do tipo micro, de um dono só. Mais de metade delas fecha as portas antes de completar três anos. Em outras palavras, é desemprego disfarçado.

A fome arrecadatória do governo, ao sufocar quem produz, impede também a economia brasileira de deslanchar. Neste ano, segundo se estima, o PIB deve crescer 5%. É mais do que nos anos passados, mas muito menos do que outros países em desenvolvimento, sobretudo os asiáticos, estão crescendo. Mas será que o governo realmente se preocupa com isso? Quanto mais impostos forem cobrados, maior se torna o Estado, e isso é exatamente o que o PT quer, com seu projeto socialista. Dirigentes do partido vão à China ver como é que se faz para combinar regime autoritário com economia aberta e em rápido crescimento. Talvez se desapontem. Lá, pelo menos,  as coisas são feitas às claras, ao contrário daqui. E ao que se saiba não existe nenhuma tentativa de estatizar ou reestatizar empresas privadas, porque os dirigentes do PC chinês se preocupam em não afugentar os capitalistas externos.

Quem sabe o pessoal do PT volte da viagem convencido de que isso de reestatizar a Companhia Vale do Rio Doce não passa de uma idiotice. 



Escrito por Dom Quixote às 01h59
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Vá pegar o seu dinheiro

Se você declarava Imposto de Renda antes de 1983, preste atenção: pode ser que haja um dinheirinho no banco para resgatar.

Resumidamente, a história é a seguinte. Em 1967, o governo militar criou um incentivo fiscal chamado Fundo 157. As pessoas podiam aplicar nesse fundo usando uma pequena parte do imposto devido, no banco de sua escolha. Durante vários anos não era possível resgatar, de modo que muitas pessoas até se esqueceram do assunto depois que o incentivo acabou, em 1983. É claro, também, que apareceu muita empresa aproveitadora, que embolsava o incentivo fiscal e depois quebrava.

Um belo dia, a Receita Federal avisou que uma parte do fundo podia ser resgatada, desde que houvesse decorrido um certo número de anos a partir da aplicação. Algumas pessoas se deram o trabalho de ir ao banco pegar o dinheiro, outras não. O fato é que, hoje, segundo se diz, existem cerca de 500 milhões de reais nos bancos, à espera de resgate por parte dos antigos aplicadores no Fundo 157.

Se você pensa ter algo a ver com essa história toda, vá ao site da Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, autarquia tida como o xerife do mercado financeiro brasileiro. Digite www.cvm.gov.br, e procure no canto direito inferior da home page o espaço Acesso Rápido. Nele, clique em Consulta Fundo 157. Vai abrir uma janelinha para você digitar seu CPF. Pronto: o site mostra os bancos que provavelmente estão com o seu dinheiro, se você ainda não o resgatou.

O resto é com você e o seu gerente de banco.



Escrito por Dom Quixote às 23h12
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A queda da bolsa

Se você é investidor e tem parte do seu suado dinheirinho aplicada na bolsa, pode estar se perguntando, a propósito da atual queda: o comprador americano de casa própria resolve dar um calote e sou eu que pago a conta? Pois é disso mesmo que se trata, porque a crise do mercado imobiliário nos Estados Unidos lança uma sombra de incerteza sobre o futuro da economia daquele e de outros países ricos, e por extensão, de todo o planeta, com reflexos inevitáveis nas bolsas de valores. Mas o mais curioso neste momento, em que o mundo torce para que não sobrevenha o pior, é observar o motivo principal da queda no preço das ações.

Pode parecer estapafúrdio, mas acontece o seguinte: assustados com a crise imobiliária americana, os grandes investidores procuram melhorar seu grau de proteção. É natural que o façam, pois bancos internacionais já estão se negando a emprestar dinheiro para as companhias financiadoras de imóveis dos Estados Unidos, e sem crédito a crise nesse mercado só tende a aumentar. E como os grandes investidores se protegem? Vendendo suas posições em ativos no Terceiro Mundo, cujos países são eufemisticamente chamados de emergentes. Ou seja, tiram o dinheiro da bolsa do Brasil e de outros lugares assim e vão comprar o quê? Títulos do Tesouro americano, considerados os mais seguros do mundo. Entenda bem: o problema surgiu nos Estados Unidos, mas é justamente para lá que correm os grandes investidores em busca de proteção. Não é absurdo, é real. E o investidor brasileiro paga a conta, com a bolsa em queda.

Donde se conclui que pobre nasceu mesmo é para financiar o consumismo dos ricos.



Escrito por Dom Quixote às 18h08
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Negócio bilionário

Com a compra, inesperada pelo mercado, da Suzano Petroquímica por 2,7 bilhões de reais, em seqüência à participação adquirida no grupo Ipiranga, em conjunto com a Braskem e a Unipar, num negócio de 4 bilhões de dólares, a Petrobrás se recoloca como um dos protagonistas da indústria petroquímica no país. Ela, que liderou a implantação dessa indústria no Brasil por meio de sua ex-subsidiária Petroquisa, criada 40 anos atrás, praticamente se afastou da área na década de 90, por decisão governamental. No final dos 80, para se ter uma idéia, a Petroquisa, incorporada à Petrobrás em 2006, participava de 36 empresas, que no conjunto respondiam por mais de 70% da produção de petroquímicos no país. A Petroquisa atuou também como o elemento catalisador na criação dos três pólos petroquímicos regionais, em São Paulo, na Bahia e no Rio Grande do Sul. Entre 1992 e 1997, com o Programa Nacional de Desestatização, a companhia se desfez da maioria de suas participações em outras empresas. Mas agora, com a aquisição da Suzano Petroquímica, fabricante de polipropileno, matéria-prima plástica, a Petrobrás volta a controlar quase um terço da indústria petroquímica no Brasil, segundo O Estado de S. Paulo.

Bom para a Petrobrás e para seus acionistas, embora, segundo alguns especialistas, a estatal tenha pago 2,7 bilhões por uma empresa que valia, no máximo, 1,5 bilhão de reais. “A precificação de mercado é uma coisa momentânea e, para nós, essa aquisição é uma estratégia de longo prazo”, explicou Flávio Valadão, representante do banco ABN Amro, instituição intermediária na transação, em nome da Petrobrás. O que é péssimo é que, novamente, segundo noticia o Estadão, houve vazamento de informação privilegiada, assim como no caso Ipiranga. A Comissão de Valores Mobiliários, CVM, já está à caça das pessoas que se valeram da antecipação interna da notícia da compra da Suzano Petroquímica para investirem em suas ações na bolsa. A prática do crime de inside information  dá cadeia nos Estados Unidos. Aqui, no máximo, resulta em multa.



Escrito por Dom Quixote às 19h09
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Mapa do percurso do Expresso Aeroporto e de outros trens entre São Paulo e Guarulhos 

O governo volta atrás

Dez dias depois de o presidente Lula ter anunciado a construção de um novo aeroporto na região metropolitana de São Paulo, o governo voltou atrás e decidiu optar pela ampliação do aeroporto de Cumbica, para este receber os vôos transferidos de Congonhas. Prevaleceu na reunião de ontem no Palácio do Planalto, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, a posição do novo ministro da Defesa, Nelson Jobim, que numa conversa com o governador paulista José Serra teria sido convencido a adotar essa solução, mais ‘sensata’ do que a do novo aeroporto.

Trata-se de uma boa notícia, porque se governos – este, em especial – erram, é melhor consertar o erro a tempo do que persistir nele só para não dar o braço a torcer. E também porque, se um governador da oposição mostrou desprendimento para sugerir uma solução mais viável, o governo federal revelou humildade para aceitá-la. Não se poderia esperar outra atitude, tanto da oposição quanto da situação, quando o interesse do país está em jogo.

A construção de uma segunda pista principal em Cumbica permitirá praticamente dobrar a capacidade instalada para pousos e decolagens de jatos de grande porte no aeroporto, porque a pista auxiliar, já em uso, serve mais para os aviões menores. O obstáculo apontado pelo brigadeiro José Carlos Pereira, que está sendo substituído na presidência da Infraero por Jobim, a desapropriação de cerca de 5 000 imóveis para liberar uma área de escape para a nova pista, não representa nenhum grande problema. A um valor estimado de 50 000 reais por imóvel, naquela região de baixa renda, a desapropriação não custaria mais do que 250 milhões de reais, uma bagatela diante do que se gastaria com a construção de um aeroporto completo para vôos nacionais e internacionais.

Serra, segundo a reportagem de Vera Rosa e Leonencio Nossa, da sucursal de Brasília do jornal, quer também construir uma ferrovia entre Cumbica e o centro de São Paulo, com ajuda financeira do governo federal. Teria ainda falado a Jobim da conveniência de se ampliar o terminal de passageiros de Viracopos e construir uma nova pista rodoviária expressa entre Campinas e São Paulo, para melhorar a vazão dos usuários daquele aeroporto, o qual funciona como regra três de Cumbica, em dias de neblina intensa na região de Guarulhos.

Das palavras aos atos, hoje mesmo o governo paulista divulgou oficialmente a notícia de que a ferrovia começará a ser construída no início do próximo ano, e estará pronta em 2010. O custo total estimado é de 3,4 bilhões de reais, mas o erário deverá arcar com apenas uma parte dele, porque o principal ficará com o consórcio privado vencedor da licitação pública, no regime das parcerias público-privadas, PPP, que na área federal não saem do papel. De acordo com o projeto de referência desenvolvido pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, CPTM, o Expresso Aeroporto – nome do trem expresso – percorrerá os 31 quilômetros do trajeto em apenas 20 minutos, andando a 100 quilômetros por hora. O intervalo de saída dos trens será de 12 minutos, e 20 000 passageiros poderão ser transportados por dia. Haverá dois tipos de transporte. Um, o Expresso Aeroporto, ligará a capital ao aeroporto de Cumbica com poucas paradas. O outro, chamado Trem de Guarulhos, destina-se a usuários que moram naquela região, parando em várias estações até chegar ao Parque Cecap, em Guarulhos. De acordo com um mapa divulgado na ocasião do anúncio pelo governo paulista, o Expresso Aeroporto sairá da estação metro-ferroviária do bairro da Barra Funda, e passará pelas estações da Luz e do Brás, antes de deixar a capital com destino a Guarulhos.

Deve existir algum impedimento topográfico para a extensão da ferrovia de São Paulo até Campinas, passando por Guarulhos, para Serra ter pensado nessa alternativa. Porque, pela lógica, seria muito mais prático aos passageiros se locomoverem usando um único meio de transporte, no caso um trem expresso, do que dois ou mais. De qualquer forma, a solução apresentada pelo governador permite vislumbrar, mais cedo que se imaginava, a possibilidade de desativar para sempre o fatídico aeroporto de Congonhas para aviões de grande porte.



Escrito por Dom Quixote às 15h52
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Um novo confisco - 1

Poucas vezes há de ter ocorrido na história da República, afora o grande assalto ao bolso da população com o confisco da poupança por ordem do então presidente Fernando Collor, um episódio como o atual em que um governo democraticamente eleito faça de forma tão descarada o jogo de uma categoria empresarial, no caso, a dos banqueiros, contra os interesses maiores da coletividade. O governo Lula, assim, falta com seu dever primordial, que é o de proteger o povo, a maioria, contra os atentados à sua segurança, de ordem pessoal ou econômica, que possam ser cometidos por uma minoria.

O que está em curso é uma espécie de segundo confisco da poupança da população. Para se ter uma idéia do tamanho da maroteira, calcula-se, segundo alguns especialistas consultados pela repórter Márcia De Chiara, do jornal O Estado de S. Paulo, que os bancos públicos e privados estão devendo cerca de 1,9 trilhão de reais em indenizações aos poupadores, por conta de correções monetárias a menor feitas nos planos heterodoxos de combate à inflação Bresser (1987), Verão (1989), Collor 1 (1990) e Collor 2 (1991). Esse valor corresponde a cerca de um ano todo de PIB brasileiro, ou seja, algo como 900 bilhões de dólares em moeda atual. E o direito a ter esse ressarcimento é líquido e certo para os poupadores em geral, porque resulta de muitas ações judiciais já transitadas em julgado, com ganho de causa dado aos impetrantes contra os bancos.

Em tal circunstância, como um governo digno desse nome deveria agir? Obviamente, em primeiro lugar alertando a população sobre o fato. Em segundo, instruindo-a sobre os procedimentos necessários. Em terceiro, assumindo a ação coletiva, como defensor da população, colocando em jornais, revistas e sites um formulário a ser preenchido e entregue a algum órgão público para que este o encaminhe aos bancos. E, em quarto, mandando os bancos pagarem o que devem.

Mas alguém viu ou ouviu alguma declaração de um ministro do governo sobre isso? Leu algum anúncio colocado em site, jornal ou revista? Recebeu alguma instrução a respeito? Certamente que não. O governo se omite e cala, o que é sinônimo de proteger os banqueiros, em vez da população. E os banqueiros, para defender seus régios lucros, hoje maiores do que em qualquer outra época no país, também ficam mudinhos, com cara de santo. Nenhum comunicado aos clientes, de quem tomam tanto dinheiro. Só se mexem quando o poupador vai a uma agência reclamar seus direitos, pedindo uma cópia da microfilmagem dos extratos de contas de poupança mantidas em determinados períodos dos planos heterodoxos. Mas não de graça, claro. Cobram 7 reais por folha de extrato.

O titular das contas de caderneta ainda tem de munir-se de muita paciência para obter o ressarcimento. Com as cópias dos extratos na mão, precisa contratar um advogado especializado e esperar durante cerca de longos três anos até a ação ser julgada. O dinheiro também não lhe chega por inteiro. Os honorários de um bom advogado estão na faixa de 20 a 25% do valor total da indenização. Alguns bancos oferecem um acordo para que o cliente possa ter abreviado o tempo de espera. Mas aí, além dos honorários advocatícios, o cliente paga mais 10% para o banco.

De toda forma, como pouco é melhor que nenhum, vale a pena ir atrás. Afinal, se você possuía caderneta de poupança naqueles períodos, o dinheiro é seu.

Aliás, não só a caderneta de poupança. O problema da correção monetária a menor afetou igualmente o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, o FGTS dos trabalhadores assalariados, porque o indexador utilizado para ambos sempre foi o mesmo, antigamente a ORTN, e depois a TR. Mas sobre isso o mutismo é ainda maior, já que a obrigação pelo pagamento passa a ser diretamente do governo.

Não custa lembrar, mais uma vez. Esse governo que aí está foi eleito por um partido que se diz dos trabalhadores. Imaginem o que faria se outro nome o partido tivesse.

(Continua na postagem abaixo por limitação de espaço do blog)



Escrito por Dom Quixote às 01h24
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Um novo confisco – 2

O passo-a-passo a seguir, de instruções para os poupadores, foi copiado da reportagem de Márcia De Chiara, publicada no caderno de Economia do Estadão do dia 20 de março último:

"Agência – Procurar a agência bancária na qual tinha poupança em 1987, 1989, 1990 e 1991.

Documentos – Munido de CPF e RG redigir um requerimento para o banco solicitando a microfilmagem do extrato da poupança para os seguintes períodos: junho e julho de 1987; janeiro e fevereiro de 1989; abril e maio de 1990; janeiro, fevereiro e março de 1991. (Comentário do blog: se você conhece o gerente do banco, peça a ele, não precisa redigir o requerimento.)

Comprovante – Exigir o protocolo da solicitação. O banco não pode cobrar mais do que 7 reais por folha de extrato. (Comentário: este procedimento também não é necessário se você conhece o gerente. Só não dá para evitar a tarifa.)

Profissional – De posse dos extratos, o poupador deve procurar um advogado especializado para entrar com o processo.

Cálculo – Se o saldo da poupança na época for de até 14 000 reais (40 salários mínimos), ou de até 21 000 reais (60 salários), o processo poderá correr no juizado especial estadual e federal, respectivamente, sem advogado. Nesse caso, o poupador tem de saber fazer o cálculo da correção a que tem direito. (Comentário: o cálculo é praticamente impossível para os leigos. De 1987 para cá, não só a moeda nacional mudou três vezes de nome como os índices de inflação adotados oficialmente, e que deram base à correção monetária, variaram entre INPC, IPC, de novo INPC e depois IPCA. Para se fazer a correção é preciso montar um número-índice com mudanças para os diferentes índices de inflação no mês exato de sua adoção. Outro complicador para se chegar às cifras em real é que, em 1990, no Plano Collor 1, o valor da moeda foi dividido por 1 000 uma segunda vez. A primeira tinha sido em 1986, com o Plano Cruzado.)

Valor – Em caso de processo comum, as custas ficam em torno de 1% do valor da causa, com pagamento na entrada do processo.

Honorários – Os honorários advocatícios variam de 20% a 25% do valor da causa, pagos quando o poupador recebe o dinheiro."

Enfim, vá ao banco e boa sorte. Neste caso, como em outros, você estará sozinho, porque esse governo que aí está prefere ficar do lado dos poderosos. Povo, para ele, só serve para apertar os botões da maquininha eletrônica nas eleições.



Escrito por Dom Quixote às 01h19
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Miopia no marketing

Das cerca de 6,6 bilhões de pessoas existentes no mundo, hoje, 4 bilhões estão na chamada base da pirâmide social, com uma renda per capita anual inferior a 3 000 dólares, de acordo com um estudo divulgado nesta segunda-feira pela IFC – International Finance Corporation, braço de investimentos do Banco Mundial. Esses 60% da população mundial classificados como os mais pobres formam, no entanto, um enorme mercado de 5 trilhões de dólares por ano, merecendo, portanto, maior atenção por parte das empresas produtoras de bens de consumo e serviços, como diz o vice-presidente da IFC, Michael Klein. "O relatório dá força aos pedidos de maior engajamento dos negócios com a base da pirâmide econômica, ressaltando a necessidade do setor privado de desempenhar um papel maior no desenvolvimento", afirmou Klein no lançamento do estudo.

A concentração excessiva das empresas nos estratos de consumo suntuário, sobretudo em países pobres como o Brasil, constitui de fato um dos maiores casos de miopia no marketing industrial. Ajudadas pela força de penetração da TV, as indústrias bombardeiam diariamente as donas-de-casa com o anúncio de seus produtos voltados mais para as classes A e B, de alimentos a artigos de higiene doméstica e pessoal. Ou seja, dirigem-se a 100% do público quando, na verdade, apenas 20% ou 30% dele tem poder aquisitivo para consumir produtos desse tipo.

A propaganda massiva causa prejuízos evidentes à administração de orçamentos familiares modestos. Quando uma dona-de-casa, influenciada pela TV, adquire um produto de limpeza ao dobro ou mais do preço de um similar de caráter popular, ela está, obviamente, reduzindo a verba doméstica reservada para os gêneros básicos que alimentam a família, bem como para os transportes e a educação.

As próprias empresas também acabam pagando o preço pela insensibilidade diante da realidade social. Um exemplo clássico, ocorrido no Brasil, foi o da indústria automobilística. Quando tinha o Fusca como seu carro-chefe, a Volkswagen chegou a dominar 70% do mercado brasileiro. Algum executivo de opacas luzes, no entanto, decidiu que o foco da empresa seria dirigido aos segmentos de maior poder aquisitivo, e a fabricação do popular carrinho foi abandonada. Não contente, a Volkswagen ainda associou-se à Ford em busca de economias de escala, numa fusão que tinha tudo para dar errado, pela diferença de cultura entre as fabricantes alemã e americana. Resultado: acabou com os burros na água, perdendo a liderança de mercado e os lucros, e precisou voltar atrás na associação com a Ford. Enquanto isso, a esperta Fiat italiana lançou seu carro popular, o Uno, na brecha aberta com a saída do Fusca, e passou a ocupar o lugar que antes era da Volks.

O alerta feito pelo vice-presidente da IFC, portanto, merece ser ouvido por todas as empresas produtoras de bens de consumo. Na América Latina, onde 70% da população se situa na faixa dos mais pobres do mundo, não faz sentido um marketing concentrado em consumo suntuário. Os fabricantes, evidentemente, não precisam renunciar aos lançamentos mais elaborados, que dão maior lucro por unidade. Mas seria mais inteligente ampliar as opções para o mercado, com a oferta simultânea de produtos populares. Tal estratégia contribuiria não só para reforçar o conhecimento do nome da empresa, detalhe essencial na disputa pelos consumidores, como também para tornar mais estável no tempo o fluxo de receitas e lucros.

Nesse sentido, a indústria de celulares tem tido um comportamento exemplar, no Brasil como no resto do mundo. A ampla gama de seus produtos atende a praticamente todos os gostos e necessidades. Quem só quer telefonar tem os seus modelos, assim como aquele que também quer ouvir música, ver vídeos ou tirar fotografias. Para tornar completo o leque, falta um aparelho que permita sintonizar estações de TV, como já existe em outros países. Mas o serviço só terá sucesso com tarifa reduzida, porque ao atual custo por minuto ninguém quererá assistir por inteiro a um jogo de futebol ou a um capítulo de novela.

Nada se pode fazer, enfim, sem levar em conta o alcance do poder aquisitivo dos consumidores, se o objetivo dos fabricantes for o de ter uma ampla participação no mercado. Qualquer tentativa em contrário corre o risco de ser catalogada como de miopia no marketing.



Escrito por Dom Quixote às 15h08
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Lente cor-de-rosa

O Produto Interno Bruto, PIB, indicador das riquezas produzidas num país ao longo de um ano, cresceu em 2006 apenas 2,9% no Brasil, enquanto a média mundial atingiu 5,1% e a das nações emergentes, 6,5%. Também em 2005 o resultado tinha sido pífio: só 2,3% de crescimento. Assim, o governo Lula cumpriu seu primeiro mandato com uma taxa anual média no PIB de apenas 2,6%, praticamente igual à da primeira metade do governo antecessor, mesmo sem ter enfrentado, como aquele, crises internacionais e o desafio de promover profundas reformas na economia.

Há onze anos, desde 1996, o Brasil vem crescendo abaixo da média mundial. Num ranking de 177 países elaborado pelo Fundo Monetário Internacional, FMI, com base no crescimento econômico obtido nos últimos dez anos, o Brasil ocupa apenas a 142.a posição. Ou seja, estamos na rabeira, no meio daquela turma que na corrida de São Silvestre só entra para fazer figuração.

Por que crescemos tão pouco? Há várias razões, mas uma das principais é a enormidade da carga tributária que sufoca a sociedade brasileira. No ano passado, o peso dos impostos alcançou o equivalente a 38,8% do PIB, um recorde, depois de aumentar de novo cerca de 1 ponto percentual, como nos anos anteriores. Segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, IBPT, cada brasileiro pagou em média pouco mais de 4 400 reais durante o ano para sustentar o governo, aqui incluídos o federal, os estaduais e os municipais. "O excesso de tributação", disse o presidente do IBPT, Gilberto Luiz do Amaral, ao divulgar os dados ontem, "retira poder de compra dos salários, ao mesmo tempo em que aumenta o preço final de mercadorias e serviços, fazendo retrair o consumo, afastando investimentos produtivos e dificultando a geração de empregos formais".

Vivemos, enfim, uma situação deplorável por todos. Menos pelo presidente Lula, que ri e dança como a fazer troça da tristeza em volta. Em conversa com jornalistas durante o café da manhã de ontem no Planalto, segundo a colunista da Folha de S. Paulo, Eliane Cantanhêde, ele deu a seguinte declaração de boca cheia: "A área econômica está blindada pelo sucesso". Sucesso onde, cara-pálida? Será que ele pensa ser presidente de algum outro país?



Escrito por Dom Quixote às 00h13
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Almoço grátis

Sobra jogo de cena e falta objetividade nesse debate público sobre o PAC entre o governador paulista José Serra e o ministro Guido Mantega, da Fazenda. Serra está certo quando diz que o pacote de medidas é vago no que se refere à origem dos recursos, mas erra ao não explicar como o governo poderia sair da atual armadilha de juros altos e câmbio desvalorizado para obter o ambicionado crescimento econômico. E Mantega, que apesar de ser um dos pais do pacote não encontra argumentos técnicos para defendê-lo, refugia-se em ironias de palanque para mascarar a própria incompetência. "É capaz de ela (a oposição) ficar sem discurso se o PAC for um programa coerente, consistente e eficaz", disse ele ontem, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, em resposta às críticas feitas por Serra. O emprego do condicional mostra que nem ele tem certeza do acerto das medidas.

Por ironia, a voz da razão em meio ao tiroteio entre o governo e a oposição em torno do assim chamado Programa de Aceleração do Crescimento tem sido a do presidente Lula, que não possui diploma de economista como Serra e Mantega. Em Davos, na Suíça, onde foi participar do Fórum Econômico Mundial, Lula disse ontem, dois dias depois de o Banco Central reduzir a taxa Selic em apenas 0,25 ponto percentual, para 13% ao ano – e não em 0,5 ponto, como esperavam parte do mercado e o próprio Mantega -, que os juros não podem cair por mágica. "Todos nós gostaríamos de uma taxa mais baixa no Brasil, mas você não pode reduzi-la por mágica", afirmou.

De fato, nas atuais condições do país, mesmo com a melhora dos fundamentos econômicos nos últimos anos, mérito sobretudo de Lula, que se não fosse pelo escândalo da quebra de sigilo do caseiro Francenildo teria mantido Antonio Palocci na Fazenda até hoje, só um governante totalmente irresponsável mandaria baixar a taxa Selic a toque de caixa, jogando para a platéia.

Para começar, a dívida mobiliária da União, em termos líquidos, ainda se mantém na ordem de 50% do PIB. Junto com a carga tributária, de escorchantes 38% do PIB, essa dívida sufoca o setor privado, porque drena para os títulos do governo recursos que poderiam estar aplicados na produção. Mesmo assim, a Previdência oficial fechou o ano passado com um déficit de 42 bilhões de reais, e que só tende a crescer. E, para completar, o aumento de renda das famílias com a queda da inflação e os reajustes salariais reais tem impulsionado o consumo.

Diminuir os juros reais para um nível 'civilizado' de 2 a 3% ao ano da noite para o dia, embora isso possa ser desejável por todos, equivaleria assim a dinamitar o precário equilíbrio macroeconômico que permite obter as atuais baixas taxas de inflação. E, se os juros não podem ser reduzidos com celeridade, também não se pode querer que o dólar suba com rapidez, porque as exportações vão bem apesar do real supervalorizado e a remuneração paga pelos títulos públicos continua a atrair recursos estrangeiros para o país.

Trata-se, realmente, de uma armadilha, porque a conjunção desses fatores impede um maior crescimento econômico, por falta de investimentos. Existe poupança suficiente, mas esta não se transforma em investimento porque no meio do caminho uma grande parte é capturada pelo financiamento da dívida pública. Hoje, a taxa de formação de capital em relação ao PIB é da ordem de 19%, quando o Brasil precisaria elevá-la acima dos 25% a cada ano para pensar um crescimento econômico sustentável de 5%.

Como se faz para sair dessa armadilha? Só existe um caminho: a redução do tamanho do Estado, para diminuir a carga tributária e a concorrência pelos recursos de financiamento. O problema é que esse processo também demora. Para não haver rupturas desastrosas, em primeiro lugar se deve diminuir a dívida, com a manutenção dos superávits primários em 4,25% do PIB ou até mais, em segundo economizar onde for possível no orçamento público e, em terceiro, retomar o processo de privatizações interrompido no atual governo. Para completar, deve-se reformar a Previdência e o sistema tributário.

Isso, sim, seria uma verdadeira agenda para o crescimento sustentável. Pode demorar, pode doer, mas não existe almoço grátis em economia, ao contrário do que o governo tenta fazer crer com esse PAC, cuja única medida de contenção de despesas é a limitação da folha salarial do funcionalismo a um teto de crescimento de 1,5% real a cada ano, mas que deverá ser derrubada com facilidade no Judiciário, assim como a utilização do Fundo de Garantia dos trabalhadores para financiar projetos de infraestrutura.

O PAC nasce condenado porque se trata de um programa mais inflacionário do que de crescimento. O Banco Central, certamente, levou esse aspecto em conta quando decidiu cortar a taxa Selic em apenas 0,25 ponto percentual. Lula, portanto, faz bem em apoiar Henrique Meirelles, o presidente do Banco Central, contra seu ministro da Fazenda, Mantega.



Escrito por Dom Quixote às 08h51
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Muito barulho por pouco

Crescimento econômico não se obtém por decreto. Essa verdade simples parece ter sido desprezada pelos formuladores palacianos do PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, anunciado ontem pelo presidente Lula como o grande projeto do segundo mandato de seu governo para a área econômica.

Algumas das decisões tomadas – que ainda precisam passar pelo Congresso – podem de fato estimular as atividades em segmentos localizados da produção econômica, por reduzir a incidência da carga tributária. Outras não terão resultado prático nenhum a curto prazo, por constituírem providências burocráticas, como a de extinguir a Rede Ferroviária Federal e a Companhia de Navegação do São Francisco, já em processo de liquidação, ou meras intenções, como as de disciplinar a gestão, organização e controle social das agências reguladoras e continuar diminuindo a TJLP, a taxa de juro cobrada pelo BNDES das empresas. E outras, ainda, tendem a despertar muita resistência para sair do papel. As centrais sindicais, por exemplo, estarão em pé de guerra contra a utilização do Fundo de Garantia dos trabalhadores para financiar projetos de infraestrutura. Já os governadores não aceitarão tão facilmente a renúncia fiscal do IPI e do Imposto de Renda, prevista para algumas áreas, por prejudicar suas receitas estaduais.

Para aumentar ainda mais as desconfianças em relação à eficácia do pacote, a única medida de austeridade fiscal anunciada é a limitação da folha de pessoal, inclusive de inativos, por 10 anos - ué, mas o atual governo não acaba em 2010? -, ao crescimento anual de 1,5% mais a variação do IPCA, o índice oficial de inflação. As decisões de sentido inverso, ao contrário, abundam. Além da promessa de reduzir a TJLP e das isenções de impostos propostas, há uma que é, francamente, estapafúrdia. Se ela foi negociada com as centrais sindicais, como diz o governo, o foi com muita incompetência. Prevê o reajuste do salário mínimo, entre 2008 e 2011, com base na variação anual do INPC mais a taxa de crescimento real do PIB de dois anos imediatamente anteriores.

Façamos umas contas. O crescimento acumulado do PIB nos dois últimos anos foi de cerca de 5,2%. O INPC subiu 2,81% em 2006. A soma multiplicada das duas taxas, com o efeito dos juros compostos, dá cerca de 8,2%. Se a regra já estivesse valendo, o mínimo seria reajustado por esses 8,2% neste ano, ficando praticamente no mesmo nível dos 380 reais anunciados pelo governo. Ocorre que a inflação foi excepcionalmente baixa no ano passado. Se o INPC tivesse subido por exemplo 5%, como se previa, o governo seria obrigado a conceder um reajuste de 10,5%, causando um estrago ainda maior nas contas da Previdência, uma das principais fontes de déficit público. É claro que todos gostariam de dar ao trabalhador brasileiro o maior salário mínimo do mundo, mas uma coisa é querer, outra é poder. Assim, diante da realidade do país hoje, uma regra mais sensata, para não estourar de vez com o sistema oficial de aposentadoria e pensões, seria um reajuste pelo aumento do PIB per capita ocorrido a cada ano, e não do PIB geral em dois anos, mais o INPC.

Não há crescimento econômico que se sustente sem a criação de um ambiente favorável aos negócios. Isso significa, principalmente, encolher o tamanho do Estado para que este deixe de tomar recursos do setor privado para financiar as próprias dívidas, equilibrar as contas da Previdência, parar de interferir em setores com regulação acordada em contratos, melhorar a infraestrutura cortando gastos públicos correntes, reduzir a burocracia, estimular o empreendedorismo e ao mesmo tempo modernizar a legislação sindical para favorecer a geração de empregos.

O PAC vai na direção contrária a tudo isso. Basta ver que, do total de 504 bilhões de reais em investimentos previsto para o período de 2007 a 2010, somente a estatal Petrobrás será responsável por quase 30%, ou 144 bilhões. Como a economia brasileira é muito maior que a Petrobrás, só por aí dá para concluir que o pacote anunciado por Lula é insuficiente para fazer o PIB crescer 5% ao ano, como quer o governo.



Escrito por Dom Quixote às 03h14
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Por quem os sinos dobram

Moribunda. A palavra não soa bem, mas serve para explicar a situação em que se encontra o Mercosul. Prestes a completar 16 anos de existência, o bloco comercial dos países do Cone Sul, que no ano passado admitiu a entrada da Venezuela como membro pleno por instâncias do semiditador Hugo Chávez, não consegue sair do estágio inicial de área de livre comércio e a cada dia parece mais distante do sonho de chegar à união aduaneira.

Assim como a Alalc, dos anos 60, que nunca passou de uma sigla vazia, o Mercosul criado em março de 1991 corre o risco de acabar por inanição antes de promover a integração econômica dos países da América Latina a partir de seu núcleo fundador, constituído de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. E isso, por uma razão simples: a cada passo adiante seguem-se dois para trás, porque seus integrantes não admitem sacrificar um milímetro das soberanias nacionais em favor da integração regional.

O contencioso agora aberto pela Argentina contra o Brasil na Organização Mundial do Comércio, OMC, por conta de uma sobretaxa antidumping imposta à resina PET de garrafas de plástico, é apenas a mais recente de uma série de disputas comerciais travadas entre os membros. Outras batalhas já ocorreram, em especial no comércio de automóveis e eletro-eletrônicos entre Brasil e Argentina, e os acordos costurados sempre acabaram beneficiando mais o país vizinho.

A belicosidade argentina recrudesceu sob a presidência de Néstor Kirchner, que almeja reeleger-se e faz do tiroteio com os parceiros do bloco um instrumento de sua propaganda política. Até o pequeno Uruguai não escapa do fogo oportunista de Kirchner. Por ousarem instalar duas fábricas de celulose na sua margem do Rio da Prata com capital finlandês, para diminuir as importações, os uruguaios sofrem aberta campanha de boicote ao turismo receptivo e restrições à entrada de seus produtos na Argentina.

Integração econômica com soberania plena não existe. É preciso que cada um ceda algo para todos obterem um bem coletivo maior, como já mostrou a União Européia. As 'calientes' cabeças políticas desta parte do mundo parecem pensar diferente, em sua típica atitude subdesenvolvida de reinventar a roda. Que insondável mistério torna pétreo o fascínio latino-americano pelo atraso?



Escrito por Dom Quixote às 16h38
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O Constellation sendo preparado para voar (foto Revista FLAP Internacional)

Nas asas da Panair

Um escritor francês casado deixa Paris e vai a Lisboa fazer uma palestra sobre Balzac. Na capital portuguesa tem um caso com a aeromoça, também francesa, que conhece no avião. O caso prossegue na França e acarreta trágicas conseqüências. Esse filme, Um Só Pecado (La Peau Douce), de 1964, dirigido por François Truffaut e interpretado por Jean Desailly (o escritor) e Françoise Dorléac (a aeromoça), foi exibido ontem na TV paga e vale ser lembrado não apenas por suas qualidades e pelo fato de ter no elenco principal a bela irmã de Catherine Deneuve, morta aos 25 anos num acidente de carro em 1967, como também por dois detalhes caros aos brasileiros. Um é que o camareiro do hotel em Lisboa fala em português mesmo ao mostrar as instalações do quarto para o francês, que entende por estar vendo e não só ouvindo, e agradece em sua língua. E o outro, o principal, é o nome da companhia aérea dos vôos de ida e de volta do escritor: Panair do Brasil.

Nestes tempos de sofrimento nos aeroportos com o apagão aéreo no país, causado primeiro por um capricho dos operadores de vôo e depois pelo overbooking praticado pela TAM, os mais antigos devem estar com saudades da Panair. "Descobri que as coisas mudam/e que tudo é pequeno, nas asas da Panair", cantava a insuperável Elis Regina, em Conversando no Bar, de Milton Nascimento e Fernando Brant (clique aqui para ouvir a música na rádio UOL). "Descobri que minha arma é/o que a memória guarda dos tempos da Panair/(...)A primeira Coca-Cola foi/me lembro bem agora, nas asas da Panair/A maior das maravilhas foi/voando sobre o mundo, nas asas da Panair"

Um símbolo do orgulho nacional em sua época, a Panair fez seu vôo inaugural em 24 de janeiro de 1930, ligando o Rio de Janeiro a Fortaleza. Tinha a bordo apenas convidados, além dos tripulantes. O primeiro vôo com venda de bilhetes se deu no ano seguinte. Nascida como filial da então poderosa Pan American Airlines, que havia incorporado a Nyrba – New York Rio Buenos Aires Lines Inc -, constituída um pouco antes pelo coronel Ralph O'Neil no Brasil, a Panair era no seu início uma companhia de capital 100% americano. A partir de 1942, porém, passou a admitir sócios brasileiros, e no início da década de 1960 já se tornara inteiramente nacional. Começou a operar rotas internacionais em abril de 1941 com os famosos Constellations, de quatro motores a hélice, e levou a bandeira brasileira pintada na fuselagem, na cauda e ao lado da cabina do comandante, a muitos lugares do mundo. Dá para ver bem a bandeira numa cena do filme de Truffaut.

A Panair foi um caso de amor dos brasileiros, em especial dos seus 5 000 funcionários, para com a companhia. Quando a empresa se viu em dificuldades financeiras, no início dos 60, com a inflação, os empregados se cotizaram para ajudá-la, doando 25% dos salários. A Panair anunciava com orgulho ter transportado a seleção brasileira de futebol vitoriosa nas Copas do Mundo de 1958, na Suécia, e de 1962, no Chile.

Mas em 10 de fevereiro de 1965, com uma canetada do brigadeiro Eduardo Gomes, então ministro da Aeronáutica da ditadura militar instalada no ano anterior, a Panair teve cassado o seu registro. Suas rotas internacionais passaram a ser operadas no mesmo dia, sem nenhuma explicação, pela Varig, e as nacionais, pela Cruzeiro do Sul. Por que razão o brigadeiro tomou essa decisão contra a empresa, se ela já era de capital 100% nacional, tanto quanto a Varig ou a Cruzeiro? Não há documento oficial a respeito, somente suspeitas. A maior é que a intervenção se deu porque o presidente e maior acionista da Panair, Celso da Rocha Miranda, era amigo íntimo do ex-presidente Juscelino Kubitscheck, cassado e perseguido pelo regime militar. Quase vinte anos depois, em 1984, o Supremo Tribunal deu ganho de causa aos herdeiros da companhia, ao considerar a falência fraudulenta e condenar a União a ressarcir a Panair. Mas já era muito tarde.

A Varig, que incorporou a Cruzeiro do Sul, a Transbrasil e a Vasp, só para citar as principais companhias da era pós-Panair, ou morreram ou estão moribundas. E se a TAM recorre ao overbooking, não é por maldade. Conclusão: o governo que faz e desfaz no setor aéreo, em nome da reserva de mercado às companhias nacionais, só não consegue o principal, garantir a sobrevivência das empresas. É pena, porque a bandeira na fuselagem não serve apenas para afagar nosso ego. Qualquer um que se tenha reconfortado a bordo de uma aeronave brasileira, depois de algumas semanas em solo estrangeiro, sabe do que estamos falando.



Escrito por Dom Quixote às 03h07
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Desapego aos fatos

Dos vários assuntos nos quais o presidente-candidato Lula deveria ser mais bem assessorado para não dizer bobagens, um é a economia. A respeito dos programas heterodoxos de combate à inflação adotados desde a década de 80, num ciclo encerrado com o Plano Real, em 1994, Lula afirmou ontem o seguinte, de acordo com o jornal O Estado de S. Paulo: "Podemos pegar o Plano Collor, o Verão, o Bresser, o Real e podemos ir pegando outros planos para ver quanto tempo duraram". E arrematou: "O mais importante deles, que teve a maior política de distribuição de renda deste país, o Plano Cruzado, durou de 26 de fevereiro de 1986 até as eleições de novembro".

A referência à duração dos planos só pode ter ocorrido por um lapso de Lula. O Cruzado, de autoria da equipe do então ministro da Fazenda, Dilson Funaro, de fato existiu no período citado até acabar no estelionato eleitoral cometido pelo governo José Sarney, em novembro de 1986, quando mal fechadas as urnas o então presidente mandou editar o Cruzado 2, com uma alta generalizada de preços artificialmente represados. O plano durou, portanto, apenas nove meses. Já o Real, criado pela equipe do então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, no governo Itamar Franco, em junho de 1994, dura até hoje, portanto há mais de doze anos. Logo, foi uma referência totalmente sem sentido.

Lula parece ter apagado da memória também que seu partido, o PT, foi contra tanto o Cruzado quanto o Real, por ver neles prejuízos à classe trabalhadora pelo achatamento da renda. Agora muda o discurso e o conceito acerca dos programas de estabilização, mas não o desprezo pela matemática. Se o PT nunca conseguiu entender, por ter fugido da escola, que a simples redução da inflação já resulta no aumento da renda dos trabalhadores e da população em geral, e não no achatamento, Lula demonstra hoje ter aprendido apenas parcialmente essa lição. É verdade que o Cruzado promoveu uma distribuição de renda com o congelamento de preços, porque o ônus do processo inflacionário sempre recai mais sobre os pobres do que os ricos, mas o Real fez muito mais nesse sentido. Não só por sua maior durabilidade como também pelo fato de que, na época da adoção do Cruzado, a inflação era de cerca de 15% ao mês, enquanto na do Real chegava a quase 50%.

Lula, certamente, quis com sua fala agradar o aliado Sarney e jogar pedras no telhado do adversário Geraldo Alckmin, candidato da coligação PSDB-PFL. Deu-se mal porque exagerou na retórica e falseou nos números.



Escrito por Dom Quixote às 14h24
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